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Do Outro Lado do Tempo

E se pudesses ouvir o teu futuro?

de Ana Markl; Ilustração: Christina Casnellie
Editor: Nuvem de Letras, maio de 2025 ‧
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Este livro é uma conversa imaginada entre dois tempos: o presente, escrito por uma adulta em 2025, e o passado, baseado nos diários de uma adolescente dos anos 90. E é para todos os jovens, de todos os tempos, que estejam a passar pelas mesmas dores de crescimento.

Já imaginaste como seria a tua vida se pudesses falar com o teu eu do futuro? Muito aborrecida, decerto. É verdade que o teu coração não chegaria a partir-se se soubesses que irias ficar bem. e que as tuas notas seriam excelentes se soubesses exatamente o que ia sair nos testes. Mas que graça teria uma vida sem desafios? Não sabermos o que lá vem é a certeza que nos move. E, por mais que doa, podemos sempre acreditar num final feliz. Ou vários. Escrito a partir de diários da Ana Markl e ilustrado magistralmente pelo talento de Christina Casnellie, este livro é uma partilha sincera e emotiva sobre a «mochila, por vezes demasiado pesada» da adolescência e a capacidade de nos superarmos.

«Tu só querias ser igual a eles, mas vais percebendo que eles não eram assim tão leves, só disfarçavam melhor ou fugiam mais rápido para a frente (mas não suficientemente rápido).»
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Ana Markl de A a W

De A a W é uma rubrica do Wookacontece, na qual desafiamos um convidado a percorrer as letras do abecedário dizendo para cada uma delas o que bem entender. O resultado é sempre uma incógnita. Desta vez, a nossa convidada é Ana Markl, radialista, moderadora, argumentista e autora. Depois de Avó, Onde é que Estavas no 25 de Abril? e Onde Moram os Teus Macaquinhos?, a autora acaba de lançar Do Outro Lado do Tempo, em que “fala” com a Ana Markl adolescente, como se esta pudesse ouvir os seus conselhos do futuro.
O livro acompanha a Ana de 2025 e a Ana de algures nos anos 90, numa viagem de memórias ilustrada por Cristina Casnellie, em tons rosa e cinza, mas sobretudo muito vivos, que nos transportam para a miríade de situações vividas pela autora na adolescência. Os medos e angústias, os desejos e os sonhos e, sempre, as dúvidas que fazem parte do crescimento percorrem esta espécie de diário revisitado, baseados nos muitos diários que Ana Markl escreveu na sua juventude. «Quanto melhor te lembras de quem foste ao longo do tempo, menos te arrependes das escolhas que fizeste» - é uma das lições de sabedoria que o passar dos anos trouxe a Ana, entre muitas outras, com que todos nos podemos identificar. Um livro que tanto adolescentes quanto os mais velhos vão gostar de ler, porque é franco, e isso nem sempre se consegue.   De A a W Ana Markl A – Amigos – Na adolescência, é muito importante encontrarmos a nossa tribo, um grupo a que nos liguemos através dos nossos gostos e das nossas particularidades. Quando nos sentirmos diferentes ao pé dos nossos contactos mais imediatos, devemos lembrar-nos de que há outros como nós. E de que todas as idiossincrasias devem ser celebradas.

B – Beijo – Quando era miúda, vivia obcecada com o meu primeiro beijo. Sentia uma mistura da pressão dos pares com desejo e com a vontade de encontrar alguém que me compreendesse. Em retrospetiva, tudo foi no tempo certo – porque não existe um tempo certo. Existe a vida a acontecer e seríamos mais felizes se ninguém nos dissesse como e quando vivê-la.

C – Cassete – Antes de ter um leitor de CD, gravava discos emprestados em cassetes que ouvia de fio a pavio. Não dava jeito saltar faixas, até porque dava muito trabalho o rewind e o fast-forward até acertar na que queríamos ouvir. Também gravava as canções que davam na rádio e fazia compilações para oferecer aos amigos e aos rapazes de quem gostava. Hoje em dia, não há obstáculos entre nós e a música: basta procurar o que nos apetece ouvir e, passado um segundo, já está a tocar. Por vezes, nem precisamos de procurar. Acho bonita essa facilidade, mas também sinto que nos dispersa o interesse e o gosto.

D – Diário – Fico realmente feliz por ter escrito e guardado tantos diários. Fez-me compreender e acarinhar o meu passado e também me fez concluir que há angústias transversais a todos os adolescentes de todos os tempos. O mundo seria melhor se não perdêssemos a memória do que fomos. É fácil sentirmos vergonha ou acharmo-nos ridículos, mas não seríamos os mesmos se não tivesse havido esse estágio, por vezes tão duro, para a vida adulta.

E – Estranho – Sempre me senti estranha entre os meus pares, como se me faltasse leveza e o meu monólogo interior me dissesse coisas que só eu sabia e preferia não saber. A adolescência é dada a esta ilusão solitária de estranheza. Estamos entre o que somos, o que queremos ser e o que queremos parecer. Mas o monólogo interior não deve ser calado para que nos conheçamos e aceitemos. Só assim a estranheza passa a ser uma força.

F – Futuro – Uma das sensações que perpassa pelos meus diários da adolescência é a de ter, ao mesmo tempo, saudades de ser criança e pressa para ser adulta. Acho que este conflito define muito esta “fase” da vida – uma “fase” que não é uma fase e não deve ser entendida com essa condescendência. É a vida a acontecer. E é bom podermos chegar ao futuro e abraçarmos a adolescente confusa de outrora. G – Grito – A adolescência é a melhor altura para aprendermos a ser reivindicativos. No meu tempo, os adultos criticavam os jovens que lutavam contra os problemas da educação indo para a rua. Hoje, criticam os jovens por lutarem como podem contra as alterações climáticas. Os adultos nunca entendem que, por vezes, é preciso mostrar o rabo à Assembleia da República ou parar o trânsito para que os jovens se façam ouvir. Gritem!

H – Hormonas – Não sou especialista na área da saúde, mas, na ótica de quem sofreu bastante às mãos das hormonas, sei que devia haver muito mais informação e muito mais margem para percebermos e sentirmos o efeito que elas têm ao longo da nossa vida. Os adolescentes, em particular, têm de aprender a ouvir o seu corpo, mas, para isso, os adultos devem estar disponíveis para conversar sobre o assunto.

I – Insegurança – Esta é também uma sensação que define muito este período das nossas vidas. Por comparação e pressão dos pares, os adolescentes podem sentir-se mais inseguros, menos confiantes das suas escolhas e gostos, da sua identidade. Sem essa confiança, a socialização, tão importante para o crescimento, é deficitária: ou não existe, ou é desequilibrada ou então é artificial e contraria a sua personalidade. Isto pode ser muito violento para pessoas mais sensíveis, tornando-as mais permeáveis a relações abusivas, tóxicas e a outros perigos que espreitam. A personalidade é essencial à força do carisma e da assertividade. J – Julgamento – O medo de sermos julgados contribui para a insegurança. Se temos pais, educadores e pares que não nos acolhem, o nosso crescimento será alicerçado nesse medo. O exercício de não julgar começa em casa, nos nossos cuidadores. Essa é a chave de uma boa autoestima.

K – Kurt Cobain – Prestes a fazer 15 anos, passei pela perda de um dos meus maiores ídolos. Chamavam-lhe porta-voz de uma geração, mas, para mim, ele era só o líder de uma das bandas mais importantes da minha vida, os Nirvana. E, na verdade, ele era só um miúdo sensível altamente traumatizado por uma infância de abandono, negligência e bullying. Ele recusava ser porta-voz porque essa não era a sua missão, nem sequer uma batalha consciente. Para ele, a música era salvação e sobrevivência, mas obviamente que ele preferia não ter passado pelo que passou para se tornar a voz de uma certa angústia. Em 1994, o seu suicídio confirmou isso mesmo. Nem a música nem a fama, nem sequer uma filha, foram suficientes para lhe dar sentido à vida. O mundo não deve gerar este tipo de "herói" – deve, sim, acolher todos os jovens Kurts a tempo de se tornarem adultos felizes.

L – Liberdade – Quando era adolescente, só pensava em libertar-me do jugo dos meus pais. É perfeitamente válido e saudável desejarmos essa liberdade, desde que tenhamos a certeza de que há sempre um colo aonde regressar quando algo corre mal. O grande mistério para os pais é sempre: quanta liberdade? Quanto mimo? Mas cabe aos pais dar todo amor e incluir nesse amor a responsabilização e a confiança. Os filhos devem compreender a ansiedade dos pais – que é muita, sobretudo nos dias de hoje – e os pais devem compreender o desejo de liberdade dos filhos. E que se abra diálogo para se perceber até onde é que essa liberdade pode ir.

M – Mixtape – O meu maior poder de sedução foi sempre a minha paixão pela música. Através de compilações gravadas em cassete ou, já em adulta, de links e playlists, deixei que a música falasse sobre mim.

N – Namorado – A minha ideia de namorado, desde cedo, veio dos filmes. Filmes que mostravam arrebatamento e companheirismo, que não era muito o que a maioria das pessoas da minha idade procurava ou tinha para oferecer. Por isso, via as "curtes" à minha volta e pensava: para quê? Mas estou em crer que, se tivesse tido mais oportunidades, tinha mandado o romantismo às malvas rapidamente. Ser-se adolescente é isto: ter-se a certeza de tudo e de nada.

O – Overthinking – É disto que falo quando falo do meu "monólogo interior". Sempre sofri de ansiedade e excesso de pensamento. Acho que só agora é que lido melhor com esse bulício cerebral constante. Aprendi a ouvi-lo quando importa e calá-lo quando é preciso. Gostava de ter feito terapia na minha adolescência.

P – Pais – Os pais devem recuperar o instinto e a intuição perdida no meio da ansiedade e do excesso de informação e desinformação. Um adolescente não precisa de pais austeros nem de pais permissivos, precisa apenas de pais (ou cuidadores e educadores) que os respeitem, que os amem e que não os tratem com condescendência. Que valorizem os seus pequenos grandes dramas e que estejam sempre ao seu lado – não atrás, não à frente, nem em cima, mas ao lado.

Q – Quarto – No meu tempo, o quarto era um refúgio seguro. Eu sentia-me sozinha, mas também apreciava a solidão. Ficar só a ler, a escrever ou a ouvir música no quarto enquanto olhava pela janela. Não, não havia smartphones, a internet ainda não era nada do que é hoje, portanto o meu quarto fechava-se sobre mim, era um espaço de reflexão onde não me expunha ao mundo, apenas pensava sobre o mundo. É importante esse tempo de reclusão que, penso, pode estar perdido hoje em dia – para jovens e adultos. Já não sabemos o que é estar "sozinhos nos nossos pensamentos". O que é pena porque, se não fosse esse tempo e esse espaço, este livro não existia.

R – Rapazes – Apesar de ter muitas e intensas paixões por rapazes, defendia que devíamos amar pessoas, “almas” e não géneros limitados pelos seus estereótipos. No meu grupo de amigos, a revolução era questionar esses estereótipos, lutar pela igualdade. E parecia haver caminho pela frente. Não esperava que, hoje em dia, houvesse tanto movimento contrário a essa causa. A desigualdade é uma infelicidade e uma vergonha.

S – Solidão – Já a referi aqui várias vezes: umas vezes, como um sentimento negativo; outras, como condição essencial ao crescimento. Os jovens de hoje parecem estar mais sozinhos e, ao mesmo tempo, menos sozinhos que nunca. É importante que a solidão e o tédio façam parte das suas vidas, desde que não as definam.

T – Tudo – Ser-se adolescente é querer-se tudo e, se isso não acontecer, é porque algo está mal.

U – Utopia – Durante muito tempo, a minha esperança no futuro fez-me apreciar visões mais pessimistas na literatura e no cinema – as chamadas distopias. Eram viagens que fazia a partir de uma zona de conforto porque o mundo parecia caminhar no sentido do progresso. Hoje, acho que as distopias não fazem qualquer sentido porque correspondem exatamente ao tempo que estamos a viver. Os jovens devem voltar a criar utopias, para que voltem a acreditar que é possível fazer-se um mundo melhor e mais justo.

V – Vulnerabilidade – Criei uma certa força a partir de alguns momentos de vulnerabilidade a que me entreguei durante a adolescência. Atrevi-me a dizer verdades sobre mim e sobre o que sentia, e isso nunca me trouxe dissabores. Mesmo que possa ter criado algum constrangimento, compensou sempre. Fez-me ser mais respeitada e admirada. É através desses momentos que nos damos a conhecer e que geramos empatia e confiança nos outros. Isto vale para todas as idades.

W – Walkman – Era o trambolho mais portátil dos anos 90. Não conseguia sair de casa sem música nos meus ouvidos e ainda hoje acontece o mesmo. Não sei se a música salva, mas ajuda muito.

Do Outro Lado do Tempo

E se pudesses ouvir o teu futuro?

de Ana Markl; Ilustração: Christina Casnellie

Propriedade Descrição
ISBN: 9789895834914
Editor: Nuvem de Letras
Data de Lançamento: maio de 2025
Idioma: Português
Dimensões: 153 x 212 x 14 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 224
Tipo de produto: Livro
Classificação Temática: Livros em Português > Infantis e Juvenis > Contos Fábulas e Narrativas > Juvenil
EAN: 9789895834914
Idade Mínima Recomendada: Maiores de 12

viagem no tempo

cláudia

quem me dera que este livro existisse quando eu era adolescente para ajudar-me a não me sentir "estranha". vou guardar este livro para a minha filha ler quando chegar a hora.

Adorei!!

Susana

Trata-se de um livro infantojuvenil que comprei a pensar na minha afilhada que está agora a passar pela fase da adolescência. Como amante de livros que sou, comecei a ler e só consegui largar na última página. O livro retrata os sentimentos e passagens vividas pela Ana na adolescência que são transversais a quase todos os adolescentes pelo que é fácil nos identificarmos (adultos pelo que passamos e adolescentes pelo que estão a passar/sofrer). Além disso, entra na narrativa a Ana adulta que com muita ponderação e sensatez fala sobre os temas mais angustiantes como o divórcio dos pais sem perder a mestria e a delicadeza. Fiquei com o coração quentinho.

Uma leitura deliciosa

PJRNeto

Foi delicioso acompanhar estes diálogos entre a Ana atual e Ana que foi adolescente nos anos 90 que dava largas aos seus pensamentos, esperanças e frustrações nos seus diários, afinal tão semelhantes aos de quase todos os adolescentes desse e deste tempo. Destaque também para as belas ilustrações de Christina Casnellie

SOBRE O AUTOR

Ana Markl

Ana Markl nasceu em Lisboa, em 1979. Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas porque gostava de ler e escrever, mas acabou por se formar em Jornalismo pelo CENJOR. Trabalhou no jornal Blitz para pôr a render o amor à música, mas escreveu sobre os mais variados temas de cultura e sociedade para publicações como a Time Out, Sol ou Expresso. Esteve na fundação do canal Q em 2010, onde foi guionista e apresentadora até 2016. Apresentou, escreveu e participou em programas da RTP. No final de 2023, deixou as Manhãs da Antena 3, que apresentou ao longo de oito anos, mas continua no ar e nos palcos com o podcast Voz de Cama. É autora dos livros infantojuvenis Onde Moram os Teus Macaquinhos? (ed. Lilliput), Avó, Onde É Que Estavas no 25 de Abril? (ed. Lilliput) e Do Outro Lado do Tempo (ed. Nuvem de Letras). Traduz livros infantis. Mas o seu trabalho favorito é inventar histórias com o seu filho.

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