Os Vampiros
SYNOPSIS
Em 1972, na Guiné-Bissau, um grupo de comandos portugueses avança no mato com a missão de localizar uma base secreta no Senegal. Pelo caminho, à medida que vão perdendo os alicerces da sua própria humanidade, estes soldados enfrentam uma ameaça muito pior do que poderiam imaginar.
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Juan Cavia, o ilustrador virtuoso
Quando convidámos Juan Cavia a participar na edição de novembro da nossa revista literária, não imaginávamos que este criador, um dos maiores talentos da banda desenhada contemporânea editada em Portugal e no estrangeiro, nos presentearia com uma deslumbrante capa exclusiva e inédita, mas foi o que aconteceu, e não podíamos estar mais gratos e contentes com o resultado. Envolta numa brisa outonal com reminiscências do Oriente, Han Kang, Nobel da Literatura 2024, ganha vida numa ilustração que Juan Cavia criou, gentilmente, para a wookacontece. Se ainda não conhece este criador, está na hora de se encantar com a sua arte.
Juan Cavia nasceu em 1984 em Buenos Aires. Formado em realização cinematográfica, e versado em desenho e pintura, com apenas 21 anos iniciou o seu percurso como diretor de arte. Participou na criação de anúncios, séries televisivas, videoclipes e teatro e assumiu a direção de arte e a cenografia de dez longas-metragens, destacando-se O Segredo dos Seus Olhos, de J. Campanella (vencedor de um Óscar em 2010).
Paralelamente à direção de arte, Cavia é ilustrador de banda desenhada. Em parceria com o músico e realizador de cinema Filipe Melo, criou sete romances gráficos, publicados na Europa, América e Ásia. As suas obras, profusamente premiadas, têm um estilo único que reflete a química criativa fulgurante desta dupla, capaz de explorar e surpreender em diferentes géneros e atmosferas.
Um deleite sensorial que lhe apresentamos, livro a livro.
Juan Cavia, autoretrato
As Incríveis Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy (2010)
Com humor, horror e elementos sobrenaturais, este é o início de trilogia protagonizada por um lobisomem, um entregador de pizzas, um velho demónio e a cabeça de uma gárgula. A arte de Cavia complementa o tom leve e divertido de Melo e cria momentos de ação intensa. Em Apocalipse (2012), pragas de insectos, criaturas gigantes e hordas de demónios invadem a Terra, arrastando os heróis para uma aventura de proporções bíblicas. Por fim, em Requiém (2013), um velho inimigo vai infernizar a vida do detetive Dog Mendonça, numa épica história de amor, traição e aranhas gigantes. Apesar de as edições das histórias originais estarem esgotadas, os fãs de Cavia podem agora lê-las, a todas, compiladas num único volume, o livro As Aventuras Completas de Dog Mendonça e Pizzaboy.
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Os Vampiros (2016)
Em 1972, na Guiné-Bissau, um grupo de comandos portugueses avança no mato com a missão de localizar uma base secreta no Senegal. Pelo caminho, à medida que vão perdendo os alicerces da sua própria humanidade, estes soldados enfrentam uma ameaça muito pior do que poderiam imaginar.
Neste romance gráfico com uma história sombria e introspectiva sobre a Guerra Colonial Portuguesa, Cavia cria um ambiente visual realista, tenso e melancólico, explorando os horrores da guerra e as suas consequências psicológicas.
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Comer/Beber (2017)
Em plena II Guerra Mundial, Franz Majowski esconde uma garrafa de champanhe no seu restaurante em Berlim. Quarenta anos depois, na década de 1980, Lloyd Jenkins percorre o interior da América em busca de uma tarte de maçã. Duas histórias, uma real e outra imaginada entrelaçam-se e desenrolam-se a partir da certeza de que a comida e a bebida são sempre um bom pretexto para refletir sobre tudo o resto.
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Balada para Sophie (2020)
Esta obra belíssima e aclamada acompanha a vida do grande pianista Julien Dubois, agora reformado e solitário. A monotonia da sua solitária vida, numa grande mansão apenas com a governanta da casa e um gato por companhia, é abalada pela visita de uma jovem jornalista. A tenacidade desta leva a que o Julien acabe por aceitar abrir-se com ela, como nunca antes o tivera feito com ninguém. Entre a realidade e a fantasia, Julien compõe uma confissão complexa e comovente sobre o custo do sucesso, a rivalidade, a redenção e pianos voadores. Uma obra magistral, considerada a mais ambiciosa, íntima e comovente novela gráfica da dupla Cavia/Melo.
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Excerto de Balada para Sophie
Além dos trabalhos em parceria com Filipe Melo, Juan Cavia ilustra livros noutros géneros, conferindo uma leitura especial aos autores com que colabora. É o caso dos livros de crónicas de Bruno Nogueira, Aqui Dentro Faz Muito Barulho e, mais recentemente, Dores Crónicas, que ganham toda uma outra vida ao serem interpretados pela mão de Cavia. O mesmo se pode afirmar do romance de Chico Buarque, Leite Derramado, que podemos ler com outra luz, graças ao talento inigualável de Juan Cavia.
Que se passa na BD?
Parece caber de tudo lá dentro. Há narrativas muito díspares e a parte gráfica difere em igual medida. A banda desenhada é um mundo do tamanho do romance.
Há quem julgue que a banda desenhada é para crianças. E tem razão. É-o, mas é também para adultos. Sendo um género literário, tudo cabe lá dentro, desde A Turma da Mônica aos que vão ser citados aqui. Ultimamente, várias editoras em Portugal têm apostado neste género, criando uma legião de fãs, e aproximando gente de livros – gente que, muitas vezes, prefere este género a prosa, ou que simplesmente lê de tudo. A narrativa, claro, é diferente da do romance não-gráfico: aqui, desenho e texto competem pela atenção, com um a substituir-se ao outro nesta tirinha ou na outra.
Hitler
Do Japão, chega-nos Hitler, da autoria de Shigeru Mizuki. Num livro a preto e branco, neste livro que se lê de trás para a frente, da direita para a esquerda, e que acaba de chegar a Portugal (ainda cheira a papel novo), o autor japonês conta a história de Hitler, o que implica também contar a da Segunda Guerra Mundial. Ao longo da narrativa, as imagens impressionam: a preto e branco, mostrando-se judeus empilhados uns nos outros ou escondidos em sótãos ou à espera de gás. Tudo é violento, e tudo mostra o ódio insano pelo povo judeu: ao mostrá-lo, o autor mostra ainda as motivações nazis. Parte do início, do crescimento de Hitler, e vai pela sua ascensão a chanceler, pela batalha de Estalinegrado, pela relação com Eva Braun e, claro, pela guerra e a horrenda perseguição aos judeus. Contando a história de Hitler, com cenários altamente realistas e personagens mais embonecadas, não se conta a história de um só homem, antes a de um continente, antes a de grande parte de um século, das suas hordas de apoiantes e da herança que ficou não só para a Alemanha ou para a Europa, mas também para o resto do mundo – e, com essa herança, uma necessidade urgente de se estudar a História.
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Crónicas de Jerusalém
Com papel grosso e edição cuidada da Devir, Crónicas de Jerusalém, de Guy Delisle, surpreende logo de forma sensorial: o tato desperta só por se agarrar o livro. Numa narrativa autobiográfica, Delisle conta a história da sua ida para Jerusalém, onde se instalou com a família durante um ano. Tudo é carregado de sentido: logo no avião, o homem que lhe pega na filha tem uma sequência de algarismos tatuada no antebraço, por ter estado num campo de concentração. À medida que o autor descobre a cidade, o leitor vai com ele. Eis, de início, a sua surpresa: ruas esburacadas e sem passeios, carros mal estacionados, calor de doidos. E depois, em Jerusalém ocidental: passeios largos, caixotes do lixo que não estão a transbordar. Nessa zona, durante o Sabat, a cidade está transformada em cidade-fantasma. Noutra altura, e noutra parte, não passam despercebido os olhares sobre ele enquanto come uma maçã durante o Ramadão. Com perícia e leveza, Delisle encara um território politicamente denso, tanto dando pormenores, como lojas cristãs a vender cerveja e vinho e lojas muçulmanas sem álcool, como entra num universo de separação mais rígida, como quando refere o sistema de transporte urbano que funciona em paralelo: de um lado, os autocarros israelitas que servem toda a cidade exceto os bairros árabes; do outro, os miniautocarros árabes, que só servem esses bairros. Mais adiante, o autor mostra o muro de separação e os checkpoints, assim como israelitas que contestam as políticas do Estado de Israel. Tudo é contado com singular leveza, como quem descobre, e quase todos os quadrinhos têm texto.
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Spirou – A Esperança Nunca Morre
Do mesmo autor, e num estilo bem diferente, temos Spirou. São quatro volumes, e parece que tudo cabe lá dentro. Começamos no Inverno de 1940, em Bruxelas, frio como a neve. Às portas da guerra, Fantásio alista-se no exército belga, tendo a certeza de que França e Grã-Bretanha darão cabo do exército alemão. Já Spirou, o herói da história, é um paquete que vive de forma pacata. É ao conhecer Félix, um pintor judeu alemão, que ouve falar pela primeira vez da questão judia e que passa a começar a perceber a realidade internacional. No eclodir da guerra, Fantásio tenta cumprir o seu papel e Spirou tenta perceber a vida através de encontros com pessoas diferentes, como crianças cujo pai está na guerra e a mãe morreu no bombardeamento de Louvain, que lhe vão abrindo os olhos para o mundo. Assiste-se, por isso, à realidade como perda da inocência. Escrevendo a história nestes dois planos, mostrando estas duas personagens, Émile Bravo deu ao público uma imagem panorâmica do que se passava na Europa naqueles tempos tenebrosos. O desenho é simples, as páginas estão pejadas de cor, e há muito texto, muito diálogo.
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Vampiros
Vampiros, de Filipe Melo e Juan Cavia, arrebata desde a primeira página. E páginas inteiras sem texto estão pejadas de sentido. Quem abre o livro dá por si em 1972, caído na Guiné-Bissau, metido entre um grupo de comandos portugueses. No meio do mato, avançam em busca de uma base secreta no Senegal. Com pouco texto e muita imagem, vemos a vida acontecer num cenário extremo, e muitas vezes a vida a terminar sem complacência e sem hesitação. A guerra passa sempre por desumanizar o outro, e em vários momentos acompanhamos o grupo, entre conversas de circunstância para preencher as noites ou noutras que, sob o sol inclemente, são interrompidas com uma granada a rebentar no chão. Em termos gráficos, convém acrescentar que Vampiros é um banquete, e que a mão de Juan Cavia surpreende não a cada página, mas a cada quadrinho.
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Lucky Luke: um cowboy sobre pressão
E terminamos com este clássico, de origem franco-belga e ambientada no Velho Oeste norte-americano, que continua atual: afinal, os volumes continuam a sair, e este acabou de chegar às livrarias. O cowboy que dispara mais rápido do que a própria sombra é chamado para resolver um problema que parece pertencer à ficção (e pertence): devido a uma greve geral, há escassez... de cerveja. Lá se dirige Lucky Luke a Milwaukee, onde dezenas de fábricas produzem milhões de litros por ano, que dali vão para saloons de todo o país, tentando encontrar um acordo entre os sindicalistas marxistas e os barões industriais. Mas Lucky depressa aprende que, comparadas aos conflitos entre sindicatos, as guerras índias são um passeio no parque.
Assim que se vira para os trabalhadores, eles tomam-no como um aliado dos patrões, um infiltrado na greve. Enfim, é agredido, agride de volta, chega a polícia e o cowboy acaba preso. O resto é melhor ler-se no livro, mas fica a consideração: com uma narrativa energética e divertida, não espanta que Lucky Luke, que nasceu em 1948, continue a viver, a nascer e a ser lido.
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A Minha Mamã está na América e Encontrou o Buffalo Bill
Comecemos por um livro que é horrível e magnífico. Ao lê-lo, não fica claro se é horrível por ser magnífico ou se é magnífico por ser horrível. O que não dá para ignorar é que se começa com um trago amargo na boca e se termina de coração partido. A A Minha Mamã está na América e Encontrou o Buffalo Bill é livro que dá para miúdos e adultos, e que a ambos deve perturbar da mesma forma. No centro, está um rapaz – dois rapazes, mas incide-se mais num – que perderam a mãe. Ao longo do livro, o miúdo – pequeno demais para ficar sem mão de mãe – não sabe da mãe, nem sabe bem se se lembra dela. Vamos, por isso, assistindo à sua ausência – e à sua indagação do seu paradeiro. É que ninguém lhe conta o que aconteceu, e ele cogita-lhe os destinos, ajudado pela vizinha que lhe escreve postais em nome da mãe, mantendo-lhe a chama acesa. Em vez de morta, a mãe é uma espécie de aventureira, entre a neve da Suíça ou no meio da floresta com o Buffalo Bill. O traço é simples, a história também – e o livro não precisa de mais para ir aos calos.
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Blankets
Blankets é uma beleza. Não é belo qualquer primeiro amor? Basta a capa, com o traço de Craiga Thomson, para ficarmos apanhados. A partir daí, abrir o livro é como cair numa vertigem. Os desenhos obrigam a ver, não se oferecem num olhar de soslaio: em vez disso, o leitor tem um papel de procurar e de absorver o sentido. Aos poucos, Thomson vai mostrando a sua infância, com o que tinha de terno ou violento ou costumeiro. E a partir daí entramos na vida adulta, sempre com o passado a fazer de sino que toca ao ouvido, uma memória que não larga e constitui. O traço é simples, e também isso garante a beleza. Logo nas primeiras cenas, com dois irmãos a partilhar cama, ora suando de calor, ora tremendo de frio sob um cobertor que, colado à janela, já tinha as pontas congeladas, entende-se que se abre um livro que é pejado de emoção. O livro é essa força bruta, transitando entre a ternura e a crueldade, mostrando a vida sem pó de arroz e mostrando a família como o território literário mais rico e mais forte de todos. Por muito que se possa associar a banda desenhada a super-heróis, são os pequenos traços do quotidiano que fazem as grandes obras, que são as que perduram.
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DETAILS
| Property | Description |
|---|---|
| ISBN: | 9789897844355 |
| Publisher: | Companhia das Letras |
| Release Date: | November of 2021 |
| Language: | Portuguese |
| Dimensions: | 171 x 248 x 19 mm |
| Cover: | Hardcover |
| Pages: | 248 |
| Format: | Book |
| Categories: |
Books in Portuguese
>
Graphic Novels & Manga
>
Graphic Novel
|
| EAN: | 9789897844355 |
REVIEWS
Apaixonante
Viviane Veiga
Uma história bem imaginada, num período bem real da nossa história, com ilustrações fantásticas. Uma leitura que nos prende da primeira à última página.
Guerra com vampiros!
Pedro Quintas
Uma guerra diferente mas apaixonante e devora-se num ápice. Recomendo!
Uma história interessante e que faz pensar
Pedro Cravo
A forma como os soldados portugueses lidam com as situações que vão vivendo faz-nos refletir sobre aspetos da humanidade sobre os quais não pensamos habitualmente. Graficamente a obra não desilude, principalmente a quem já conhece os outros livros desta dupla de autores. Mas um bom grafismo não vale muito se não houver uma boa história; e neste caso essa é mesmo o ponto forte, pelo menos no seu final. Ainda assim, pelo meio há alturas em que a história se torna um pouco confusa. Mas vale a pena ler, de qualquer das formas.
Mais uma obra irrepreensível de Filipe Melo de Juan Cavia
tf
Mais uma obra irrepreensível de Filipe Melo de Juan Cavia, artisticamente relevante e intelectualmente estimulante.
Não desilude
Edgar Costa
Depois de ler A balada de Sophie e Comer / Beber (e de ser um fã do trabalho desta dupla), decidi experimentar Os Vampiros. Não desilude. O desenho de Cavia junto ao argumento de Melo complementam se de uma forma orgânica. Este é um livro que se lê bem, mesmo abordando uma temática complexa.
Arte extraordinária
Fátima Linhares
Depois de ter lido e adorado o outro livro desta dupla fantástica, Balada para Sophie, as expectativas estavam altas. Gostei muito da arte, maravilhosa, já a história não me encantou. Contudo, é de louvar literatura que aborda a Guerra Colonial, um período da história que ainda hoje deixa marcas em quem o viveu.
Os Vampiros
Nuno Gonçalves
Grande qualidade no desenho e história intensa. Não comecei por este livro, mas é mais um desta dupla incrível. Estou impressionado e preso a cada história que folheio.
Excelente
RitaP.
Não era muito conhecedora de artistas de banda-desenhada portugueses mas depois de ter encontrado 'Balada para Sophie' ... wow Recomendo imenso todos os títulos destes artistas, especialmente para quem gosta de historias com temas um pouco mais 'históricos' mas com uma boa pitada de ficção e fantasia como o caso de 'Os Vampiros'.
Irrepreensível
Miguel A.
Com a guerra colonial como ponto de partida, Filipe Melo e Juan Cavia desenvolvem uma história crua, forte e com personagens verosímeis — tudo num livro com uma qualidade gráfica e literária à qual os autores já nos habituaram.
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