Conselhos Aos Jovens Literatos

de Charles Baudelaire
Editor: Objecto Cardíaco, abril de 2006 ‧
São, no mínimo, inusitadas as preocupações de Charles Baudelaire reveladas nos textos que compõem este livro. O dandy, por excelência, das letras universais aparece aqui rotundamente ocupado com uma teoria do carreirismo que apaga seriamente a imagem mais fácil que lhe assacamos da obra poética e do mito. De facto, um Baudelaire que contabiliza acção e efeito, no que à poesia diz respeito, ao jeito de um equilíbrio interesseiro muito mais do que uma decorrência natural da comparência elevada da Arte, é um Baudelaire diferente do boémio estouvado amado por tantos.

Conselhos Aos Jovens Literatos

de Charles Baudelaire

Propriedade Descrição
ISBN: 9789728983024
Editor: Objecto Cardíaco
Data de Lançamento: abril de 2006
Idioma: Português
Dimensões: 147 x 210 x 4 mm
Páginas: 44
Tipo de produto: Livro
Classificação Temática: Livros em Português > Literatura > Outras Formas Literárias
EAN: 9789728983024
Idade Mínima Recomendada: Não aplicável

Incrível!

João Matias

Acabei de ler “Conselhos aos jovens literatos”, de Charles Baudelaire, e não é um livro nada confortável. Desengane-se quem pensa que o francês ensina a escrever melhor; ensina, sobretudo, a não nos enganarmos sobre a escrita, o papel da arte, do artista e da sobrevivência artística e literária num mundo cada vez mais, como o próprio o apelida, “carreirista”. É uma obra pequena — não mais de 40 páginas — dividida em pequenos textos, com premissas distintas e diretas. Baudelaire desmonta cedo a ideia do escritor inspirado, livre, sem regras. Para ele, escrever é trabalho, disciplina, insistência. O talento, sozinho, não chega. Sem método, transforma-se em ruído, frustração, desilusão. Em meros “momentos”… Há também um aviso constante contra a vaidade literária. O desejo de reconhecimento rápido, de aplauso, de validação externa surge como uma armadilha. Quando se escreve para agradar, a escrita perde densidade, verdade e… originalidade. Perde, sobretudo, a genialidade e a voz própria. Desconfia, assim, do elogio fácil. Das palavras meigas no início da “jornada”. Ninguém nasce escritor; tudo é barro a ser moldado. O livro é igualmente honesto quanto à relação entre literatura, dinheiro e sociedade. Escrever raramente traz conforto ou estabilidade. Não há garantias. Quem escolhe este caminho fá-lo, sobretudo, por necessidade interior, não por promessa de retorno e fama. Se o pensas fazer, escolhe outra carreira! Baudelaire insiste ainda na importância de ler bem antes de escrever. De reconhecer mestres, de absorver tradição, de compreender que a originalidade não nasce do vazio, mas do confronto atento com o que já foi escrito. Do estudo, da dedicação, do trabalho contínuo de aprendizagem, e não apenas de um impulso momentâneo. No fundo, este livro fala de lucidez. De aceitar a solidão, a demora, o conflito interior. De escrever com rigor e consciência, mesmo sabendo que a literatura pode não oferecer nada além de si própria. Não é um livro que acarinha, nem promete aplausos ou “coaching motivacional”. É um aviso sincero e irónico, de alguém que escreveu com uma consciência desarmante da bênção e da maldição de quem foi tocado pela escrita como forma de arte, de vida e de perdição. E que procura alertar quem deseja também o ser. Por isso, talvez seja tão importante lê-lo.

SOBRE O AUTOR

Charles Baudelaire

Baudelaire nasceu em Paris a 9 de abril de 1821, filho de François Baudelaire e da jovem Caroline. Após a morte do marido em 1827, esta desposou o comandante Aupick, mais tarde general e embaixador francês em Espanha, com quem Baudelaire cedo se incompatibilizaria. Ao atingir a maioridade reivindica a herança paterna, que irá desbaratar, consome ópio e haxixe (experiência que está na origem de Os Paraísos Artificiais, de 1860) e relaciona-se com a atriz Jeanne Duval. Conhecido principalmente pela sua poesia, Baudelaire também fez crítica literária e artística, ensaio, novelas e traduções, das quais se destaca uma parte substancial da obra de Edgar Alan Poe. Ficaram para as posteridade os seus livros O Pintor da Vida Moderna (1863), a obra póstuma O Spleen de Paris (1869) ou As Flores do Mal (1857), obra-prima da poesia moderna que escandalizou a sociedade francesa da época e condenou o autor ao banco dos réus. Com uma saúde já fragilizada pela sífilis, Baudelaire ficará paralisado após uma queda na igreja de St. Loup, acabando por morrer anos mais tarde, a 31 de agosto de 1867.

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