Livros em prosa que parecem poemas
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@literacidades
17 de janeiro de 2020
Somos leitores mais de poesia ou de prosa? É habitual as duas dividirem as águas. Mas não há razão para se estabelecerem muros entre uma e outra. Há livros em prosa que lemos como poemas. Os sentidos estão todos alerta e a língua é usada em pleno esplendor.
LUNÁRIO
Da primeira vez que se lê este romance de Al Berto, o coração para. Bebemos toda aquela poesia, imaginário de seres etéreos, que se alimentam de sonhos e sensações, que pairam numa existência decorada de figuras oníricas e intercalam dimensões de cores e desenhos a que só acedemos através dos sonhos. Ler e reler a última página sempre de fôlego preso, sonhar com Beno e Nemú, sofrer o auge do romantismo de toda aquela abdicação, aquela existência que só avançava pela força dos sentimentos.
Tudo está envolvido numa aura de impossibilidade de um sentimento ser tão expoente. Mas tudo é poesia, e que direito temos nós de exigir que a poesia se canse de ser poesia e passe a ser o mundo real? É um livro que representa a forma como uma geração (que hoje terá cinquenta ou sessenta anos) viveu a diferença em idade jovem. Num mundo tão feio, tão violento, que os remetia para uma franja marginal de uma sociedade que os desprezava, mais valia mesmo inventar sonhos poéticos e delirar com extremos de romantismo.
Hoje, Lunário é uma referência disso mesmo: pessoas com muito tempo para refletir mas a lidar (mal) com a forma como os outros encaram as suas diferenças, e a reagir a um mundo opressor com muita poesia.
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Tudo está envolvido numa aura de impossibilidade de um sentimento ser tão expoente. Mas tudo é poesia, e que direito temos nós de exigir que a poesia se canse de ser poesia e passe a ser o mundo real? É um livro que representa a forma como uma geração (que hoje terá cinquenta ou sessenta anos) viveu a diferença em idade jovem. Num mundo tão feio, tão violento, que os remetia para uma franja marginal de uma sociedade que os desprezava, mais valia mesmo inventar sonhos poéticos e delirar com extremos de romantismo.
Hoje, Lunário é uma referência disso mesmo: pessoas com muito tempo para refletir mas a lidar (mal) com a forma como os outros encaram as suas diferenças, e a reagir a um mundo opressor com muita poesia.
BREVIÁRIO DAS ALMAS
A beleza da simplicidade, das palavras utilizadas com uma suavidade tal que as torna absolutamente mágicas. Joaquim Mestre leva-nos a uma terra intemporal, deixando-nos à vontade para escolher que Alentejo é aquele, pontilhado apenas aqui e ali por algumas referências históricas e geográficas que nos permitem assentar os pés num lugar de personagens endiabradas, mas tão humanas e tão nossas.
Breviário das Almas é de um realismo mágico emocionante, com tanto de realismo quanto de magia, num constante fôlego poético que nos deixa arrebatados. Há um segredo sobre o livro que só se deve descobrir no fim, para que se viva o livro e o seu desfecho com uma intensidade genuína.
E, claro, apesar da subtileza da poesia das palavras, é no Alentejo que estamos, terra tão mágica e onde de facto qualquer uma daquelas personagens podia perfeitamente viver.
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Breviário das Almas é de um realismo mágico emocionante, com tanto de realismo quanto de magia, num constante fôlego poético que nos deixa arrebatados. Há um segredo sobre o livro que só se deve descobrir no fim, para que se viva o livro e o seu desfecho com uma intensidade genuína.
E, claro, apesar da subtileza da poesia das palavras, é no Alentejo que estamos, terra tão mágica e onde de facto qualquer uma daquelas personagens podia perfeitamente viver.
O DA JOANA
É uma dor constante a que sentimos ao ler este livro. Mas, pela forma como Valério Romão escreve, não conseguimos parar. Joana está grávida, espera Francisco, que por sua vez não quis esperar mais tempo e tudo leva a crer que nascerá prematuro. Os futuros pais dirigem-se ao hospital e a partir daí tudo é tormento. Não fosse a escrita sublime do autor, pontilhada de tanta poesia, e este seria um dos relatos mais duros do momento do parto.
Torna-se quase impossível pousar o livro, comece-se às nove da manhã ou à meia-noite. A leitura tem o ritmo das contrações: estamos sempre na expetativa do momento em que nos vão derrotar de vez a esperança, torcer qualquer réstia de poesia que esperássemos da espécie humana. De repente tudo pode ser um pesadelo, mas esse já o foi, no início. Contudo aquela dor imensa não pode ser real, o descaso não pode fazer parte da nossa realidade.
Estamos constantemente a oscilar, através de uma linguagem extremamente cuidada e poética, entre o que consideramos possível, o devaneio e o derrube de mais uma fronteira da nossa incredulidade. Não existe redenção. É um livro sem rede por baixo, uma jornada que não terminará com um suspiro de alívio.
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Torna-se quase impossível pousar o livro, comece-se às nove da manhã ou à meia-noite. A leitura tem o ritmo das contrações: estamos sempre na expetativa do momento em que nos vão derrotar de vez a esperança, torcer qualquer réstia de poesia que esperássemos da espécie humana. De repente tudo pode ser um pesadelo, mas esse já o foi, no início. Contudo aquela dor imensa não pode ser real, o descaso não pode fazer parte da nossa realidade.
Estamos constantemente a oscilar, através de uma linguagem extremamente cuidada e poética, entre o que consideramos possível, o devaneio e o derrube de mais uma fronteira da nossa incredulidade. Não existe redenção. É um livro sem rede por baixo, uma jornada que não terminará com um suspiro de alívio.
MORRESTE-ME
O que (mais) escrever sobre um dos mais belos textos produzidos por mão humana? Morreste-me deve ser lido em soluço de choro, é a alma toda espalhada pelos despojos, memória escolhida a dedo sem medo que a partir dela surjam outras e outras.
José Luís Peixoto fala ao seu pai, morto então recentemente, corpo de filho ainda todo ele em ebulição de «como foi possível?». São as memórias que advêm dos lugares, das coisas, dos cantos, dos pedaços de terra, do descascado dos móveis e do toque da moldura. O inexplicável desatino que sentimos perante o desaparecimento de alguém, o facto de o mundo continuar exatamente a ser o mesmo, como se não houvesse (e não há) pausa entre a presença e o desaparecer. A natureza não se cobriu de luto, os autocarros não pararam em paragens estranhas e, mesmo naquela terra, tudo seguiu a sua vida habitual.
Menos o filho, ou pelo menos o filho. Que regressa e recorda, que chora a perda de uma presença. Um livro em que a poesia da linguagem nos abraça e nos diz que a nossa dor é válida e que não precisamos de a sublimar.
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José Luís Peixoto fala ao seu pai, morto então recentemente, corpo de filho ainda todo ele em ebulição de «como foi possível?». São as memórias que advêm dos lugares, das coisas, dos cantos, dos pedaços de terra, do descascado dos móveis e do toque da moldura. O inexplicável desatino que sentimos perante o desaparecimento de alguém, o facto de o mundo continuar exatamente a ser o mesmo, como se não houvesse (e não há) pausa entre a presença e o desaparecer. A natureza não se cobriu de luto, os autocarros não pararam em paragens estranhas e, mesmo naquela terra, tudo seguiu a sua vida habitual.
Menos o filho, ou pelo menos o filho. Que regressa e recorda, que chora a perda de uma presença. Um livro em que a poesia da linguagem nos abraça e nos diz que a nossa dor é válida e que não precisamos de a sublimar.