Tisanas, as infusões poéticas de Ana Hatherly
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26 de fevereiro de 2024
Tisanas dominou a vida literária de Anna Hatherly – artista plástica, poeta, romancista, ensaísta e tradutora – durante quase quatro décadas. A sua «atividade literária acumula reflexão e a brincadeira, o trágico e o cómico, manifesta uma irreverência desmedida, e uma inconformidade criadora não aceite na época em que surgiu, a de um Portugal cinzento e ditatorial», segundo a poetisa Ana Marques Gastão, que edita agora este livro, ao qual acrescenta, nas páginas finais, a sua análise sobre este singular «itinerário da memória».
Hatherly chamou Tisanas aos 463 poemas em prosa desta obra porque considerava que são «infusões e não efusões», uma «obra em progressão» que daria concluída quando tivesse atingido o número 500, o que quase cumpriu. Ficamos assim com a sua «meditação poética sobre a escrita como pintura e filtro da vida»
Na tisana que escolhemos para si, saboreamos uma estranhas «sabedoria do amor»…
Hatherly chamou Tisanas aos 463 poemas em prosa desta obra porque considerava que são «infusões e não efusões», uma «obra em progressão» que daria concluída quando tivesse atingido o número 500, o que quase cumpriu. Ficamos assim com a sua «meditação poética sobre a escrita como pintura e filtro da vida»
Na tisana que escolhemos para si, saboreamos uma estranhas «sabedoria do amor»…
«Tisana» n.º 30.
«A sabedoria do amor consiste na aprendizagem pelo sofrimento, do prazer nele contido. Estava meditando neste princípio fundamental quando o telefone começou a tocar. Não atendi imediatamente porque nesse mesmo instante senti uma dor aguda na região do simpático. Sem saber, por momentos, se devia atender ao telefone ou à simpatia, resolvi finalmente atender o telefone e levantando o auscultador oiço uma voz aflita que do outro lado me diz é da companhia venham depressa. Tomo nota do endereço. Saio correndo. Entro no carro e dirijo-me para o local indicado. Chegando lá vejo grandes jactos de água saindo pelas janelas. Tento forçar a porta. Quando a porta cede vejo uma enorme massa de água avançando para mim. Na crista da onda uma mulher morta segura um telefone semiafundado. Fecho a porta e regresso a casa inundada pelo delicioso prazer.
Ana Hatherly
«A sabedoria do amor consiste na aprendizagem pelo sofrimento, do prazer nele contido. Estava meditando neste princípio fundamental quando o telefone começou a tocar. Não atendi imediatamente porque nesse mesmo instante senti uma dor aguda na região do simpático. Sem saber, por momentos, se devia atender ao telefone ou à simpatia, resolvi finalmente atender o telefone e levantando o auscultador oiço uma voz aflita que do outro lado me diz é da companhia venham depressa. Tomo nota do endereço. Saio correndo. Entro no carro e dirijo-me para o local indicado. Chegando lá vejo grandes jactos de água saindo pelas janelas. Tento forçar a porta. Quando a porta cede vejo uma enorme massa de água avançando para mim. Na crista da onda uma mulher morta segura um telefone semiafundado. Fecho a porta e regresso a casa inundada pelo delicioso prazer.
Ana Hatherly