Ainda há histórias de amor

Por Ana Bárbara Pedrosa
5 de março de 2025
A literatura é como a televisão ao domingo à tarde: histórias de amor é o que não falta. É natural que o tema seja clichê: sendo a obsessão de todos, não podia ser de outra maneira. Seguem algumas sugestões de personagens apanhadas umas pelas outras.
Tudo isto é Sarah
Se é para histórias de amor, vamos a França: há lá coisa mais romântica do que a imagem de Paris? Esta é a estreia de Pauline Delabroy-Allard, que nos conta uma história que começa na capital francesa, onde duas mulheres se conhecem: uma é professora e mãe solteira; outra é Sarah. Sarah é violinista e tem todos os elementos para ser a estrela de um romance: um quê de excêntrico, um quê de sedutor. À medida que a professora se apaixona por ela, o leitor apaixona-se também, embora vá sentindo o desconcerto de se ver perante alguém tão imprevisível, ou talvez por isso. A relação desenrola-se e o clichê romântico acompanha a leitura, sempre no epicentro da cultura francesa: as duas metem-se em concertos, no teatro, no cinema, na gastronomia, e a paixão suspende o tempo à volta. A voragem romântica aguenta-se até à última página, com a obsessão a alimentar o texto e a varrer a vida toda.
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Mirafiori
Este também dá a volta à cabeça. A fórmula é fácil: a história parece banal, e eis o que basta para agarrar o leitor. Após o fim de um grande amor, um homem conta o vazio que o assola. Ao longo de dezenas de páginas, eis o resumo da verdadeira tragédia: a história dava certo e depois deu errado. Através de um narrador que não é santo nenhum, contam-se os momentos de viragem, as canalhices imperdoáveis, os momentos que criaram um sofrimento atroz que perdura. Sendo coetâneo, mostra-se ainda o que acontece a uma história que parece morrer a meio, com perseguições online que alimentam obsessões, perpetuando-as ao invés de as deixar morrer com o tempo e a distância. Estando a história escrita na primeira pessoa, o sofrimento está ali sem pó de arroz, e é difícil – impossível? – para quem lê não ficar atordoado.
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Amor
Agora, outro estilo: através de banda desenhada, género com cada vez mais adeptos, Filipa Beleza conta-nos e mostra-nos seis histórias de amor. Ali, cabe tudo: o amor romântico, tal como nos exemplos anteriores, mas também o amor dentro da família ou por um animal que um familiar nos deixou, e que é também memória. O amor aparece, assim, como coisa múltipla, de formatos vários, que nos ata uns aos outros – e que, volta e meia, nos desata por dentro, deixando partido o órgão que bombeia o sangue. É que o que aparece como fim de qualquer maleita é também o propulsor dos maiores desgostos que existem. Com desenhos expressivos, Filipa Beleza conta esta história – e fá-lo tão bem através da parte gráfica que nem precisa de texto.
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Estocolmo
Já se viu que tenho tendência para a tragédia. E aqui temos uma tragédia que vem das mãos de um autor cuja voz costuma amansar-nos os ouvidos. Em Estocolmo, Sérgio Godinho conta uma daquelas histórias que não são fáceis de esquecer. A partir daqui, cuidado com os anúncios de aluguer de quartos. Lá vai Vicente responder a um, e assim conhece Diana Albuquerque, dona da casa, pivô de telejornal. Primeiro, há o pasmo; depois, atração entre ambos. A conversa corre bem e Vicente põe-se a morar no sótão da casa dela, recebendo-a na cama várias vezes, ela que tem vinte anos a mais. Depressa se vê que o clichê ao contrário não deixa de ser clichê, e Diana não só é uma predadora como tem tendência para o crime. Prende o rapaz no quarto, mas nem era preciso: encantado por ela, Vicente não queria ir a lado nenhum. Mesmo enquanto vítima, continua apaixonado, tão certo de como a vê – inteira e bela – que nem pensa que tem síndrome de Estocolmo. Num romance carregado de discurso direto, os leitores não só leem como veem a ação a acontecer, as personagens a mexerem-se uma para a outra, num registo quase cinematográfico. A ação é rápida, os parágrafos são curtos e a prosa cinge-se ao essencial.
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