Os Olhos de Himmler

de Rui Nunes
Editor: Relógio D'Água, junho de 2009 ‧
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«Um livro imenso. O relato da perseguição aos judeus, que persiste nas memórias de vítimas e carrascos.»
Óscar Faria, Público

«— olha. Olha o gajo,
e o bando volta se, têm blusões de couro, kispos, botas cardadas, o dedo indicador apontado para ele. E riem. Não lhes vê as caras, não as consegue ver, confundem se com as outras que passam, com a oscilação da sombra das árvores, com algumas folhas em queda, são borrões cheios de grúmulos escuros. Carne: murmura. Carne: repete. Um monte de carne. As mãos agarram na, erguem na, e depois atiram na para o cepo. Um som molhado e flácido cola se à madeira e espalha se nela, como água que se derrama: Uma bela carne. Os rapazes ainda ali estão, mas encostados a uma casa, uma perna dobrada e o pé apoiado na parede. Têm as mãos nos bolsos. E parecem esperar. Às vezes, voltam se uns para os outros e falam. Outras vezes, falam sem se voltar, olhos fixos na rua, como se falassem para ninguém. São palavras isoladas, talvez insultos, que fazem virar a cabeça a algumas pessoas, e apressam outras. O homem passa os dedos pela casca de laranja. E os rapazes aproximam se dele, aos pares, os ombros gingam, acompanhando o movimento dos pés. Os blusões abertos mostram as T.shirts brancas cujas pregas se desfazem e refazem ao ritmo dos passos. Cercam no. São tantas as cabeças inclinadas para ele, lá no alto, deixam entrever a copa amarelada das árvores, com os seus buracos de luz. A boca de um poço. Ouvia se a rapariga a gritar: estou aqui, estou aqui. Olhava se em volta e não se via ninguém.»

Os Olhos de Himmler

de Rui Nunes

Propriedade Descrição
ISBN: 9789896410865
Editor: Relógio D'Água
Data de Lançamento: junho de 2009
Idioma: Português
Dimensões: 152 x 231 x 11 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 128
Tipo de produto: Livro
Classificação Temática: Livros em Português > Literatura > Romance
EAN: 9789896410865

SOBRE O AUTOR

Rui Nunes

Escritor português e professor de Filosofia, Rui Nunes nascido em novembro de 1947. Licenciou-se em Filosofia pela Universidade de Lisboa e enveredou pela atividade de escritor em paralelo com a de professor de Filosofia, na Escola Secundária Rainha D. Amélia, em Lisboa.
Na década de 60, passou pelos jornais, tendo visto censurados muitos dos trabalhos.
Com muitas dificuldades, publicou o seu primeiro livro As Margens em 1968, tendo que suportar as despesas da edição. Contudo, a sua atividade literária só assume continuidade a partir de 1976, quando, depois de ter regressado da Austrália, em 1974, publica Sauromaquia.
Imprimindo à sua escrita um discurso de características próprias, Rui Nunes não nega a influência de escritores que a vida lhe foi permitindo conhecer, nomeadamente Kafka. Temas como a dor, a doença e a morte são recorrentes nos seus livros.
Porém, e apesar desta temática recorrente que flui na sua obra, o autor assume o ato de escrita como uma forma de sublimar a dor e com preciosos e comprovados (por ele) poderes terapêuticos. Por isso, gosta e tem prazer em escrever.
Leitor da obra de Agustina Bessa-Luís, Maria Velho da Costa, Maria Gabriela Llansol e de José Saramago, entre outros. Rui Nunes aprecia também outros géneros artísticos, nomeadamente o cinema (Bergman) e a música (Barroca e Jazz), admitindo que estes podem suscitar-lhe o gosto pela escrita.
Premiado, em 1992, com o Prémio do Pen Club Português de Ficção, atribuído ao seu livro Osculatriz, os seus novos títulos foram sempre, saudavelmente, apreciados pela crítica literária.
Considerado por Manuel Frias, membro do Júri que atribuiu ao seu livro Grito, em 1998, o Prémio GPRN (Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE)), "uma das estrelas mais brilhantes da constelação literária portuguesa - ocultada, tantas vezes pelas nuvens do fácil e do óbvio", Rui Nunes entende que o sucesso de um livro não se prende com a quantidade das vendas, mas sim com o "espaço de cumplicidade" entre autor e leitor que é capaz de criar.

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