«Sopro», um poema de Oníricas

14 de fevereiro de 2023
Ana Marques Gastão, poetisa e ficcionista, transcreveu sonhos que teve, ao longo de muitos anos, para poesia. À medida que os escrevia, estes poemas pareceram-lhe «sempre inacabados». Acrescentou-lhes, então, desenhos digitais, que nasceram do movimento espontâneo dos seus dedos e que se tornaram «símbolos gráficos de uma escrita que os passou a integrar».

Surge assim o novo livro da autora, Oníricas. «Sopro» é um dos poemas nascidos desta fusão do real com o onírico.


SOPRO


Tenho um astro em cada dedo,
os dez formam mil galáxias.
Um aponta para o que é, os
outros para o desconhecido.

O do meio suporta tudo, o
anelar respira, faz-se sopro,
não escorre como um rio,
sustém a terra. O polegar

fixa o vestido e desviando
a cauda, ata-a a um fim sem
fim. O indicador estende-se
em flecha, adivinha o atalho,

e o pequeno, antes de serenar,
inclina-se como um monge
quando a luz se ameniza e
atravessa, gloriosa, a sombra.

 



Ana Marques Gastão, Oníricas

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