Dois poemas de Jorge de Sena
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23 de março de 2023
Jorge de Sena , um dos grandes poetas da língua portuguesa, sempre lutou pela liberdade. Ter passado pela Armada em plena Guerra Civil Espanhola, e durante a fascização do Estado Novo, foi para ele uma experiência traumática da sua adolescência, que transporia para diversos poemas e ficções, como A Grã Canária e Sinas de Fogo. Em 1959, receando as perseguições políticas resultantes de uma falhada tentativa de golpe de estado, a 11 de março desse ano, em que está envolvido, exila-se no Brasil. Aí, dedica-se ao ensino da literatura, dedicando-se livremente à escrita. Os seus anos no Brasil foram os primeiros que viveu, como adulto, em liberdade, e constituem porventura o seu período mais criativo. O golpe militar de 1964, nesse país, faz o escritor temer um regresso ao passado, pelo que, em 1965, aproveita a oportunidade de se mudar para os EUA, com a esposa e os 9 filhos de ambos.
A obra de Jorge de Sena é vasta e multifacetada, com mais de vinte coletâneas de poesia, uma tragédia em verso, uma dezena de peças, mais de 30 contos, uma novela e um romance, e cerca de quarenta volumes dedicados à crítica e ao ensaio, à história e à teoria literária e cultural, ao teatro, ao cinema e às artes plásticas.
Nestes dois poemas do novo livro Fidelidade, escritos em Portugal em 1953 («Epitáfio») e em 1956 («Quem a tem…»), Jorge de Sena expressa o seu desejo de uma vida plena e livre. O que acabaria por alcançar, para bem do legado que nos deixou.
EPITÁFIO
De mim não buscareis, que em vão vivi
de outro mais alto que em mim próprio havia.
Se em meus lugares, porém, me procurardes
o nada que encontrardes
eu sou e minha vida.
Essas palavras que em meu nome passam
nem minhas nem de altura são verdade.
Verdade foi que de alto as desejei
e que de mim só maldições cobriam.
Debaixo delas a traição se esconde,
porque demais me conheci distante
de alturas que de perto não existem.
Fui livre, como as águas, que não sobem.
Pensei ser livre, como as pedras caem.
O nada contemplei sem êxtase nem pasmo,
que o dia a dia
em que me via
ele mesmo apenas era e nada mais.
Por isso fui amado em lágrimas e prantos
do muito amor que ao nada se dedica.
Nada que fui, de mim não fica nada.
E quanto não mereço é o que me fica.
Se em meus lugares, portanto, me buscardes
o nada que encontrardes
eu sou e minha vida
«QUEM A TEM…»
Não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.
Eu não posso senão ser
desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença
e sempre a verdade vença,
qual será ser livre aqui,
não hei-de morrer sem saber.
Trocaram tudo em maldade,
É quase um crime viver.
Mas, embora escondam tudo
e me queiram cego e mudo,
Não hei-de morrer sem saber
Qual a cor da liberdade.
A obra de Jorge de Sena é vasta e multifacetada, com mais de vinte coletâneas de poesia, uma tragédia em verso, uma dezena de peças, mais de 30 contos, uma novela e um romance, e cerca de quarenta volumes dedicados à crítica e ao ensaio, à história e à teoria literária e cultural, ao teatro, ao cinema e às artes plásticas.
Nestes dois poemas do novo livro Fidelidade, escritos em Portugal em 1953 («Epitáfio») e em 1956 («Quem a tem…»), Jorge de Sena expressa o seu desejo de uma vida plena e livre. O que acabaria por alcançar, para bem do legado que nos deixou.
EPITÁFIO
De mim não buscareis, que em vão vivi
de outro mais alto que em mim próprio havia.
Se em meus lugares, porém, me procurardes
o nada que encontrardes
eu sou e minha vida.
Essas palavras que em meu nome passam
nem minhas nem de altura são verdade.
Verdade foi que de alto as desejei
e que de mim só maldições cobriam.
Debaixo delas a traição se esconde,
porque demais me conheci distante
de alturas que de perto não existem.
Fui livre, como as águas, que não sobem.
Pensei ser livre, como as pedras caem.
O nada contemplei sem êxtase nem pasmo,
que o dia a dia
em que me via
ele mesmo apenas era e nada mais.
Por isso fui amado em lágrimas e prantos
do muito amor que ao nada se dedica.
Nada que fui, de mim não fica nada.
E quanto não mereço é o que me fica.
Se em meus lugares, portanto, me buscardes
o nada que encontrardes
eu sou e minha vida
«QUEM A TEM…»
Não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.
Eu não posso senão ser
desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença
e sempre a verdade vença,
qual será ser livre aqui,
não hei-de morrer sem saber.
Trocaram tudo em maldade,
É quase um crime viver.
Mas, embora escondam tudo
e me queiram cego e mudo,
Não hei-de morrer sem saber
Qual a cor da liberdade.