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Retrato Dum Amigo Enquanto Falo

de Eduarda Dionísio

editor: Quimera, junho de 1988
Desta geração, em sentido literário, mais que vital, poucas expressões me parecem tão significativas como a que ficou consagrada em Retrato dum amigo enquanto falo, de Eduarda Dionísio. É o verdadeiro texto de transição entre o tempo antigo de onde arranca e os novos tempos auscultados nas subtis articulações em que o texto da Revolução foi vivido e ao mesmo tempo comentado e criticado. Autêntico espelho de uma nova sensibilidade, longa carta de amor como política e política como amor, veemente e extra-lúcida, poucos textos souberam apreender como este a atmosfera verbal, os signos sensíveis de um mundo que se desloca, o ritmo interior de uma démarche pessoal militante, paralela às oscilações e arrependimentos da Revolução. Nele se vê bem como «o mesmo» já não era «o mesmo» tanto tempo esperado. Até por herdeira, no sangue e na práxis, do melhor e mais lúcido investimento na esperança de um mundo renovado, a diferença, a marca específica de um tempo-outro toma em Eduarda Dionísio um relevo precioso. Não é essencialmente um olhar ofuscado pelo puro ideológico que escreve este sucinto memorial da vivência revolucionária em meio burguês e intelectual, é uma jovem vida impregnada de todos os ecos vitais e polémicos dos anos 60 que regista, com total liberdade de tom, a vivência do imprevisível revolucionário.

Retrato Dum Amigo Enquanto Falo

de Eduarda Dionísio

Propriedade Descrição
ISBN: 9789725890011
Editor: Quimera
Data de Lançamento: junho de 1988
Idioma: Português
Dimensões: 127 x 208 x 8 mm
Páginas: 124
Tipo de produto: Livro
Classificação temática: Livros em Português > Literatura > Outras Formas Literárias
EAN: 9789725890011
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Retrato Dum Amigo Enquanto Falo de Eduarda Dionísio

Pedro Quintela

Em “Retrato dum amigo enquanto fala” Eduarda Dionísio traça um fresco de uma certa juventude de classe média urbana, marcadamente de esquerda e de oposição ao Estado Novo, e todo o complexo processo de mudança que ocorre após os anos quentes da Revolução. Adotando um registo profundamente pessoal, até mesmo íntimo, num discurso estruturado sob a forma de monólogo, num diálogo imaginário com um amigo/amante que gradualmente se vai revelando, à medida que vamos ficando a conhecer mais e mais traços da sua personalidade e modo de vida, a narradora /autora vai descrevendo uma certa paisagem cultural, social económica e política do país: da chamada Primavera Marcelista até 1978, passando pelo 25 de Abril e todas as promessas de mudança contidas no momento da revolução e nas semanas, meses e anos seguintes. Finalmente, a amargura perante o que, de forma simples e direta, podemos designar de aburguesamento de muitos dos amigos e camaradas da sua geração – que, no fundo, integraram a elite intelectual e política de centro/esquerda do país –, descrevendo, de forma dura, como se dá este afastamento gradual e, na prática, a incomunicação e o desapontamento. “Muitas vezes as traições sabem-se nos jornais, porque durante muito tempo conversamos ainda com amigos como antigamente, com o mesmo vocabulário, referências e frases que eles conservam somente para nós sem nós sabermos, porque com outros amigos que têm e nos empregos falam já de outra maneira e noa artigos que escrevem para os jornais começamos a compreender primeiro que as ideias já não são as mesmas e que estão contra nós como muita outra gente afinal (…)" (págs. 93-94). Um belíssimo livro – com uma capa ótima, construída a partir de um pormenor de um desenho da designer gráfica e cenógrafa Cristina Reis – que vale muito a pena ler!