Pequeno Milagre e Outros Ensaios
SINOPSE
No seguimento dos atentados que enlutaram os Estados Unidos, Barbara Kingsolver, bióloga de formação, romancista de grande talento e activista dos direitos humanos, convida-nos a reflectir sobre as práticas das nações mais ricas, a sua quota de responsabilidade no actual desgoverno do planeta e, mais genericamente, sobre todos os tesouros naturais que o homem está em vias de destruir. De forma clara sensível e muitas vezes divertida, interroga-se sobre a noção de felicidade, o valor da vida e sobre a responsabilidade que cabe a cada um de nós individualmente - e aos países colectivamente - na manutenção da paz e do futuro do planeta. O resultado é esta obra, um verdadeiro pequeno milagre de coragem, ternura e extrema sensibilidade. Quer ela esteja a contemplar o Grand Canyon, a sua horta, a maternidade, a adolescência, a engenharia genética, o hábito de ver TV, a historia dos direitos civis, ou uma nação fundada no melhor de todos os impulsos humanos, estes ensaios assentam na convicção da autora de que os nossos maiores problemas se desenvolveram tanto a partir dos cantos mais remotos da Terra como dos nossos próprios jardins, e de que as respostas também podem estar nestes lugares.
Por vezes num tom grave, outras de maneira hilariante, mas sempre persuasivo, Pequeno Milagre e Outros Ensaios é uma análise esperançosa daquilo que somos e daquilo que podemos fazer de nós.
EXCERTOS
(…) Parece bizarro que uma dedicação firme à paz e ao lado bom da vida possa atrair uma ira violenta, mas atrai. Pensem em Gandhi, em Martin Luther King. Eu sou apenas uma gota neste rio de lágrimas e crença. Por vezes o meu coração fica preso na garganta e eu tenho de parar por um segundo com a mão na maçaneta de uma porta ou no metal frio de uma chave, reunir no meu coração a misericórdia de tudo aquilo em que temos de acreditar, e dizer a minha própria oração por todos nós - que encontremos o caminho através de cada hora das nossas vidas que tenham sido dignas da missão. (…)
(…) Espera-se que nós alinhemos neste plano, em que as pessoas perdem guerras e as empresas vencem-nas - os construtores de mísseis, as empresas mineiras, os magnatas do petróleo, e isso é só o que está à vista -, e uma pessoa pequena como eu não devia atrever-se a ser tão insolente ao ponto de sugerir um momento de pausa para rever o monstruoso desperdício humano de um ciclo interminável de retaliação violenta. Bom, eu estou a atrever-me. Li que alguns dos mísseis que estamos a usar (no dia deste escrito) contra o nosso inimigo actual - um dos países mais pobres do mundo - custam um milhão de dólares cada um. Perdoem a ultrajante sugestão, mas alguém já considerou mandar o dinheiro aos civis inocentes para que eles possam acabar com a desprezível tirania no seu seio e salvar toda a gente de uma enorme limpeza? Os grupos de pessoas tendem a juntar-se a cultos de raiva e vingança apenas quando estão desesperados. A História mostra que as populações com comida na barriga, capacidades de alfabetismo (incluindo nas mulheres), acesso à informação e imunidade contra as doenças mais importantes não toleram por muito tempo o martírio dos congéneres dos senhores da guerra talibãs ou de Saddam Hussein. E se esses cidadãos não nos estivessem totalmente gratos pela nossa ajuda na sua libertação, na pior das hipóteses eles poderiam apenas esquecer-se de nós - ao passo que a nossa actual estratégia de afirmar a predominância com bombas está a libertar alguns mas a matar de fome outros, fazendo com que milhões procurem refúgio em montanhas rochosas cobertas de neve e, em última instância, a semear dentes de dragão de inesquecível inimizade sobre o solo de mais um deserto. A arrogância é uma arma dúbia - de qualquer maneira, um prato de acompanhamento inadequado para servir com uma guerra. (…)
(…) Não consigo imaginar como é que alguém, criança ou adulto, consegue estar sentado imóvel durante as três horas e quarenta e seis minutos que compõem a nossa média nacional de audiência televisiva. Para mim, estar sentada imóvel é provavelmente a parte mais difícil da premissa. Lutei toda a minha vida com uma impaciência constitucional contra qualquer coisa que ameaçasse gastar o que resta dos meus minutos aqui na terra. Começo a ficar inquieta em qualquer reunião da comunidade em que o primeiro tópico da ordem de trabalhos seja discutir e votar a ordem dos outros tópicos da ordem de trabalhos; tenho de fazer discretas posições de relaxamento de ioga na minha cadeira para não gritar: «Ei, minha gente, a vida é curta!» (…)
(…) Parece bizarro que uma dedicação firme à paz e ao lado bom da vida possa atrair uma ira violenta, mas atrai. Pensem em Gandhi, em Martin Luther King. Eu sou apenas uma gota neste rio de lágrimas e crença. Por vezes o meu coração fica preso na garganta e eu tenho de parar por um segundo com a mão na maçaneta de uma porta ou no metal frio de uma chave, reunir no meu coração a misericórdia de tudo aquilo em que temos de acreditar, e dizer a minha própria oração por todos nós - que encontremos o caminho através de cada hora das nossas vidas que tenham sido dignas da missão. (…)
(…) Espera-se que nós alinhemos neste plano, em que as pessoas perdem guerras e as empresas vencem-nas - os construtores de mísseis, as empresas mineiras, os magnatas do petróleo, e isso é só o que está à vista -, e uma pessoa pequena como eu não devia atrever-se a ser tão insolente ao ponto de sugerir um momento de pausa para rever o monstruoso desperdício humano de um ciclo interminável de retaliação violenta. Bom, eu estou a atrever-me. Li que alguns dos mísseis que estamos a usar (no dia deste escrito) contra o nosso inimigo actual - um dos países mais pobres do mundo - custam um milhão de dólares cada um. Perdoem a ultrajante sugestão, mas alguém já considerou mandar o dinheiro aos civis inocentes para que eles possam acabar com a desprezível tirania no seu seio e salvar toda a gente de uma enorme limpeza? Os grupos de pessoas tendem a juntar-se a cultos de raiva e vingança apenas quando estão desesperados. A História mostra que as populações com comida na barriga, capacidades de alfabetismo (incluindo nas mulheres), acesso à informação e imunidade contra as doenças mais importantes não toleram por muito tempo o martírio dos congéneres dos senhores da guerra talibãs ou de Saddam Hussein. E se esses cidadãos não nos estivessem totalmente gratos pela nossa ajuda na sua libertação, na pior das hipóteses eles poderiam apenas esquecer-se de nós - ao passo que a nossa actual estratégia de afirmar a predominância com bombas está a libertar alguns mas a matar de fome outros, fazendo com que milhões procurem refúgio em montanhas rochosas cobertas de neve e, em última instância, a semear dentes de dragão de inesquecível inimizade sobre o solo de mais um deserto. A arrogância é uma arma dúbia - de qualquer maneira, um prato de acompanhamento inadequado para servir com uma guerra. (…)
(…) Não consigo imaginar como é que alguém, criança ou adulto, consegue estar sentado imóvel durante as três horas e quarenta e seis minutos que compõem a nossa média nacional de audiência televisiva. Para mim, estar sentada imóvel é provavelmente a parte mais difícil da premissa. Lutei toda a minha vida com uma impaciência constitucional contra qualquer coisa que ameaçasse gastar o que resta dos meus minutos aqui na terra. Começo a ficar inquieta em qualquer reunião da comunidade em que o primeiro tópico da ordem de trabalhos seja discutir e votar a ordem dos outros tópicos da ordem de trabalhos; tenho de fazer discretas posições de relaxamento de ioga na minha cadeira para não gritar: «Ei, minha gente, a vida é curta!» (…)
DETALHES
| Propriedade | Descrição |
|---|---|
| ISBN: | 9789728541651 |
| Editor: | Sinais de Fogo Publicações |
| Data de Lançamento: | abril de 2005 |
| Idioma: | Português |
| Dimensões: | 139 x 208 x 19 mm |
| Encadernação: | Capa mole |
| Páginas: | 298 |
| Tipo de produto: | Livro |
| Coleção: | Outro Olhar |
| Classificação Temática: |
Livros em Português
>
Literatura
>
Ensaios
|
| EAN: | 9789728541651 |
| Idade Mínima Recomendada: | Não aplicável |
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