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Manhã e Noite

de Jon Fosse
Livro eBook
Editor: Cavalo de Ferro, novembro de 2020 ‧
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Um menino está prestes a nascer, chamar-se-á Johannes como o avô e será pescador como o pai. Uma vida boa, é esse o desejo de quem o traz ao mundo, embora este seja um mundo duro, ruim e cruel. Um homem, velho e sozinho, morre, chama-se Johannes e foi pescador.

É o seu melhor amigo que o vem buscar rumo a esse destino onde não há corpos nem palavras, apenas tudo aquilo que se ama. Antes do regresso definitivo ao nada, Johannes revisita o museu da sua vida, longa, simples e quotidiana, confrontando-se paulatinamente com a morte num constante entrelaçamento de real e alucinação, passado e presente.

Manhã e Noite é um romance sobre o maravilhoso sonho que é viver e a aceitação do ciclo natural das coisas. Numa linguagem poética e elíptica, inovadora e despojada, Jon Fosse condensa toda uma existência em dois momentos-chave, urdindo uma reflexão encantatória sobre o significado da vida, Deus e a morte.

«Jon Fosse foi comparado a Ibsen e a Beckett, mas a sua obra é muito mais do que isso. Em primeiro lugar, apresenta uma intensa simplicidade poética.»
The New York Times

«Fosse é um místico cuja linguagem dá vida à natureza, um poeta cuja voz faz a prosa cantar.»
Dagbladet

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Os livros que 2023 premiou

Fechado o ano, vamos a um passeio por alguns dos prémios literários atribuídos. Uns premeiam autores, outros os seus livros. Sabemos que isto dos prémios tem muito que se lhe diga. Mas, ainda assim, celebremos os vencedores, e que venham os próximos!
  Manhã e Noite Jon Fosse – Prémio Nobel da Literatura
Já muito se escreveu sobre o escritor galardoado com aquela que será, decerto, a mais importante distinção na vida de um escritor: o Nobel da Literatura. O escritor norueguês, que completou 64 anos este ano, teve como presente o prémio que distingue uma carreira excecional no mundo da Literatura. Dele, lemos recentemente Manhã e Noite, um pequeno livro onde cabe o mundo de um homem, a estranheza dos dias, o viver nesse tal ténue limbo entre a realidade e a descrença do real. A prosa corrida, extensa, poderá desanimar os leitores menos habituados. Mas, neste caso, insistir compensa. Johannes e a sua praia, as suas memórias, vão ficar connosco muito além do fim do livro. QUERO LER! »









  Siríaco e Mr. Charles Joaquin Arena – Prémio Oceanos
Nascido em Cabo Verde, Joaquim Arena traz-nos a voz daquele arquipélago como nenhum outro. Foi um dos últimos prémios a ser atribuído em 2023, este Oceanos, e que bem entregue ficou ao livro de Arena. Trata-se de um romance histórico onde se cruzam duas personagens: Charles e Siríaco. Charles é Darwin, o famoso naturalista, biólogo e geólogo inglês, a quem devemos uma das mais importantes teorias acerca de quem somos. O outro, Siríaco, é um homem negro com vitiligo. As cores da sua pele causam espanto e curiosidade, tanto que viveu muitos anos na corte portuguesa. É um livro para slow Reading, para saborear cada descrição de ambiente, para vermos como floresce esta amizade inusitada… QUERO LER! » Confiança Hernán Diaz – Prémio Pulitzer
Do mesmo autor, já tínhamos lido Ao Longe, e ficado convencidos acerca da sua capacidade para nos fazer mergulhar em diferentes perspetivas acerca de uma mesma realidade. Mas Confiança dá um passo mais além e não é, por isso, de estranhar que 2023 lhe tenha trazido o importante Prémio Pulitzer. Aqui estamos perante um homem rico, viciado em fazer dinheiro, alheio a crises e conjunturas, explodindo de fama na conturbada América dos anos 20 e 30. Rask é um apelido que se impõe, pois tudo em que aquele homem toca parece transformar-se em dinheiro. Mas será mesmo assim? Temos aqui três versões sobre o sucesso deste homem e da relação com a mulher, Helen, personagem que aprendemos a descobrir, para que no final se torne protagonista. QUERO LER! » Demon Copperhead Barbara Kingsolver – Prémio Pulitzer
A universalidade da figura do rapazinho órfão, que desbrava a sua própria vida e que se vê confrontado com peripécias, tentações e abandonos. A própria autora refere que se inspirou na figura de David Copperfield, de Charles Dickens, para trazer para os dias de hoje a história de Demon Copperhead. O livro é narrado por ele próprio e leva-nos através de um mundo onde a sobrevivência se impõe. Estamos na América atual, com os seus bairros perigosos, o flagelo das drogas e a forma desigual de tratar as famílias carenciadas. Embora haja por vezes momentos em que sorrimos, pois o relato da personagem da sua própria vida é de uma fina ironia, são muitos mais aqueles em que pousamos o livro e respiramos fundo, cheios de vontade de abraçar aquele rapaz e lhe dizer que vai tudo ficar bem. QUERO LER! » Impostora R. F. Kuang – GoodReads Best Fiction
Da mesma autora de A Guerra das Papoilas e Babel, autênticos monumentos da fantasia contemporânea que agradam muito aos fãs do género, surge este Impostora, num registo totalmente diferente. O livro ganhou o prémio de melhor obra de ficção na plataforma GoodReads, onde mais de 140 milhões de leitores registam frequentemente as suas leituras. Em 2023, o livro, que recebeu o maior número de votos, traz-nos uma sátira ao mundo editorial, um manuscrito roubado e publicado por uma pessoa que não a sua verdadeira autora. O plano sai-lhe furado, pois à medida que avançamos na história, percebemos que não é assim tão simples apropriarmo-nos do trabalho dos outros… e a usurpadora, June, vai ter consequências por este insidioso furto. QUERO LER! » Aparas dos Dias João Barrento – Prémio Camões
O Prémio Camões é uma das mais importantes distinções literárias em língua portuguesa, atribuído por Portugal e pelo Brasil desde 1989. Este ano, João Barrento, ensaísta, tradutor e homem das letras, foi quem levou o prémio para casa. O principal fator de ponderação na atribuição do prémio a este intelectual português foi o seu trabalho na área da tradução de obras literárias alemãs, que vão desde a Idade Média aos nossos dias. Neste Apara dos Dias, estamos perante «a escrita na ponta do lápis», um livro onde o autor foi registando as suas leituras do mundo como se estivesse a colher, aqui e ali, temas, escritos, impressões, material proveniente de diversos formatos e agora disponível ao grande público. QUERO LER! »

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Jon Fosse, Nobel da Literatura 2023

Aos 64 anos, e após 10 anos em que esteve entre os favoritos, a Academia Sueca atribuiu ontem a Jon Fosse o mais prestigiado Prémio Nobel da Literatura, pelas «suas peças e prosa inovadoras que dão voz ao indizível». Em reação, o poeta, romancista e dramaturgo norueguês disse estar «emocionado e grato», vendo esta distinção como «um prémio para a literatura que, em primeiro lugar e acima de tudo, pretende ser literatura, sem outras considerações». E isso diz muito sobre Fosse, autor independente, alheio a modas, e glória das letras da Noruega.
Na obra de Fosse, traduzida para mais de 50 línguas e adaptada para mais de 1000 peças de teatro em todo o mundo, o indizível manifesta-se nas muitas formas de explorar as questões do ser, da consciência e da prática artística: os seus protagonistas na primeira pessoa estão sempre a tentar dizer algo e a sua escrita procura o eterno. Conheça, connosco, este brilhante escritor, entre o minimalista e a prosa lenta. Jon Fosse, Foto: © Tom Kolstad DA INFÂNCIA NOS FIORDES DA NORUEGA AOS PALCOS DO MUNDO Jon Fosse nasceu em Haugesund, na Noruega, a 29 de setembro de 1959, e cresceu em Strandebarm, onde teve uma infância tranquila, rodeado pela natureza e passando longas horas a ler num barco em plenos fiordes. Mas, com apenas sete anos, teve um grave acidente, em que quase morreu. Foi uma experiência de tal modo marcante e formativa enquanto pessoa, tanto no bom como no mau sentido, que, segundo o autor, foi definidora para o criar enquanto artista e escritor.
Fosse começou a escrever muito jovem, quando tinha 12 anos – pequenos poemas, pequenas histórias. «Criei o meu próprio espaço no mundo, um sítio onde me sentia seguro. É uma espécie de fuga», disse em entrevista ao The Guardian em 2014. Era também um apaixonado por música. Em jovem, tocava violino, e grande parte da sua prática de escrita na adolescência envolvia a criação das suas próprias letras para peças musicais. O ritmo continua a ser uma das chaves da sua força enquanto escritor, e uma das explicações para o facto de não usar vírgulas. Diz que, para ele, «escrever é ouvir, é um ato musical mais do que intelectual».
Em 1979, com vinte anos, mudou-se para Bergen, em cuja universidade estudou sociologia, filosofia e literatura. Trabalhou também como jornalista freelancer. Não gostava de falar com as pessoas, mas adorava escrever e, desde então, tem-se dedicado à escrita.

«Assistimos com orgulho (…) ao desenvolvimento de um autor que, depois de se ter afirmado como romancista, poeta e escritor infantil, se dedicou à dramaturgia e teve uma projeção internacional sem paralelo na literatura contemporânea.»
Det Norske Samlaget, editora de Jon Fosse

Jon Fosse divide o seu tempo entre uma aldeia perto da capital austríaca, que o atrai pelas suas tradições culturais profundas e vivas, uma casa num fiorde em Hainburg, e Oslo. Tem seis filhos, um deles ainda pequeno.
  A OBRA E O ESTILO LITERÁRIO DE JON FOSSE Ao olharmos para a escrita de Jon Fosse, poderemos concordar que esta se define mais pela forma do que pelo conteúdo: o que não é dito é muitas vezes mais revelador do que aquilo que é dito. Despojada de adornos, prefere a linguagem simples e enredos mínimos, privilegiando a musicalidade e as inerentes pausas, e criando personagens que tentam transcender as suas vidas mundanas.
Fosse publicou o seu primeiro romance, Raudt, Svart (Vermelho, Preto), em 1983, uma história que se move para trás e para a frente no tempo e entre perspetivas. Desde o início, optou por escrever em Nynorsk, ou Novo norueguês, uma das duas variedades escritas distintas do norueguês, utilizada sobretudo na Noruega ocidental.

«A sua ficção é encantatória, mística e enraizada na paisagem dos fiordes ocidentais onde cresceu. (…) É muito importante lembrar que [Fosse] escreve em nynorsk ou novo norueguês, uma língua minoritária na Noruega, um ato político em si mesmo».
Jacques Testard, editor de ficção de Jon Fosse

Ao longo dos 30 anos seguintes, Fosse escreveu romances, contos, poesia, livros infantis, ensaios e peças de teatro, destacando-se obras como Melancolia I e Melancolia II e A Shining. Depois de um período de grande sucesso durante o qual trabalhou quase exclusivamente como dramaturgo, Fosse converteu-se ao catolicismo em 2012, deixou de beber e voltou a casar. É nessa altura que começa a escrever Septologia, um romance de sete volumes escrito numa única frase e que exemplifica o que ele descreveu como a sua viragem para a “prosa lenta”. O narrador de Septologia é um pintor chamado Asle, convertido ao catolicismo, de luto pela morte da sua mulher, Ales. Na noite anterior à véspera de Natal, Asle encontra o seu amigo, também ele pintor, inconsciente num beco de Bergen, a morrer de intoxicação alcoólica. As suas memórias duplicam-se, repetem-se e gradualmente misturam-se numa única voz, uma consciência difusa capaz de existir em muitos tempos e lugares ao mesmo tempo – um monólogo que se desenrola de forma aparentemente interminável e sem uma única paragem completa ao longo de sete dias. A obra é composta por sete partes reunidas em três volumes: O Outro Nome, Eu Sou Outro e Um Novo Nome.
Em Portugal, foram recentemente publicados, pela Cavalo de Ferro, os livros O Outro Nome – Septologia I-II, Trilogia e Manhã e Noite
  JON FOSSE, O DRAMATURGO Para o jovem Jon Fosse, o teatro parecia ser mais uma questão de afetação do que de arte e ele não tinha qualquer interesse em entrar no mundo do teatro Mas acabaria por fazê-lo em 1993, porque estava falido. Surpreendentemente, tal acabou por ser, segundo o próprio, por ser «a maior revelação» da sua carreira de escritor. Três décadas depois, Fosse é o dramaturgo norueguês mais representado depois de Henrik Ibsen, tendo assinado 30 peças. Embora muitos consideram que as suas peças representam uma continuação moderna da tradição dramática estabelecida por Ibsen no século XIX, Fosse assume-se diferente deste escritor, o mais destrutivo que conhece, e sente que, pelo contrário, na sua escrita «há uma espécie de reconciliação, Ou, para usar a palavra católica ou cristã, paz.»
As peças de Fosse são intrinsecamente poéticas. Ao escrever teatro, o autor descobriu que podia usar o silêncio, as pausas, o que está entre as palavras. A sua primeira peça a ser representada, Og aldri skal vi skiljast (E nunca nos separaremos), foi encenada no Teatro Nacional de Bergen em 1994. Mas foi a primeira peça que escreveu, Nokon kjem til å komme (Alguém vai chegar), que viria a ser a sua grande revelação em 1999, quando o encenador francês Claude Régy a encenou em Nanterre. Era o seu quadragésimo aniversário e Fosse apercebeu-se de que a produção de Régy assinalava o início da sua carreira internacional como dramaturgo.
As peças de Jon Fosse, cujas personagens têm geralmente nomes genéricos como «o Homem», «a Mulher», «a Mãe» ou «a Criança», focam a intensidade das nossas relações primordiais e são, por vezes, sombrias e cómicas. Quando fez cinquenta anos, o escritor estava exausto. Não gostava das luzes da ribalta, e, após 30 peças teatrais e oito peças curtas, tomou a decisão de se afastar delas. Ele não queria viajar ou escrever peças, pelo menos por um tempo.
  UM AUTOR ACLAMADO NA NORUEGA E ALÉM DELA A atribuição do Nobel a Jon Fosse coincide com os seus 40 anos carreira literária, e Fosse não tenciona parar já que escrever, para ele, é um modo de vida. É reconhecido internacionalmente como um grande autor, mas a Noruega acarinha-o especialmente: em 2011, o rei Harald V atribuiu-lhe uma das maiores honras nacionais: o usufruto da Grotten, uma residência honorária nas instalações do palácio real, em Oslo, pelo seu contributo para a arte e a cultura do país; e, a cada dois anos, há um festival dedicado à sua obra. Além disso, foi criada a Fundação Fosse (em Strandebarm, onde o escritor nasceu), dedicada ao autor e às suas obras.

Estes são os principais prémios e distinções que recebeu:

1997 Prémio Aschehoug

1998 Prémio de Literatura Nynorsk

1999 Prémio Dobloug

2003 Prémio Norsk kulturråds ærespris

2003 Prémio Nynorsk de Literatura

2003 Cavaleiro da Ordem Nacional do Mérito de França (2003)

2005 Prémio Brage

2005 Comandante da Ordem Real Norueguesa de St. Olav

2007 Prémio Nórdico da Academia Sueca

2007 Prémio Alemão de Literatura para Jovens, do Ministério Federal da Família

2010 Prémio Internaciona Ibsen

2014 Prémio Europeu de Literatura

2015 Prémio de Literatura do Conselho Nórdico

2017 Prémio Europeu de Poesia da cidade de Münster, Alemanha

2022 Nomeação para o International Booker Prize, pelo seu romance Um Novo Nome: Septologia VI-VII

2023 Prémio Nobel da Literatura

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As Mil e Uma noites

A noite sempre esteve ligada à literatura, como cenário e como verdadeira forma de pensamento. É na noite que o tempo se desacelera, que os gestos quotidianos perdem relevo e aquilo que, à luz do dia, parecia evidente se torna de súbito problemático.
Herdamos da tradição de Shéhérazade a ideia de que a noite é, antes de tudo, um laboratório da narrativa, o lugar em que a linguagem tenta negociar com o medo, o desejo e a morte. Os cinco livros de que parto aqui: Noites Brancas de Dostoiévski, As Mil e Uma Noites, Manhã e noite de John Fosse, A Ronda da Noite de Agustina Bessa-Luís e As palavras da Noite de Natalia Ginzburg, propõem cinco figuras muito distintas da noite, que se cruzam e iluminam mutuamente. Noites Brancas, de Fiodor Dostoiévski, Em Noites Brancas, Dostoiévski escolhe uma noite paradoxal: as noites brancas de São Petersburgo, quando a claridade persiste e a fronteira entre dia e noite se torna incerta. Essa ambiguidade atmosférica corresponde ao próprio estatuto do narrador-protagonista, um “sonhador” que vive numa espécie de penumbra psicológica, suspenso entre a vida real e a vida imaginada. A cidade noturna, quase vazia, com as suas pontes e canais, torna-se prolongamento da interioridade do personagem, um espaço em que tudo é possível porque nada está ainda decidido. O encontro com Nástienka é menos um episódio romântico do que um acontecimento ontológico: durante algumas noites, o narrador acredita que lhe é concedido o direito de existir fora do seu mundo de fantasia. Mas o que a narrativa nos mostra é que essa abertura ao outro está contaminada pela mesma lógica do sonho: o amor que nasce na noite tem, desde a origem, o brilho do que está condenado a desaparecer ao amanhecer. Quando a luz do dia chega, não é apenas o idílio que se desfaz, desfaz-se a própria retórica da noite como espaço de salvação. A noite é o tempo da esperança exaltada, mas também o lugar do autoengano: aquilo que parecia epifania revela-se, em última análise, apenas mais uma figura da solidão. COMPRO NA WOOK! » As Mil e Uma Noites Bem diferente é a noite de As Mil e Uma Noites, que poderíamos chamar a noite “fundadora”. Aqui, a noite é princípio estrutural: o livro existe porque cada noite exige uma história, e cada história exige outra noite. Shéhérazade instala um dispositivo narrativo que é também um dispositivo de sobrevivência: enquanto a voz se mantiver em movimento, enquanto houver um fio de relato que não se interrompe, a morte é diferida. A noite é então o tempo do perigo extremo: a ameaça de execução ao amanhecer, mas é igualmente o tempo do engenho, da astúcia, da invenção incessante. O pacto é claro: o sultão oferece mais um dia de vida em troca de mais um episódio, e Shéhérazade transforma essa negociação brutal em arte de composição, entrelaçando narrativas, abrindo parêntesis, fazendo proliferar vozes, lugares, tempos. A escuridão que rodeia o leito real contrasta com a exuberância imaginativa dos contos, como se a literatura respondesse às trevas com excesso de luz. Se em Noites Brancas a noite é experiência individual, em As Mil e Uma Noites ela é espaço comunitário, povoado de narradores e ouvintes, de heróis, mercadores, princesas e viajantes. É uma noite barulhenta, saturada de histórias, onde o medo da morte se combate pela expansão quase infinita do imaginário. COMPRO NA WOOK! » Manhã e noite, de John Fosse Em Manhã e Noite, de , a noite deixa de ser proliferação e torna-se condensação extrema. O romance organiza-se em torno de dois momentos-limite da vida de Johannes, um pescador norueguês: a manhã do nascimento e a noite da morte. Fosse interessa-se menos pelos acontecimentos exteriores do que pelo modo como a consciência habita esses limiares. Na segunda parte, acompanhamos Johannes numa espécie de deriva pela sua própria existência, num tempo que já não obedece às regras cronológicas. A escrita, marcada por repetições, pausas, retomadas, cria um ritmo quase litânico, aproximando-se da respiração e da oração. A noite é aqui o momento em que o mundo familiar se estranha: os objetos parecem deslocados, as figuras que se aproximam podem ser vivas ou mortas, e o próprio sujeito já não tem a certeza de a quem pertence o corpo que habita. Fosse propõe uma noite rarefeita, quase vazia, em que cada palavra pesa porque pode ser a última. Esta é a noite metafísica por excelência: não a noite urbana do flâneur, nem a noite fantástica do conto popular, mas a noite em que a consciência se interroga sobre o que resta de si quando tudo o resto se retira. COMPRO NA WOOK! » A Ronda da Noite, de Agustina Bessa Luís Em A Ronda da Noite, Agustina Bessa-Luís convoca explicitamente a pintura de Rembrandt, e com ela uma determinada forma de ver a noite como jogo de contrastes, de focos de claridade recortados sobre um fundo obscuro. Essa imagética pictórica contamina o romance, que se constrói como uma sucessão de cenas em que as personagens avançam e recuam no palco social, ora expostas, ora protegidas pela sombra. A noite agustiniana não é apenas espacial, é moral e histórica. É a noite de uma certa burguesia, de uma certa ordem de família, em que o poder, o desejo e a culpa circulam através de conversas, alusões, silêncios estratégicos. A “ronda” do título sugere vigilância, mas também repetição: os gestos, as alianças, as traições repetem-se de geração em geração, como se a comunidade estivesse condenada a girar em círculo dentro desse crepúsculo moral. Agustina escreve esta noite com uma língua densamente irónica, comentando e desmontando o que narra. A noite em Agustina é ocasião de lucidez cruel: é na penumbra que se vê com maior nitidez a mecânica dos afetos e das ambições. A escuridão é a matéria de que se faz o olhar da autora: um olhar que recusa a ingenuidade do dia e prefere a complexidade dos contornos indecisos. COMPRO NA WOOK! » As palavras da Noite, de Natalia Ginzburg Já em As Palavras da Noite, de Natalia Ginzburg, o escuro entra pelo ângulo aparentemente mais modesto: o das relações familiares, das casas, dos quartos, das vozes que falam baixo para não acordar ninguém, ou para não acordar aquilo que todos preferem manter adormecido. A noite de Ginzburg é a noite doméstica, em que os pequenos gestos se tornam, sob determinado ângulo, decisivos. O título sublinha esse desvio: não se trata da noite como fenómeno físico, mas das palavras que lhe pertencem, que só se pronunciam, ou só ganham pleno sentido, quando o mundo exterior se cala. Ginzburg é mestre em captar o momento em que uma frase aparentemente banal fere como um diagnóstico, ou em que um silêncio pesa mais do que qualquer discurso. A noite, aqui, é o tempo em que as conversas ganham densidade, em que aquilo que foi adiado durante o dia vem à superfície, ainda que sob formas indiretas, elípticas.
A prosa de Ginzburg é de uma limpidez quase desarmante, mas essa simplicidade deixa ver com maior crueldade as fissuras afetivas, as pequenas violências que estruturam uma família. Ginzburg reduz o palco a uma sala, a uma cama, a uma mesa; e, nesse espaço mínimo, mostra como a noite é também o tempo em que a linguagem falha, tropeça, não chega onde seria preciso, deixando atrás de si um resto de mal-entendido impossível de resolver. COMPRO NA WOOK! » Se juntarmos estas cinco noites, percebemos que a literatura não se limita a “representar” a escuridão: ela inventa formas de a habitar. Em Dostoiévski, a noite é o tempo da ilusão necessária, em que o sujeito se permite acreditar que pode escapar ao confinamento da sua própria interioridade. Em As Mil e Uma Noites, é a grande máquina de adiamento, em que contar e viver se tornam quase sinónimos. Em John Fosse, a noite é fronteira ontológica, linha de sombra entre existência e não existência. Em Agustina, é teatro de sombras sociais, onde o jogo de luz e obscuridade revela a trama de poder e de desejo que organiza uma comunidade. Em Natalia Ginzburg, por fim, a noite é o laboratório das relações íntimas, o momento em que as palavras, desprotegidas pela rotina diurna, mostram a sua fragilidade e a sua violência.
Talvez seja este o verdadeiro parentesco entre estes livros tão diferentes: todos tratam a noite como um tempo de exceção, em que o mundo se desloca ligeiramente do seu eixo e, por isso, se torna legível de outro modo.

Manhã e Noite

de Jon Fosse

Propriedade Descrição
ISBN: 9789895641895
Editor: Cavalo de Ferro
Data de Lançamento: novembro de 2020
Idioma: Português
Dimensões: 154 x 222 x 8 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 112
Tipo de produto: Livro
Classificação Temática: Livros em Português > Literatura > Romance
EAN: 9789895641895

O CICLO DA VIDA

LUÍSA COSTA MACEDO

Um velho marinheiro acorda num dia cinzento que passa a soalheiro num caminho de memórias vivas, onde vários personagens vão aparecendo e interagindo com Johannes na sua caminhada matinal, entre a sua casa e o mar que tão bem o conhece e que há já vários anos rejeitara a sua isca e linha de pesca. A vida de um personagem que começa com o seu nascimento e o milagre que é um ser novo e desejado, no seio de uma família simples ligada ao mar e às suas lides, numa geografia dura e humana em que o que mais importa são os elos entre as pessoas, as suas memórias e alguns humanos e prazerosos hábitos, seja o café matinal, um cachimbo quente para afastar o frio, uma caminhada pela terra, uma meditação sobre Deus, cortar o cabelo ao melhor amigo ou ir ao mar e remar apenas pelo prazer de estar sobre a água imensa. Texto Luísa Costa Macedo “A isca não está a afundar? diz Peter Não, diz Johannes e abana a cabeça Isso não é bom, diz Peter e Johannes levanta a cabeça e vê lágrimas nos olhos de Peter …. O oceano não ter quer, diz ele...”

Manhã e Noite

Rui Pinto

Este maravilhoso romance de Jon Fosse é no meu entender, independentemente de qualquer tipo de religião, a descrição de um sonho que a alma tem no momento da morte corporal – no momento da passagem para outro qualquer lugar. A ausência de pontuação durante a narrativa não é estranha para quem leu José Saramago. Um livro a não perder.

Dualidades do princípio ao fim do livro!

Silvéria Miranda

Num livro em que presente e passado se misturam numa narrativa lenta, é inegável o tom teatral deste autor norueguês - que também é dramaturgo - agraciado com o Prémio Nobel da Literatura em 2023. É um livro que pede calma, mas não é um livro maçador. É um livro com uma forte componente espiritual, mas não é um livro sobre autodesenvolvimento ou espiritualidades. Primeiro estranha-se a sua falta de pontuação, mas depois flui!

O sonho da vida e a aceitação do ciclo natural das coisas

Joana

Descobri John Fosse através dessa pérola. Trata-se de um romance sublime que versa sobre a vida e o maravilhoso sonho de estar vivo, e sobre a aceitação do ciclo natural das coisas e a morte, escrito de forma singular e muito poética. Lê-se num fôlego.

Extraordinário

Teresa Coelho

Não tenho dúvidas que um bom livro não se mede pela quantidade de páginas, mas admito que não estava preparada para um embate destes. Não esperava que fosse este toque de génio. Sinto-me completa e absolutamente rendida as estas poucas mais de 100 páginas. Quero, preciso, tenho de ler tudo o que puder deste autor. Manhã e Noite é o princípio e o fim. A alegria e a esperança, o medo e a solidão. É todo ele profundidade, é a vida em tão poucas palavras. A pontuação não faz falta alguma, fiquei tão instantaneamente absorvida pela narrativa que só ao fim de várias páginas é que reparei na quase inexistência de pontos finais e de interrogação. A escrita é brilhante e inteligente, a história toca a perfeição e o coração. Quem não leu, que não deixe de o fazer.

Ideia interessante

Ana Rita Ramos

A ideia do livro é interessante: uma viagem pela vida e pela morte. Contudo, a forma como está escrito é cansativa de ler e dá a sensação de se ficar sem fôlego.

Maravilhosa leitura

Dora Silva Livros à Lareira com chá!

Um livro Triste e belo em simultâneo, uma agradável surpresa que me deixou completamente envolvida e com pena que terminasse. Uma escrita viciante que me lembrou o grande mestre,José Saramago. Recomendo e aconselho a fazer a leitura de forma calma,sem pressa.

Belo e singular

Telma Castro

Através desta belíssima prosa poética senti a vida a escorrer pelas mãos, o ritmo dos dias e das noites, o quão efémero pode ser cada momento. Manhã e Noite, título alegórico, que lhe assenta na perfeição, é uma reflexão sobre a vida e sobre a morte, com uma simplicidade tocante. Fosse mostra-nos o início e a finitude da vida de Johannes, de forma espantosa. Eu diria que esta obra é uma espécie de ciclo circadiano narrativo, onde os processos biológicos se cumprem. Tudo tem o seu tempo, um início e um fim, "As coisas são mesmo assim, diz Johannes", frase repetida inúmeras vezes na narrativa. A quase ausência de pontuação dá fluidez, faz a narrativa respirar liberdade. As repetições constantes, os diálogos simples e a sequência detalhada dos movimentos, também acabam por lhe conferir ritmo, salpicadas de interjeições, que dão voz a este concerto. Foram vários os momentos que vi nuances do nosso António Lobo Antunes. Em Fosse, à semelhança de outros escritores nórdicos, a narrativa é pautada pela natureza, talvez porque grande parte do tempo esta se revele austera, condicionando o quotidiano de quem vive naquelas latitudes. A menção a Deus é outra situação recorrente, que neste contexto de vida e de morte, ganha alguma força. Manhã e Noite é um exemplo perfeito que a beleza está nas coisas mais simples.

Profundo

Manuel Vilhena

Um autor que no seu estilo introspectivo faz uma viagem silenciosa à profundidade do Homem.

Vida e morte

João Carlos Vieira Padinha

Uma escrita depurada, com sentido teatral. O autor leva-nos na viagem da vida, de dory chega a parteira para o nascimento de dory se parte para o alto mar do esquecimento.

Promete mas não cumpre

Ricardo

Aceitável, mas demasiado despojado. Um livro que quer dizer muito mas acaba por não dizer nada, como num ensaio que se achasse profundo mas não passasse de superficial. Não se entende como uma editora destas volta a optar por uma tradução indirecta, que também poderá ter afectado a leitura.

SOBRE O AUTOR

Jon Fosse

PRÉMIO NOBEL DA LITERATURA 2023

Jon Fosse é um dos mais importantes e celebrados autores vivos. Nasceu em 1959, em Strandebarm, no Oeste da Noruega, e vive atualmente numa residência honorária situada nas propriedades do Palácio Real de Oslo, chamada «Grotten», bem como em Hainburg, Áustria, e em Frekhaug, Noruega.
Escritor e dramaturgo prolífero, estreou-se em 1983 com o romance Raudt, svart [Vermelho, preto], tendo recebido vários prémios ao longo da sua carreira, entre os quais o Prémio Internacional Ibsen, o Prémio Europeu de Literatura e o Prémio de Literatura do Conselho Nórdico. A sua extensa obra, traduzida em mais de quarenta línguas, inclui romance, teatro, poesia, livros para crianças e ensaio.

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