5 policiais que inspiraram «Um Fogo Lento»

17 de janeiro de 2020
ESCRITO POR PAULA HAWKINS
Na primeira vez em que nos cruzamos com Irene Barnes, uma viúva com 80 anos, rececionista reformada de uma clínica dentária, amiga leal, leitora voraz, e provavelmente a minha personagem favorita de Um Fogo Lento, ela está a organizar uma pilha de livros. Os livros em questão pertenciam a Angela, vizinha de Irene e falecida há pouco tempo. Naquele momento, enquanto folheia os livros de Angela, ela terá de escolher os que quer para si e aqueles que irá doar a uma loja de beneficência.

Este, conforme qualquer amante de livros dirá, não se trata de um processo rápido ou isento de dificuldades; existem muitos fatores a ter em conta. Para Irene, os parâmetros vulgares (Será que ela já o leu? Gostou de o ler? Já o terá? Aquele exemplar é uma edição mais bonita do que a outra que possui na sua estante?) tornam-se mais complicados pelo facto de estes serem os livros de Angela, e de Angela já ter morrido. Os livros de que elas desfrutavam, partilhavam e discutiam entre si eram uma pedra angular da sua amizade, do diálogo ocioso de longos anos entre duas mentes semelhantes. A morte de Angela colocou um fim a esse diálogo, porém, os livros oferecem a Irene uma forma de recordar a sua amiga, de conservar uma pequena parcela dessa relação preciosa.

Como eu, Irene e Angela comungam da predileção pelos melhores títulos de romances policiais, alguns dos quais eu menciono a seguir. Na verdade, pensei em dar a este trecho o título de «Cinco romances policiais de Um Fogo Lento, mas é claro que iam argumentar (como estou certa de que Ian McEwan o faria) que, pelo menos, algumas das obras citadas a seguir não são romances policiais em sentido estrito. A Maldição de Hill House é terror gótico, O Jardim de Cimento é ficção literária, Visão Adaptada Ao Escuro, é um thriller psicológico, Este País Não É Para Velhos é um western contemporâneo; apenas em relação a Desaparecidos, um romance de investigação policial, se poderia alegar que ele se enquadra na perfeição no género do romance policial (embora, como veremos a seguir, não existe nada de perfeitamente enquadrado em Desaparecidos).

Quer elas possam rotular-se ou não como romances policiais, todas estas obras se relacionam com crime, uma vez que a trama gira em torno de atos criminosos pelos quais os seus autores terão de sofrer consequências. O notável aqui é a diversidade de abordagens e formas de dissecar ou escrever sobre estes atos criminosos, reforçando, para mim pelo menos, o facto de não existir uma fórmula certa para escrever sobre crime, mas uma multitude de questões com as quais temos de lidar. Existirá demasiada violência contra mulheres nos romances policiais? Quase seguramente. Se pensarmos na quantidade de violência contra mulheres que existe no mundo real, não seria estranho que tal fosse negligenciado pelos autores de policiais? Eu acho que sim. Poderíamos contentar-nos com menos corpos nus de mulheres atraentes nas páginas iniciais dos romances policiais? Representarão os corpos nus de homens atraentes uma melhoria? Deveria ser feita justiça? E o bem triunfar sobre o mal? Deveriam todas as perguntas ter uma resposta, sem haver pontas soltas?



A MALDIÇÃO DE HILL HOUSE
«Quem mais poderia difundir terror com a visão de um piquenique sobre a relva?» A questão, colocada por Ramsey Campbell, o autor britânico de livros de terror, aponta diretamente para a genialidade de Jackson. Apenas Shirley Jackson, com o seu foco no misterioso, na fragilidade assustadora dos cidadãos normais de cidades vulgares, poderia pegar num dia de sol esplendoroso, numa colina verdejante e flores de cores garridas, num grupo de crianças a rir às gargalhadas enquanto brincam com um cãozinho sobre a relva, e suscitar o horror.

Aclamada pelo Wall Street Journal como «a melhor história sobre uma casa assombrada alguma vez escrita», A Maldição de Hill House tornou-se altamente influente, inspirando escritores de livros de terror, desde Stephen King a Andrew Michael Hurley, e ainda argumentistas; a história foi adaptada por duas vezes ao cinema (como The Haunting, em 1963 e 1999), bem como a uma série pela Netflix.

Fiquei fascinada com A Maldição de Hill House logo desde as suas — caracteristicamente brilhantes — linhas iniciais: «Nenhum organismo vivo pode existir durante muito tempo em condições de realidade absoluta, mantendo a sanidade; há quem diga que até as cotovias e os gafanhotos sonham. Hill House, uma casa nada sã, erguia-se solitária entre as colinas que a rodeavam, com uma profunda escuridão dentro de si…»

Calculo que Irene e Angela se teriam igualmente rendido à sua escrita primorosa, ao modo como Jackson cria magistralmente um pesadelo claustrofóbico a partir da sua narrativa sobre um grupo de pessoas convocadas a passar algum tempo — praticando «os métodos dos caçadores de fantasmas do século XIX» — numa casa assombrada.

Acima de tudo, acho que Angela e Irene teriam apreciado o modo como Shirley Jackson demonstra que os verdadeiros terrores a ameaçar estes caçadores de fantasmas não são verdadeiramente espetros — não são os ruídos estranhos ou os escritos nas paredes desta casa inquietantemente feia, mas antes os medos e ansiedades na própria mente dos visitantes, a solidão terrível que os atormenta.
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O JARDIM DE CIMENTO
O romance de estreia de Ian McEwan é a história «arrebatadoramente sombria» de quatro irmãos órfãos que, para evitarem ser institucionalizados, ocultam a morte da mãe, escondendo o seu corpo envolto em cimento na cave da casa de família. Entregues ao seu destino, o esforço destes jovens para tentarem seguir uma vida normal vai-se esboroando gradualmente, e eles isolam-se do mundo, resvalando para o primitivismo e refugiando-se na fantasia, enquanto a vida familiar entra em decadência e o próprio sentimento de amor é corrompido.

Quando O Jardim de Cimento foi publicado, Irene teria 40 anos; consigo visualizá-la a lê-lo — se calhar sub-repticiamente — atrás do balcão da clínica dentária à hora de almoço; imagino-a a maravilhar-se com a objetividade de McEwan, com a sua escrita enxuta, tão britânica. Angela teria acabado de fazer seis anos quando o livro saiu, e é provável que o viesse a ler em adolescente. Julgo que a relação transgressiva no núcleo do livro a terá fascinado, embora a imagem do amor familiar adulterado possa ter-se tornado demasiado desconfortável mais tarde.

Ainda que seja nos atos criminosos que reside a chave da ação, O Jardim de Cimento não é um romance policial. Lê-se mais como algo horrífico, mais como a história de uma casa assombrada, na realidade, com factos terríveis a acontecerem a coberto da escuridão e qualquer coisa podre na cave a envenenar aqueles que vivem à superfície. Na minha opinião, O Jardim de Cimento é extraordinário na sua evocação em tempo e lugar de uma Grã-Bretanha esquálida e repulsiva, habitada por pessoas desesperadas e incapazes de ser amadas; e como um retrato surpreendentemente tocante do amor malsucedido.
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DARK-ADAPTED EYE
«Durante muito tempo, desejei que Barbara tivesse uma voz tal como Ruth. Seria uma voz mais suave, de cadência mais lenta, mais sensitiva talvez, e mais intuitiva.»

Ruth Rendell escrevia romances policiais há mais de duas décadas, quando publicou a sua primeira obra sob o pseudónimo Barbara Vine (Barbara é o seu segundo nome e o que a sua mãe preferia, enquanto Ruth era o nome favorito do pai), uma narrativa «vagarosa e contida» sobre a obsessão, a rivalidade entre irmãos e a vergonha familiar, com o título Dark-Adapted Eye.

Conforme a citação indica, Dark-Adapted Eye tem um tom marcadamente distinto dos romances de Ruth Rendell, com a ação a evoluir de forma lenta e não linear, e em que a cadência mais suave e a complexidade estrutural exigirão talvez mais ao leitor do que Ruth Rendell exigiria. Por outro lado, não existe também um assassino por desvendar, que suscite uma leitura compulsiva ao leitor: o autor do crime é revelado na primeira página. Em Dark-Adapted Eye não é o mistério em torno do próprio assassínio que agarra o leitor, mas antes o enigma colocado pela família, com as suas relações tensas e complicadas, e todos os seus segredos e mentiras.

Para mim, o que torna Vine tão irresistível é a sagacidade da sua visão psicológica, aplicada não apenas aos assassinos em série e mestres do crime, mas a nós, pessoas vulgares. Num romance posterior, Vine escrevia que «muito do interesse e terror induzidos pelos grandes crimes não se deve ao seu conteúdo anormal, mas àquilo que neles existe de normal». O objeto da sua investigação é também aquilo que me fascina: o amor e o ciúme, e as mágoas do quotidiano que afetam a vida familiar.
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NO COUNTRY FOR OLD MEN
Será que a brutalidade e fealdade invocadas na obra de Cormac McCarthy se tornam ainda mais horrendas devido à beleza das suas frases — elegantes e intricadas, e, no entanto, reduzidas à sua essência mínima? McCarthy não deixa lugar para a ambiguidade ou ambivalência, nem dá motivos para dúvidas ou para se escamotear algo. Serão os seus vilões mais assustadores pela mesma razão? Na ficção moderna, não consigo imaginar um antagonista mais temível que Anton Chigurh, esse «profeta da destruição vivo e verdadeiro», um assassino sanguinário e implacável, guiado por um código próprio e inquestionável.

Teria Irene realmente apreciado este western, com todas as suas drogas e armas, e um terror sanguinolento? Estou certa que sim. Mesmo sem ter em linha de conta a escrita inigualável de McCarthy, há muita coisa no livro que a iria seduzir. O título do romance é inspirado no poema de Yeats, «Viajando para Bizâncio», o qual inclui o verso, «Um homem velho não passa de algo irrisório, / Um casaco esfarrapado sobre um pau», um sentimento que Irene poderia bem reconhecer, experimentando do mesmo modo a nostalgia e a desorientação sentidos pelo protagonista do romance, o xerife Bell. Julgo que no xerife Bell, o homem bom que ama tão ternamente a sua mulher, ela teria igualmente vislumbrado algo do seu William.
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DESAPARECIDOS
Alerta de spoiler: se ainda não leu Desaparecidos — e é verdadeiramente imperioso fazê-lo — não leia esta parte.

Na estreia de Tana French, dois detetives, ambos afetados por traumas pessoais, são confrontados com dois casos paralelos, um no presente e outro no passado. Para já, algo bastante convencional. Ah, mas Desaparecidos está muito longe de ser convencional.

Entre os detetives Cassie Maddox e Rob Ryan, French cria uma relação inspiradora, uma parceria que nos prende quase imediatamente, e que tudo indica perdurará durante anos, em casos e romances vindouros. Contudo, a vida não é assim, pelo que French parte o coração deles e os nossos, selvaticamente e com uma crueldade deliberada. E não fica por aqui. Muito longe disso.

O mistério principal, centrado no assassínio de uma adolescente, vai-se desenrolando de forma inteligente e cuidadosa; a identidade do assassino, quando esta é revelada, causa impacto, e, no entanto — como é apanágio dos melhores romances policiais — tornava-se possível descobri-la se se prestasse a devida atenção.

No entanto, é na forma como French delineia o segundo mistério, o qual envolve o desaparecimento de dois amigos de infância de Rob duas décadas antes do começo da intriga atual, que o romance sobe para outro patamar, já que ela não o resolve. French recusa-se a fornecer uma resposta, porque Rob — que se encontrava presente quando aconteceu o que aconteceu aos seus amigos — não consegue recordar-se. E jamais irá fazê-lo. Por motivos que apenas podemos conjeturar, a sua memória do que aconteceu dissipou-se — ou talvez nunca se tivesse formado, ou então estaria demasiado bloqueada, ou ele não irá permitir que ela emerja…

Estou consciente de que isto é uma questão de gosto pessoal. Irene, que confessa mais tarde no livro apreciar um «romance policial tradicional, com o bem a prevalecer e o mal a ser derrotado», poderia, à semelhança de uma amiga minha, ter atirado o livro para o outro lado da sala ao constatar o que French fizera. Eu, no entanto, acho a insolubilidade de Desaparecidos fascinante, tendo ficado maravilhada com a sua audácia e realismo. Porque nem todos encontram a redenção, nem todos têm um final feliz. Há coisas que são incognoscíveis, há respostas que jamais serão encontradas. E, às vezes, os maus conseguem safar-se.
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