Quando a música inventou os sons profanos

8 de maio de 2024
Maria Andresen nasceu no Porto, mas vive em Lisboa. Podemos dizer que seguiu as pisadas da mãe ao tornar-se escritora, já que é filha de Sophia de Mello Breyner Andresen. Além de poeta e ensaísta, Maria Andrsen é também pintora. A sua paixão pelas artes estende-se também à música, que evoca neste poema, do seu novo livro, Sombra.


FOI QUANDO A MÚSICA INVENTOU OS SONS PROFANOS


Esta é uma manhã simples, como se não houvesse memória,
sob a aura do rio;
oiço levantarem-se os teus sons cerrados, como bocas de insectos,
água, bala, ferida, os exércitos da dor, sua insistência;

nenhuma palavra quando é isto, fixas-te nos sons, mas estes
são ermos, estes são forjados em metálicos gumes
Creio em ti, que dizes, nada é falável

É do mundo que partes ou duma impossível fala?
Eu estou contigo neste levantar de um rolar submerso
aquele que arrancaste dos metais, com uma língua torcida e
no entanto proferível mesmo que seja no extremo das sombras,

no extremo dos dedos e em todos os extremos a que a tua
   memória
se abre e encontra os deuses que contigo conversam, o deus
da harmonia e o deus da desarmonia e o deus da ira
e o deus do vazio,
aquele, por demais despido, o deus do estertor que seguras na
   mão,

o deus que transportas com dedos cuidadosos entre o som
das pedras deslocadas e as notas e o correr das pautas,
o lento mover de uma agulha que assim os entrelaça às voltas
do tempo, às suas caligrafias, aos seus riscos, ao seu riso,

ao desvalor da dor, à precisão do aleatório que é a alea da sorte
Casamo-nos com o acaso e esperamos que dali saia um deus
Ou um cavalo, um estoiro

Foi quando a música inventou os sons profanos; talvez que
alguém brinque, mas ele não brinca, ele levou a profanação
mais longe até onde consigo crucificasse o deus sem pauta
¿ não o grande ¿ apenas aquele que havia nele

Recomeços e árvores e ao longe uma densa nesga de rio
que sangra, depois és tu e o som dos oboés, um som negro,
sem decantação, o deixar-me ir, a música não tem árvores,
nem rio,
nem pássaros, nem mulher, nem nome, a música só se tem a si
(e um pouco de Deus)
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