Um poema para Adão, e outro para Eva
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22 de junho de 2023
Rita Taborda Duarte tem cerca de uma vintena de obras editadas, entre poesia e literatura para a infância. Não Desfazendo reúne os seus 25 anos de poesia e inclui um livro inédito: Uma Pedra na Boca. «Adão» e «Eva» são dois dos poemas que irá encontrar neste novíssimo livro.
ADÃO
Acompanhei-te ao pomar
(insististe, cismando: que te seguisse)
o pó na dobra da saia os pés
esboroando a terra brava
feita pedra.
Fôlego nenhum tossindo a poeira
e na faringe seca ardendo vagamente
o hálito: maçã desfeita e acre.
A pele escandida e macilenta de fastio
o tédio dos passos
tropeçando nas raízes à tona dos caminhos:
a superfície da terra rapada à míngua.
Mais pedra sempre que terra.
Ali, a esterilidade:
boca escancarada aberta à fome.
A aridez amamentava ainda os frutos
com a ternura miserável dos pobres
sem uma íngua de água
para aquietar a sede
de ficar.
Mas acompanhei-te ai pomar
(afinal, insististe que fosse)
e provei do fruto engelhado
com engulho e náusea
a maçã antiga e murcha
engasgo abrigado
na cobardia húmida
da umbria.
EVA
Mais fácil digerir a lentidão das pedras
que engolir um pomo apodrecido a vida inteira.
Mesmo esmagando o coração
a uma maçã acerba,
que a maceremos até ao osso
só fermento e vinagre
se coa da colheita.
Jamais uma maçã
ganhará o sabor franco de um figo
lídimo
devassidão salaz à voz da fala
autêntica madura
sobre os lábios.
ADÃO
Acompanhei-te ao pomar
(insististe, cismando: que te seguisse)
o pó na dobra da saia os pés
esboroando a terra brava
feita pedra.
Fôlego nenhum tossindo a poeira
e na faringe seca ardendo vagamente
o hálito: maçã desfeita e acre.
A pele escandida e macilenta de fastio
o tédio dos passos
tropeçando nas raízes à tona dos caminhos:
a superfície da terra rapada à míngua.
Mais pedra sempre que terra.
Ali, a esterilidade:
boca escancarada aberta à fome.
A aridez amamentava ainda os frutos
com a ternura miserável dos pobres
sem uma íngua de água
para aquietar a sede
de ficar.
Mas acompanhei-te ai pomar
(afinal, insististe que fosse)
e provei do fruto engelhado
com engulho e náusea
a maçã antiga e murcha
engasgo abrigado
na cobardia húmida
da umbria.
EVA
Mais fácil digerir a lentidão das pedras
que engolir um pomo apodrecido a vida inteira.
Mesmo esmagando o coração
a uma maçã acerba,
que a maceremos até ao osso
só fermento e vinagre
se coa da colheita.
Jamais uma maçã
ganhará o sabor franco de um figo
lídimo
devassidão salaz à voz da fala
autêntica madura
sobre os lábios.
Rita Taborda Duarte, Não Desfazendo