Dois poemas na despedida de Ana Luísa Amaral

11 de agosto de 2022
Ana Luísa Amaral partiu desta vida esta semana, mas deixa-nos um legado poético prolífico que vamos, sempre, a tempo de ler pela primeira vez ou reler muitas vezes. Esta poetisa que não se definia como tal – pois foi como professora na Universidade do Porto que fez carreira – publicou o seu primeiro livro de poesia em 1990. Nascida em Lisboa em 1956, vivia em Matosinhos desde criança e era portuense de adoção, motivo justo para que seja a autora celebrada pela Feira do Livro do Porto de 2022.

É autora de mais de 30 livros nos géneros de poesia, teatro, ficção e ainda infantojuvenil. A sua obra está traduzida e publicada em mais de 10 línguas e países. O seu trabalho foi reconhecido com os prémios Medalha da Cidade de Paris, a Medalha de Ouro da Câmara Municipal do Porto, Prémio Literário Correntes d’Escritas, Prémio de Poesía Fondazione Roma, Grande Prémio de Poesia da APE, Prémio PEN de Ficção, Prémio Vergílio Ferreira e o Prémio Rainha Sofia de Poesia Iberoamericana.

O Olhar Diagonal das Coisas, publicado em abril deste ano, é uma compilação de todos os seus 17 títulos de poesia. É com dois poemas deste livro, um sobre incompletudes, essa «insuficiência tão brutal» que a morte nos impõe, e outro, luminoso, sobre a felicidade de escrever, que assinalámos a passagem desta poetisa para o plano infinito dos poetas.



INCOMPLETUDES



Algum frio (não demais),
os meus olhos pousados
quase na mesma flor desse jardim,
eu sentada em degrau de casa
alheia
A noite traz sabores
insuspeitados,
uma liquidez quase
do olhar


(a morte
deve vir desta maneira:
numa suspeita que não chega
a ser)
pelos degraus acima
a minha sombra vive,
desigual.
a palavra chegou,
mas incompleta


Numa insuficiência tão brutal
como morrer
no meio de um descampado,
ignorante do raio.




PROSAÍSMOS



Se fazer versos fosse fazer histórias
a mesma coisa igual (ou semelhante):
enredo, uma estrutura que se visse
até por arabescos no papel


– aqui: a sua fala, ali: uma
montanha emoldurando um corpo, o pôr-
-do-sol descrito, uma cidade, um rosto.
Ou sem enredo, mas sempre estrutura


(precisos arabescos na legitimação
do desejado). Associações também:
o nevoeiro, um cavalo dourado
sem herdeiro, mas coberto o bastante.


Se fosse assim, a mesma coisa igual
(ou semelhante) entre o fazer da história
e o do verso: desistia de tudo.


Chegava-me a montanha para olhar,
uma janela aberta ao fim do sol,
perder-me na cidade (em imagens comuns,


como esta agora). Seria então feliz
no prazer de saber que não fazia
nem história, nem o resto que era o verso,
pelo prazer sublime do prazer
puro, plano, rosado (como o rosto).


A história por escrever, mas eu feliz.
O verso por fazer. E (eu) mais feliz.



Ana Luísa Amaral, O Olhar Diagonal das Coisas

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