A minha primeira vez com Proust
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9 de setembro de 2024
Não acredito que haja livros obrigatórios, pelos quais todos os leitores têm de passar. Os propósitos que nos prendem à leitura são diversos: entretenimento, descanso, fuga, inebriamento, aprendizagem…. Lermos o que queremos é um dos mais íntimos atos democráticos que temos para connosco. Mas é mais difícil do que parece e as pressões são muitas. Das redes sociais aos grandes literatos, da escola à nossa própria consciência, a sociedade parece impor-nos um gosto, um caminho, um cânone do qual, se queremos ser respeitados, não nos devemos desviar. Ou, se o fazemos, que seja num ato de excentricidade, como se fôssemos uma dama antiga que de repente decide tirar os sapatos e correr descalça pela rua fora. Que loucura.
Mas se o parágrafo acima é válido para a relação de um leitor com os livros que lê, já não o é para alguém que se quer afirmar no mundo da escrita literária. Há autores e livros incontornáveis. Não em nome de um gosto universal, mas pelo facto pragmático de que nos dão ferramentas estéticas e linguísticas que abrem novos mundos, no que à escrita literária diz respeito. Curiosamente, a maior parte desses livros situa-se entre o séc. XIX e XX. Alguns dos que já li, que considero muito importantes e, mais do que isso, úteis a um escritor, são Crime e Castigo, O Grande Gatsby, Cem Anos de Solidão, Jane Eyre, Admirável Mundo Novo, Frankenstein, Orlando, 1984, Lolita, Beloved, Rebecca, A Montanha Mágica, Ensaio sobre a Cegueira, O Processo, entre tantos outros.
Mas faltava-me iniciar a minha jornada com Proust. O preconceito era real: quem me falava dele parecia-me ser muito poser, querendo ter o autor entre os seus lidos apenas para que os outros vissem.
Mas se o parágrafo acima é válido para a relação de um leitor com os livros que lê, já não o é para alguém que se quer afirmar no mundo da escrita literária. Há autores e livros incontornáveis. Não em nome de um gosto universal, mas pelo facto pragmático de que nos dão ferramentas estéticas e linguísticas que abrem novos mundos, no que à escrita literária diz respeito. Curiosamente, a maior parte desses livros situa-se entre o séc. XIX e XX. Alguns dos que já li, que considero muito importantes e, mais do que isso, úteis a um escritor, são Crime e Castigo, O Grande Gatsby, Cem Anos de Solidão, Jane Eyre, Admirável Mundo Novo, Frankenstein, Orlando, 1984, Lolita, Beloved, Rebecca, A Montanha Mágica, Ensaio sobre a Cegueira, O Processo, entre tantos outros.
Mas faltava-me iniciar a minha jornada com Proust. O preconceito era real: quem me falava dele parecia-me ser muito poser, querendo ter o autor entre os seus lidos apenas para que os outros vissem.
Marcel ProustLikes Madeleine © Monkey-Fromthebridge
Creative Commons Attribution 3.0 License
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E os que não me pareciam assim, falavam-me da dificuldade, do aborrecimento, das frases longas e, literalmente, do tempo perdido. Havia, ainda, quem me dissesse que leu vinte páginas e desistiu e era mítica a história de um amigo que tinha lido os sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido, em francês, referindo-se muitas vezes a esse período como A la recherche.
Comecei a ler Do Lado de Swann, combinando comigo próprio que não me levaria a mal se o abandonasse daí a algumas páginas. Que poderia não entender todas as palavras, todas as frases e que não me poria a tentar compreender a importância do livro em cada linha. Foi nas férias, havia o Alentejo, uma piscina, trinta e muitos graus e água sempre fresca. Confesso que isso ajudou. Mas cedo percebi que estava perante um monumento, tão impressionante como os de granito ou vidro, tão assombroso como um castelo recheado de obras de arte. A escrita mostrou-se complexa, densa, sim, mas poética, plena de detalhes, onde mesmo nas descrições mais longas me senti como que embalado a continuar, olhando os lugares de diferentes planos e perspetivas.
O primeiro volume do livro está dividido em três partes e logo na primeira temos uma das cenas mais famosas da literatura: as madalenas com chá. Não vou estragar a experiência ao leitor, apenas referir que Proust parte de uma sensação, que não é apenas paladar, nem apenas olfato, mas que remete o narrador para um fluxo de consciência onde estão presentes as suas memórias de infância em casa dos pais. Memórias que não sabemos se traduzem a realidade de forma tão literal, ou se vêm impregnadas de tempo, de transformação, de sensações. O recurso a um elemento que traz memórias faz com que o tempo não seja linear, expectável.
Comecei a ler Do Lado de Swann, combinando comigo próprio que não me levaria a mal se o abandonasse daí a algumas páginas. Que poderia não entender todas as palavras, todas as frases e que não me poria a tentar compreender a importância do livro em cada linha. Foi nas férias, havia o Alentejo, uma piscina, trinta e muitos graus e água sempre fresca. Confesso que isso ajudou. Mas cedo percebi que estava perante um monumento, tão impressionante como os de granito ou vidro, tão assombroso como um castelo recheado de obras de arte. A escrita mostrou-se complexa, densa, sim, mas poética, plena de detalhes, onde mesmo nas descrições mais longas me senti como que embalado a continuar, olhando os lugares de diferentes planos e perspetivas.
O primeiro volume do livro está dividido em três partes e logo na primeira temos uma das cenas mais famosas da literatura: as madalenas com chá. Não vou estragar a experiência ao leitor, apenas referir que Proust parte de uma sensação, que não é apenas paladar, nem apenas olfato, mas que remete o narrador para um fluxo de consciência onde estão presentes as suas memórias de infância em casa dos pais. Memórias que não sabemos se traduzem a realidade de forma tão literal, ou se vêm impregnadas de tempo, de transformação, de sensações. O recurso a um elemento que traz memórias faz com que o tempo não seja linear, expectável.
Na segunda parte, temos o retrato da sociedade da época a partir de Swann, dos seus amores, sobretudo da paixão por Odette, que descobrimos ser uma cortesã e que vai espoletar um sentimento esdrúxulo de ciúmes no protagonista. Será esta parte sobre o amor ou sobre o ciúme? Sobre os caminhos tortuosos da paixão ou sobre a sedução? Para mim, foi sobretudo sobre a destruição que as emoções provocam no ser humano, tratada de uma forma intensa, onde não há vilões nem heróis e onde, novamente, os planos escolhidos nos colocam no papel de observadores da inconsciência de alguém que se entrega à obsessão.
Por fim, na terceira parte, que é bastante mais pequena devido a um corte editorial, regressamos ao narrador em primeira pessoa. O narrador é, então, um pouco mais velho e vai também encontrar a forma do amor sublime. Nesta parte há, ainda assim, um fechar de narrativa, que seria sobretudo perverso, da minha parte, expor, uma vez que cortaria a surpresa e uma leve dose de mistério que também se consegue encontrar no livro.
No final, dei a tarefa como cumprida com êxito. Não vou dizer que não houve partes em que me senti entediado, sobretudo nas extensas descrições de lugares. Mas tratando-se de uma escrita tão bela, essa sensação esvanece. Fiquei surpreendido por haver realmente um enredo que envolve as três partes da narração, a que muitas vezes fiquei preso, querendo saber o que aconteceria a seguir.
Por fim, na terceira parte, que é bastante mais pequena devido a um corte editorial, regressamos ao narrador em primeira pessoa. O narrador é, então, um pouco mais velho e vai também encontrar a forma do amor sublime. Nesta parte há, ainda assim, um fechar de narrativa, que seria sobretudo perverso, da minha parte, expor, uma vez que cortaria a surpresa e uma leve dose de mistério que também se consegue encontrar no livro.
No final, dei a tarefa como cumprida com êxito. Não vou dizer que não houve partes em que me senti entediado, sobretudo nas extensas descrições de lugares. Mas tratando-se de uma escrita tão bela, essa sensação esvanece. Fiquei surpreendido por haver realmente um enredo que envolve as três partes da narração, a que muitas vezes fiquei preso, querendo saber o que aconteceria a seguir.
Para um escritor, são majestosos os recursos estéticos a que se tem acesso, a forma de mostrar sem contar, a atmosfera que parece sempre envolta num véu leve, que nos é retirado no momento certo, com a informação doseada de forma a fazer deste primeiro volume de Em Busca do Tempo Perdido um livro onde as pausas aparecem no momento adequado, quase um escritor maestro a comandar uma orquestra.
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