Amigos que só fazem asneiras

Por Ana Bárbara Pedrosa
17 de janeiro de 2020
Em formatos muito diferentes, com vidas muito diferentes, há grupos de amigos que têm mais sorte do que outros. O que nunca se pode dizer é que tenham uma vida aborrecida. Pode não ser seguro, mas não é coisa pouca.


 
Bill Denbrough e os amigos
Talvez nem seja justo pô-los aqui. Não é que se tenham metido em aventuras de propósito, e a intenção nem era má. Mas a verdade é que, se os pais soubessem, não iam achar graça a que se metessem nos esgotos em busca de um palhaço assassino.
Bill é o líder do Clube dos Otários. Depois de Georgie, o seu irmão mais novo, ter sido raptado e assassinado por Pennywise, o mais assustador e psicopata dos palhaços, o rapaz jura a sua vingança – e com ele leva os amigos, que enfrentam os medos não só dos esgotos e do escuro e da morte mais que possível – até provável –, mas também os de todas as formas que o palhaço adota para os assustar – lobisomem, múmia, zombie, Drácula, monstro de Frankenstein, aranha, leproso, o pai assustador de uma criança abusada. E, claro, a própria forma de palhaço, que, ao invés de infantil, já é sinistra. Tem tantas formas que nem se sabe o que é. Chamam-lhe A Coisa. Stephen Kingg pegou nos medos de infância e fez um dos seus maiores romances.
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Tom Sawyer e Huckleberry Finn
São dois amigos, e são de tal forma carismáticos que cada um mereceu das mãos de Mark Twain um romance homónimo. Ambos os livros figuram nas listas de clássicos em língua inglesa, marcando uma mudança no curso da literatura juvenil. Nos romances, retrata-se a experiência de infância – e sem cor-de-rosas, sem unicórnios. Twain vai descrevendo os lugares e as gentes ao longo do rio de Mississippi, sem esquecer o racismo que estruturava a sociedade da época. Juntos, Tom e Huckleberry metem-se em inúmeras aventuras, e estas vêm sempre de braço dado com o sistema de escravatura, que nunca é paisagem, mas contexto. Andando pelas ruas, os dois descobrem o mundo – e os leitores descobrem-no com eles.
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Os amigos das aventuras
Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada marcaram gerações. São incontáveis, as horas que passei com o Pedro, o Chico, o João, a Teresa e a Luísa, e até o Faial e o Caracol, dois cães que acabavam sempre por fazer parte das aventuras em que o quinteto se metia. O primeiro volume foi publicado em 1982, e desde aí já foram mais de 60. A coleção é sem dúvida das mais importantes produções para o público juvenil em Portugal, vindo preencher uma lacuna na produção nacional, já que os leitores tinham sempre de se virar para Enid Blyton.
Ler os livros das autoras portuguesas faz inveja às crianças. Não há como estar a crescer e não querer aquela vida. Qualquer ida ao supermercado acaba numa aventura capaz de dar um livro. E não é que os cinco amigos procurem os problemas, estes é que parecem segui-los. Seja como for, até o mais atinado do grupo acaba a saltar por cima das regras, sempre com boas intenções, e a ver-se nos cenários mais improváveis.
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