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Meridiano de Sangue

de Cormac McCarthy
Editor: Relógio D'Água, outubro de 2010 ‧
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Meridiano de Sangue baseia-se em acontecimentos históricos ocorridos na fronteira entre os EUA e o México em meados do séc. XIX. O autor subverte as convenções do romance e a mitologia do «Oeste Selvagem» para narrar a violência da expansão americana, através da personagem do juiz Holden, que nunca dorme, gosta de dançar, viola crianças dos dois sexos e afirma que não há-de morrer.

“Meridiano de Sangue... é claramente, a meu ver, o maior feito estético da literatura americana contemporânea.”
The New York Observer

“O estilo de McCarthy segue a melhor tradição sulista, um estilo que funde uma eloquência ousada com ritmos intricados e uma precisão extrema.”

The New York Times

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A arte de não pertencer

Embora alguns livros se enquadrem numa categoria específica, há outros que resistem a rótulos, provocando verdadeiras dores de cabeça a leitores que gostam de ver as suas estantes bem arrumadas. São obras que, por várias razões, fogem ao convencional e misturam estilos, flutuam entre géneros ou, em casos extremos, desafiam a própria ideia de “livro”. Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes Cervantes viveu na época dourada dos romances de cavalaria. Estas histórias não eram muito diferentes entre si, sempre protagonizadas por cavaleiros heroicos que atravessavam o mundo em defesa da honra, da justiça e, claro, de uma donzela em apuros. À primeira vista, Dom Quixote parece apenas mais um exemplar dessa tradição: Quixote é um cavaleiro que percorre a Espanha montado no seu cavalo, Rocinante, acompanhado pelo fiel escudeiro Sancho Pança, em nome da sua amada Dulcineia. Mas Miguel de Cervantes apresenta-nos algo completamente diferente. Na verdade, Quixote é um velho fidalgo que, depois de ler muitos romances de cavalaria, perde a noção da realidade e passa a acreditar que o mundo funciona segundo os valores e os códigos dessas histórias. A sua “loucura” nasce da leitura apaixonada e obsessiva, que transforma estalagens em castelos, moinhos em gigantes e criadas em princesas. Ele não é um cavaleiro típico, é um leitor que tenta viver dentro dos livros que gosta, num mundo que não existe. É nesta distância entre a fantasia literária e a dureza do real que Cervantes constrói uma obra que não repete o género, desmonta-o com humor, melancolia, metalinguagem e crítica social. Dom Quixote é uma comédia, é uma tragédia, é sátira, homenagem, narrativa de aventuras e ensaio filosófico. É um livro inclassificável que, ao combinar géneros, inaugura a modernidade literária ao recusar um rótulo. QUERO LER! » Meridiano de Sangue, de Cormac McCarthy Meridiano de Sangue, de Cormac McCarthy, é outra obra difícil de classificar. Parece um western, mas subverte o género e vai muito além de uma simples história de cowboys. A narrativa acompanha um jovem, conhecido apenas como "o rapaz", que se junta a um grupo de caçadores de índios liderado pelo enigmático juiz Holden. Ao longo da narrativa, McCarthy combina a brutalidade de uma história de aventura com reflexões sobre violência, moralidade e natureza humana. Além disso, a figura do juiz Holden introduz no romance elementos de fantasia, dada a natureza quase sobrenatural da personagem, que parece encarnar as forças do caos e da destruição. A escrita poética e imersiva dá ao livro uma dimensão épica, ao mesmo tempo que explora temas como o poder, a guerra e a História. QUERO LER! » Matadouro Cinco, de Kurt Vonnegut Kurt Vonnegut combateu na Segunda Guerra Mundial e estava em Dresden quando, em 1945, a cidade alemã foi bombardeada pelos Aliados. Sobreviveu por acaso, escondido num matadouro subterrâneo chamado Schlachthof-fünf (Matadouro Cinco). Anos mais tarde, decidiu escrever sobre essa experiência traumática, recorrendo a factos verídicos, mas também à imaginação e ao humor negro. O resultado é uma obra desconcertante, que mistura géneros improváveis, como a ficção científica, o drama de guerra e a autobiografia. Matadouro Cinco é sobre Billy Pilgrim, um prisioneiro de guerra que viaja no tempo e no espaço, testemunha várias guerras e, entre episódios, é raptado por extraterrestres que o levam para um planeta distante, onde passa a viver numa espécie de jardim zoológico humano. A narrativa oscila entre o absurdo e a melancolia, o cómico e o trágico, construindo um romance difícil de classificar sobre o horror e a estupidez da guerra. QUERO LER! » A Possibilidade de uma Ilha, de Michel Houellebecq Michel Houellebecq é um autor polémico, conhecido tanto pelo estilo provocador como pela escrita crua e desencantada. Em A Possibilidade de uma Ilha, conhecemos Daniel, um humorista cínico que vive num futuro onde a clonagem é usada como resposta à morte e ao sofrimento. A narrativa alterna entre o presente e um tempo distante, em que os seus sucessivos clones vivem isolados e refletem sobre o amor, a solidão e o fim da Humanidade tal como a conhecemos. Houellebecq transforma a ficção científica numa meditação existencial, questionando a obsessão contemporânea com a juventude, o prazer e a imortalidade. Em vez de procurar respostas, o romance expõe feridas: o tédio moderno, a desumanização tecnológica e a procura de sentido. Com muita ironia e melancolia, A Possibilidade de uma Ilha, confronta-nos com uma imagem desconfortável, mas familiar, daquilo em que nos estamos a tornar. QUERO LER! » O Jogo do Mundo, de Julio Cortázar Há escritores que não se contentam apenas em combinar géneros e decidem subverter a estrutura do romance. O Jogo do Mundo, de Julio Cortázar, é um exemplo paradigmático de romance experimental, ao conceder ao leitor um papel ativo na construção da narrativa. Longe de ser um recetor passivo, o leitor torna-se coautor da experiência literária. O livro pode ser lido de duas formas: seguindo a sequência tradicional, capítulo a capítulo, da primeira à última página; ou segundo a ordem proposta pelo autor, que resulta numa história não linear e mais fragmentada. A ideia que temos do enredo e das personagens muda consoante o caminho escolhido. Cortázar funde elementos surrealistas e existencialistas ao explorar temas como o amor, a solidão e a loucura. Com uma linguagem inovadora e uma estrutura desconstruída, esta obra transcende os limites dos géneros literários, e proporciona uma experiência interativa e única, que desafia o leitor a questionar a realidade.
QUERO LER! » Todos estes livros oferecem mais do que histórias. Desafiam os limites impostos por géneros e pela estrutura tradicional do romance, e abrem caminho a novas formas de ler e de escrever. Afinal de contas, é bom existirem livros que nos obrigam a reorganizar prateleiras.

Meridiano de Sangue

de Cormac McCarthy

Propriedade Descrição
ISBN: 9789896411886
Editor: Relógio D'Água
Data de Lançamento: outubro de 2010
Idioma: Português
Dimensões: 153 x 233 x 17 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 352
Tipo de produto: Livro
Classificação Temática: Livros em Português > Literatura > Romance
EAN: 9789896411886

A Violência como Destino

JM

Em Meridiano de Sangue, Cormac McCarthy leva o western para um território quase mítico, onde a violência deixa de ser exceção e passa a ser lei natural. Seguimos “o miúdo” integrado num grupo de caçadores de escalpes, numa travessia pelo deserto que rapidamente se transforma numa descida ao inferno. A escrita é densa, bíblica, muitas vezes implacável. Há uma beleza estranha nas descrições, mesmo quando o que está em causa é brutalidade pura. E no centro de tudo surge o Juiz Holden, uma figura quase sobrenatural, que encarna uma visão do mundo onde a guerra é a forma mais alta de expressão humana. Não há concessões nem redenção. É um livro exigente, por vezes árido, mas de uma força rara. Um daqueles casos em que a literatura não procura conforto — expõe, confronta e permanece.

Os mundos sombrios de Cormac McCarthy

Bruno Curado

Cormac McCarthy é sem dúvida um dos grandes autores dos nossos tempos, sendo que geralmente nas suas obras os seus "mundos" e personagens são criados sob uma perspectiva mais sombria da humanidade. "Meridiano de Sangue" é para muitos a principal obra do autor, e é uma literatura essencial para quem quer conhecer um pouco da história sangrenta dos EUA, nomeadamente de certos horrores que aconteciam na fronteira com os vizinhos mexicanos no século XIX. É um livro dificil de ler pelas descrições brutais dos acontecimentos descritos ao longo da narrativa, mas ao mesmo tempo o genial McCarthy apresenta-nos uma escrita muito bela, quase que poética até. É um livro soberbo.

Denso. Excelente.

R.T.

Não é um livro leve. Vá preparado. Uma literatura dura que envolve o leitor. Mas exige na mesma medida. Recomendo.

Uma pintura em forma de texto.

André Couto

Meridiano de Sangue ou o Crepúsculo Vermelho no Oeste foi um livro com o qual tive uma relação problemática. Trata-se de um relato num determinado enquadramento histórico com a marca muito própria de McCarthy. O romance está repleto de violência e morte, suportados por um enredo sem dúvida rico mas com uma cadência muito lenta. Cormac demora-se no enriquecimento descritivo da paisagem, da atmosfera que envolve e domina os personagens de tal modo exaustivo que, para quem deseje ler o desenrolar cadente de mais alguma coisa que não apenas cinquenta e duas descrições diferentes do vermelho do sangue, se torna um pouco enfadonho. Este enfado assombrou-me até muito tarde na obra e só com uma alteração do que esperava do livro, com um novo olhar sobre o que estava a ler, acabei por ter muito prazer na recta final da leitura. O que acontece é que Meridiano de Sangue é um relato para ser degustado com requisitos primordiais dos quais não me muni atempadamente. As descrições elaboradas que me enfastiaram até determinado ponto deveriam ter sido abordadas por mim com olhos de quem vê e não com os de quem lê. Esta obra é uma riquíssima pintura e deve ser apreciada como tal. É um excelente exercício de escrita e deve ser saboreado como tal. É um ensaio sobre o sofrimento, o isolamento, a morte - a treva, numa palavra - e deve ser absorvido com essa cadência própria.

SOBRE O AUTOR

Cormac McCarthy

Cormac McCarthy (nascido Charles Joseph McCarthy Jr.,Rhode Island, 20 de julho de 1933 – Santa Fé, 13 de junho de 2023). Estudou na Universidade do Tennessee, que deixou para ingressar na Força Aérea.
Viveu em Santa Fé, no sul dos Estados Unidos, com a mulher e o filho. É autor de nove romances. Na Relógio D’Água tem publicados O Filho de Deus, O Guarda do Pomar e Meridiano de Sangue.
O seu romance preferido era Moby Dick, de Herman Melville.
Recebeu o Prémio Pulitzer em 2007.

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