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Sombra

de Maria Andresen
Livro eBook
Editor: Assírio & Alvim, março de 2024 ‧
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Em Sombra, de Maria Andresen, encontramos uma escrita densa e matizada, estabelecendo vasos comunicantes entre o cinema, a literatura, as artes plásticas e a poesia.

Desconfia da beleza
porque ela hiberna sob a tua ânsia
porque ela hiberna sob a lua
porque ela é a esquiva

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Quando a música inventou os sons profanos

Maria Andresen nasceu no Porto, mas vive em Lisboa. Podemos dizer que seguiu as pisadas da mãe ao tornar-se escritora, já que é filha de Sophia de Mello Breyner Andresen. Além de poeta e ensaísta, Maria Andrsen é também pintora. A sua paixão pelas artes estende-se também à música, que evoca neste poema, do seu novo livro, Sombra.


FOI QUANDO A MÚSICA INVENTOU OS SONS PROFANOS


Esta é uma manhã simples, como se não houvesse memória,
sob a aura do rio;
oiço levantarem-se os teus sons cerrados, como bocas de insectos,
água, bala, ferida, os exércitos da dor, sua insistência;

nenhuma palavra quando é isto, fixas-te nos sons, mas estes
são ermos, estes são forjados em metálicos gumes
Creio em ti, que dizes, nada é falável

É do mundo que partes ou duma impossível fala?
Eu estou contigo neste levantar de um rolar submerso
aquele que arrancaste dos metais, com uma língua torcida e
no entanto proferível mesmo que seja no extremo das sombras,

no extremo dos dedos e em todos os extremos a que a tua
   memória
se abre e encontra os deuses que contigo conversam, o deus
da harmonia e o deus da desarmonia e o deus da ira
e o deus do vazio,
aquele, por demais despido, o deus do estertor que seguras na
   mão,

o deus que transportas com dedos cuidadosos entre o som
das pedras deslocadas e as notas e o correr das pautas,
o lento mover de uma agulha que assim os entrelaça às voltas
do tempo, às suas caligrafias, aos seus riscos, ao seu riso,

ao desvalor da dor, à precisão do aleatório que é a alea da sorte
Casamo-nos com o acaso e esperamos que dali saia um deus
Ou um cavalo, um estoiro

Foi quando a música inventou os sons profanos; talvez que
alguém brinque, mas ele não brinca, ele levou a profanação
mais longe até onde consigo crucificasse o deus sem pauta
¿ não o grande ¿ apenas aquele que havia nele

Recomeços e árvores e ao longe uma densa nesga de rio
que sangra, depois és tu e o som dos oboés, um som negro,
sem decantação, o deixar-me ir, a música não tem árvores,
nem rio,
nem pássaros, nem mulher, nem nome, a música só se tem a si
(e um pouco de Deus)

Sombra

de Maria Andresen

Propriedade Descrição
ISBN: 978-972-37-2384-7
Editor: Assírio & Alvim
Data de Lançamento: março de 2024
Idioma: Português
Dimensões: 147 x 205 x 8 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 80
Tipo de produto: Livro
Coleção: Poesia Inédita
Classificação Temática: Livros em Português > Literatura > Poesia
EAN: 978972372384710
Idade Mínima Recomendada: Não aplicável

SOBRE O AUTOR

Maria Andresen

Maria Andresen nasceu no Porto e vive atualmente em Lisboa. Doutorou-se em Literatura Comparada pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde foi professora de Literatura Contemporânea. Publicou Poesia e Pensamento (ensaio, 2001), Lugares (poesia, 2001), Livro das Passagens (poesia, 2006), Lugares, 3 (poesia, 2010), O Que Move o Silêncio do Cavalo e Anteriores Lugares (poesia, 2020) e agora Sombra (poesia, 2024). Em 2017 o Centro Nacional de Cultura exibiu a sua exposição de pintura «Palimpsestos». Participou ainda em diversas publicações onde tem explorado a intermedialidade entre as várias displinas artísticas, propondo leituras-chave para a compreensão da obra de Wallace Stevens, Francis Ponge, João Cabral de Melo Neto, Sophia de Mello Breyner Andresen, entre outros. A sua poesia tem sido destacada em Portugal e no estrangeiro, integrando várias antologias de poesia.

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