Filosofia da Música
Uma Antologia
SINOPSE
Que tem a música a ver com a história? Não é difícil ver a ligação. A história estuda os acontecimentos do passado. As convenções musicais em que os músicos e compositores trabalham, o modo de construir instrumentos, o tipo de instrumentos que se constrói, a notação musical, o ensino da música sofrem transformações ao longo do tempo e estudar essas coisas com a metodologia do historiador ajuda-nos a compreender a sua evolução. Ajuda-nos a responder a perguntas como: "por que há orquestras?", "de onde vem a notação musical?", "como surgiram as escalas e modos actuais?" A ligação com outras áreas, como a psicologia e a sociologia é também fácil de compreender. Sabendo qual o objecto de estudo dessas disciplinas e como nelas se trabalha, compreende-se facilmente quais os aspectos da música que podem ser produtivamente tratados pela psicologia e pela sociologia. Conseguimos imaginar sem dificuldade o género de perguntas a que estes investigadores tentam responder — "como funciona a aprendizagem musical?", "o que acontece nas nossas cabeças quando ouvimos música?", "que formas de música estão relacionadas com estas ou aquelas actividades ou classes sociais?"
Estas perguntas têm em comum o facto de, para lhes darmos resposta, termos de fazer mais do que reflectir cuidadosamente. Supõem o uso de procedimentos empíricos e o único modo de conhecermos a verdade das respostas é inspeccionando indícios físicos, informação experimental e estatística. Podemos não conhecer com exactidão o género de trabalho que se faz em psicologia da música ou em sociologia da música, mas compreendemos intuitivamente o interesse que a música pode ter para um psicólogo ou um sociólogo, tal como compreendemos intuitivamente o objecto da musicologia evolucionista (mesmo quando ouvimos a expressão pela primeira vez), o interesse que a música pode ter para um biólogo que estuda o canto das baleias ou das aves ou a origem da música humana.
Ao passo que é difícil imaginar claramente o género de perguntas a que um filósofo da música pode tentar responder, há uma uniformidade de expectativas quanto ao que deviam ser as suas respostas: ou respostas filosóficas para problemas empíricos (uma inversão do cientificismo, que envolve querer dar respostas empíricas a problemas filosóficos) ou juízos valorativos sobre composições e interpretações particulares. Aqui as opiniões dividem-se novamente entre os liberais e os cépticos, que partilham as mesmas expectativas relativamente à filosofia mas discordam quanto à capacidade desta para chegar a resultados. Assim, por exemplo, pode-se achar ou que a filosofia responderá a perguntas como "Qual a origem da música nos seres humanos?" (que é uma pergunta empírica e não filosófica), ou que não responderá a esse género de perguntas mas que devia fazê-lo, se fosse cognitivamente interessante. As expectativas e desilusões são semelhantes no que respeita à emissão de juízos críticos particulares.
Isto explica-se pela incompreensão do que seja um problema filosófico e pelo facto de na escola termos sido treinados para resolver ou problemas empíricos cuja solução foi já testada, ou problemas cuja resolução envolve procedimentos formais, como fazer cálculos. Por isso é tão comum confundir objectividade com escrutínio de factos e medições, imaginando-se a filosofia da música ou como uma rival das disciplinas empíricas, ou como algo "subjectivo", muito semelhante à crítica musical mas com mais palavras caras por centímetro quadrado.
A filosofia da música não procura substituir-se à investigação empírica sobre música nem à crítica musical. Procura resolver problemas que envolvem perplexidades reais e exigem solução, não são meramente verbais; e problemas insusceptíveis de serem resolvidos empiricamente. De que género de problemas se trata? Por exemplo, i) a definição de música; ii) explicar o facto de a mesma obra poder ter várias ocorrências sonoras cujas propriedades diferem, sem que isso afecte a sua identidade; iii) explicar em que consiste o poder expressivo da música; iv) saber o que é "compreender" uma obra musical; v) saber se a música tem conteúdo representacional; vi) se tem propriedades morais; vii) saber o que é o valor da música. Embora não seja exaustiva, a lista representa o género de problemas a que o filósofo da música procura responder. Trata-se de problemas acerca da realidade das entidades musicais (composições, obras, interpretações, improvisações), das suas propriedades e estatuto ontológico (que género de entidades são) e problemas acerca do conhecimento e experiência que temos delas. A estética musical é um subconjunto desses problemas. Não se confunde com coisas como a "defesa de uma estética..." em que no lugar vazio colocamos um adjectivo qualquer, por exemplo, "vanguardista", "conservadora", "realista", etc. Também não se confunde com elogios às atitudes políticas de um compositor. A estética musical ocupa-se de problemas como os seguintes: saber em que consiste a beleza musical; o que distingue as experiências musicais, se algo o faz; que propriedades de uma obra ou performance são relevantes para a apreciação estética e, já agora, o que isso é.
Vítor Guerreiro
DETALHES
| Propriedade | Descrição |
|---|---|
| ISBN: | 9789725766316 |
| Editor: | Dinalivro |
| Data de Lançamento: | outubro de 2014 |
| Idioma: | Português |
| Dimensões: | 144 x 198 x 20 mm |
| Tipo de produto: | Livro |
| Classificação Temática: |
Livros em Português
>
Arte
>
Música
|
| EAN: | 9789725766316 |
OPINIÃO DOS LEITORES
O Bem Maior
Telma Barbosa
A Música eleva o Ser, mas devemos também procurar mais conhecimento. Sem dúvida um excelente contributo para este Mundo Musical.
Um livro sobre música que faltava em Portugal
Tiago
A música é uma das dimensões mais importantes da nossa vida. Praticamente ninguém lhe é indiferente, e geralmente a música ocupa um lugar de primeiríssima importância nas nossas realidades. O modo como sentimos, o modo como nos conhecemos a nós próprios, o modo como percebemos o mundo, estão intimamente ligados ao modo como nos relacionamos com a música e ao valor que a música tem para nós. O campo da filosofia da música é uma área da filosofia ainda pouco explorada no contexto académico e editorial português. Contudo, verifica-se que tem havido um intenso aumento da investigação desta área nos países anglo-saxónicos. Trata-se de um campo fascinante que interliga o campo da estética, da musicologia, da acústica, em vista a um entendimento mais claro e preciso deste fenómeno absolutamente essencial nas nossas vidas. Eis um excelente livro que lança as sementes para que o debate sobre este tema cresça e floresça.
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