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No Comboio Ascendente

Contos e contas pendentes

by Maria do Vale Cartaxo
Publisher: Edições Colibri, November of 2018 ‧
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No início era só esperança sumarenta, balbucios, perdigotos, risinhos, e a família encantada. De começo gatinhamos, a seguir caminhamos titubeantes em hesitantes passinhos trémulos após cambalearmos, depois andamos firmes, ora já avançamos rápidos, corremos e até saltamos, para logo adiante tropeçarmos e em breve encalharmos, e aí claudicamos: então a visão desfoca-se, a audição reduz-se, um músculo atrofia, um ombro dói, um braço magoa, um cotovelo emperra, as costas vergam, um joelho estala, uma perna encrava, um artelho trava, um pé resiste, uma mão desiste, um dente quebra, o cabelo encanece, a grenha escasseia, o pescoço afrouxa, o peito descai, o estômago dilata, a barriga lassa, a anca desmonta, a nádega amolece, o traseiro fenece, o tornozelo engrossa, a pele encarquilha, o rosto enruga, a digestão reluta, o fôlego encurta, a circulação escangalha, o coração destrambelha, a energia abranda e, após um outro cambaleio, novamente titubeamos em hesitantes passinhos trémulos, já que o corpo definha... e a memória enfraquece, o entendimento elanguesce, o raciocínio esmorece e a esperança desvanece.
... - Todavia, no futuro que nos está aqui tão perto, entre o raiar da alvorada e o tombar do ocaso, há um dia inteiro pela frente, e só ele importa: o que dele fazemos e até onde o levamos, como o iremos prolongar até ao seu limite, até ao último raio do sol poente...

"- ... para mim você é a Xerazade, e hoje eu não preciso de outro nome. Amanhã, veremos. Ainda que eu esteja bem longe de ser o Xariar, aquele sultão cruel e misógino, com a desculpa de ter sido traído - e já reparou que os misóginos sempre tentam arranjar uma desculpa para odiarem mulheres? E nunca, por nunca ser, se atrevem a perguntar-se por que teriam sido traídos. Mas comigo, você pode ser a Xerazade à vontade e sem quaisquer receios, pois nunca correria o risco - como a das "Mil e Uma Noites" - de ver cumprida a sentença de morte ao amanhecer.
- Esperemos bem que não. Porém, durante estas longas horas de viagem (do Algarve ao Porto) totalmente ociosas, arriscávamo-nos ambos à abjeta e mesquinha morte quotidiana que é o tédio (outra forma da "apagada e vil tristeza" camoneana), que reduz a nossa humanidade e nos aniquila a alma. Para não soçobrarmos à monotonia de várias horas sem nada que fazer e ao enfado daí resultante, essa chateza - uma mortezinha lenta, insípida e insonsa, pindérica e sem dignidade - é que eu me dispus a contar estórias para nos entretermos."

No Comboio Ascendente

Contos e contas pendentes

by Maria do Vale Cartaxo

Property Description
ISBN: 9789896898038
Publisher: Edições Colibri
Release Date: November of 2018
Language: Portuguese
Dimensions: 162 x 226 mm
Cover: Softcover
Pages: 284
Format: Book
Categories: Books in Portuguese > Fiction > Short stories
EAN: 9789896898038

ABOUT THE AUTHOR

Maria do Vale Cartaxo

Maria do Vale Cartaxo, nascida em Portimão, menina e moça partiu de casa de seus pais para estudar no liceu de Faro e na universidade de Lisboa, e logo sentiu o anseio de sair do lar pátrio e ir mais longe – não se contentando com pouco, deu a volta ao mundo e navegou pelos oceanos Atlântico, Índico, Pacífico e outros mares.

Fazendo toda a rota marítima dos antepassados descobridores, contornou o continente africano pelo Cabo da Boa Esperança, com paragens no Senegal, África do Sul e Quénia, aportou em Bombaim, ancorou no Ceilão, arribou em Malaca, navegou até Macau, viajou por Taiwan e desembarcou em Nagasaki, no Japão.

Sobre duas rodas, cavalgando uma mota com o seu marido Christopher Gosden, um inglês também sedento de aventura, percorreu milhares de quilómetros desde Singapura, através da Malásia e da Tailândia, até ao Laos e Camboja. Posteriormente, viveram e viajaram por terra durante um ano e meio, numa pequena caravana pão de forma VW, por todo o continente americano, desde o Canadá ao Chile, cruzaram a Argentina e fixaram-se no Brasil.

Para lá de todos os lugares que conheceu em quatro continentes, dos Alpes aos Andes, dos glaciares canadianos ao deserto de Atacama e à floresta amazónica, a autora morou em Salzburg, Colombo, Bangkok, Hong Kong, Tóquio, Porto Alegre e Rio de Janeiro, onde trabalhou em missões diplomáticas, empresas multinacionais, escolas e como tradutora free-lancer.

Depois de regressar à sua terra, passou a residir perto de Alvor, com vista para o mar que tanto ama.
Foi a primeira agraciada com o Prémio Manuel Teixeira Gomes, instituído pela Câmara de Portimão, em 1999, com o conto A viagem e depois disso foi também premiada em 2002 com a novela O legado de Mrs. Baker e, em 2006, com o conto O sétimo dia.

Publicou ainda os romances Três diários de bordo em rota de naufrágio, em 2003, e O dia não, em 2008.

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