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Bambino a Roma

by Chico Buarque
Book eBook
Publisher: Companhia das Letras, September of 2024 ‧
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Via San Marino, 12: no rés do chão de um pequeno prédio amarelo, um menino traça caminhos no mapa-múndi que cobre a parede do seu quarto. As náuseas que sentiu durante a viagem de barco entre o Brasil e Itália ficaram para trás, e o desejo de traçar novas rotas cartográficas é deslocado para as ruas de uma cidade inteira por descobrir.
Pela mão de Chico Buarque, somos levados num périplo por uma Roma que já não existe e talvez não tenha existido, a cidade que o recebeu quando, aos seus nove anos, a família se mudou para lá. Vivemos com o autor a aventura de todas as reminiscências do fim da infância: as partidas de futebol com Amadeo, o filho do merceeiro; as saudades do feijão com arroz; as escapadelas da escola; as primeiras erupções do desejo; a paixão juvenil por Sandy L., alimentada por cartas e bilhetes românticos.
Montado na sua bicicleta niquelada, Chico Buarque ziguezagueia pelas ruas da Cidade Eterna num equilíbrio delicado e irresistível entre memória e imaginação, compondo uma narrativa sedutora e comovente, que abre as portas ao passado e a todos os mundos possíveis. Bambino a Roma é uma deliciosa aguarela de lugares, recordações e sonhos.

"Nome maior da música popular brasileira, Chico Buarque dispensa apresentações. Depois de ter recebido o Prémio Camões em 2019, e de, em 2021, ter publicado o livro de contos Anos de Chumbo, o autor regressa à prosa. Bambino a Roma, entre a realidade e a ficção, recupera as memórias do menino que aos nove anos atravessou o Atlântico com a família, trocando o Brasil pela Itália.
Logo nos primeiros capítulos, o autor recupera o mote de um dos irmãos: «Porque no estrangeiro tudo é estranho» para concluir, de forma perspicaz, mais adiante, que «no estrangeiro os estranhos erámos nós». Ora, é precisamente a partir deste «estranhamento», essencial a toda a literatura, que Chico Buarque traça o mapa imaginário e afetivo do fim da infância e do início da adolescência.
Com ele partimos do pequeno prédio amarelo - Via San Marino, n.º 12 - montados na bicicleta niquelada com pneus brancos, e percorremos as ruas de Roma enquanto conhecemos Amadeo, o filho do merceeiro, os colegas da Notre Dame International School - todos com nomes deliciosamente americanos como Sam, Jim, Bob ou e Joe -, ou Sandy L., para quem o autor escreveu os seus primeiros poemas e até, reza a história, o seu primeiro romance. A par de tudo isto, há as fugas da escola, os jogos de futebol, as manchetes dos jornais, as idas ao cinema, as leituras de Emilio Salgari e a descoberta do desejo.
Bambino a Roma é, ao mesmo tempo, uma viagem ao domínio da infância e uma lembrança, ora ternurenta ora mordaz, de um tempo que não volta mais."

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O Regresso à Memória

A memória é um campo minado. Quando tentamos recordar um acontecimento do passado, somos confrontados com lacunas, distorções e reconstruções. O que guardamos na lembrança não é um reflexo exato da realidade, mas uma versão moldada pelo tempo, pelas emoções e pelas narrativas que criamos. Lembrar pode ser um ato de resistência ou uma armadilha que nos aprisiona em versões imprecisas de quem fomos. A literatura explora este conceito de muitas formas, fazendo da memória um motor narrativo poderoso, abordado sob diferentes perspetivas e com diversas intenções. O Caderno Proibido, de Alba de Céspedes Em O Caderno Proibido, de Alba de Céspedes, a memória surge como um território de culpa e de desejo. Valeria, uma mulher de meia-idade, casada e com dois filhos adultos, compra um caderno em segredo e, à medida que escreve, desenterra recordações e emoções que a rotina insistiu em calar. Inicialmente, a escrita é um espaço privado e libertador, mas, a cada entrada, aquele caderno transforma-se num espelho negro que reflete desejos reprimidos e escolhas sufocadas, assimiladas como inevitáveis. O passado invade aos poucos o presente de Valeria, tornando-se uma força inescapável que a faz sentir-se cada vez mais encurralada na sua realidade familiar e numa sociedade que oprime as mulheres. Neste romance, a memória não é um simples arquivo do passado, mas uma presença inquietante que expõe tudo o que foi silenciado. QUERO LER! » Trilogia de Copenhaga, de Tove Ditlevsen Tove Ditlevsen, na sua profundamente autobiográfica Trilogia de Copenhaga, procura, tal como Valeria, dar um sentido à sua realidade através da escrita.
Acompanhamos o seu percurso desde a infância, marcada por uma educação austera e negligente, até à idade adulta, dominada pela luta contra a dependência de drogas e pela tentativa de se afirmar num mundo literário vedado às mulheres. Neste caminho doloroso, Tove transforma as suas memórias em matéria literária e usa-as como forma de se reinventar. Ao contrário de Valeria, que escreve às escondidas e se sente atormentada pelas verdades que descobre sobre si mesma, Tove escolhe expor ao mundo as suas maiores fragilidades, traumas e desilusões, encarando a literatura como um ato de autodescoberta e sobrevivência. QUERO LER! » Stoner , de John Williams William Stoner, protagonista de Stoner, de John Williams, é um personagem que encapsula na perfeição a imagem da memória como espaço de resignação, aceitação e resistência. Jovem de origens humildes, William ingressa na universidade para estudar agricultura, mas descobre na literatura uma vocação inesperada. A partir daí, acompanhamos a sua trajetória enquanto professor universitário, marcada por um casamento infeliz, dificuldades profissionais e uma paixão tardia. Stoner não se ilude com a possibilidade de reescrever o passado ou de amenizar o impacto das suas escolhas. Em vez disso, observa a sua história com uma passividade letárgica. As suas memórias não são inquietantes como as de Valeria, pesam sobre ele como um inventário de fracassos e oportunidades perdidas que ele aceita com serenidade. Ao longo do romance, acompanhamos a caminhada de um homem que, desde a juventude até ao último fôlego, recorda a sua existência com uma lucidez quase cruel, apercebendo-se de que a sua vida, ainda que sem grandes feitos, foi genuína dentro das suas limitações. QUERO LER! » Leite Derramado, de Chico Buarque Em 1987, Chico Buarque escreveu a música O Velho Francisco, que retrata um homem idoso, quase centenário, à espera da morte numa cama de hospital. Na canção, Francisco reflete sobre a sua vida, alternando entre o passado e o presente, muitas vezes confundindo factos e misturando a realidade com a ficção. Vinte e dois anos depois de escrever aquela letra, Chico Buarque decidiu transformar a vida de Francisco num romance, dando origem a Leite Derramado. No livro, a história de Francisco é recontada através de Eulálio d’Assumpção, um personagem que se torna o seu duplo, com uma memória marcada pela degradação da velhice e pela falsificação do passado. Ao longo da narrativa, Eulálio manipula as suas lembranças e reinventa factos, dando-lhes um tom que muitas vezes se aproxima do fantástico e do exagero, fruto de construções instáveis baseadas naquilo que ele considera ter sido a sua vida. Na música, o velho Francisco diz a certa altura: «Acho que fui deputado/ Acho que tudo acabou/ Quase que já não me lembro de nada/ Vida veio e me levou», e essa ideia é transposta para o romance. Num relato errático e muitas vezes contraditório, temos em Leite Derramado um exemplo claro de como a memória pode ser um artifício traiçoeiro, que tanto apaga como reconstrói. QUERO LER! » Remanescente, de Tom McCarthy Todos estes livros refletem sobre a memória, e em todos eles vemos personagens num confronto maior ou menor com o seu passado, mas nenhum leva essa reflexão ao extremo como faz Tom McCarthy em Remanescente. O protagonista da história, um homem sem nome que sofre um acidente aparatoso que lhe rouba grande parte da memória, decide usar todos os meios ao seu dispor para reconstituir, com minúcia e obsessão, fragmentos do seu passado perdido. Envolvidos por uma escrita intencionalmente desprovida de emoção, chegamos à conclusão de que lutar pelo resgate da memória como algo fidedigno e verdadeiro é uma tarefa, à partida, gorada. Um passado recriado nunca será, de facto, o passado. O herói de Remanescente transforma-se ao longo da narrativa numa espécie de autómato que, ao empreender uma busca implacável pela ideia de autenticidade do passado, deixa de confiar na realidade e prefere, em vez disso, abraçar o simulacro que ele próprio cria. QUERO LER! » Seja a fugir da memória ou a confrontá-la, é inegável que o nosso passado é uma fusão delicada entre o que aconteceu e o que apreendemos do que aconteceu. O passado não é uma entidade fixa, mas uma construção em constante devir, uma sombra que nos persegue e que nunca conseguimos alcançar na sua totalidade. O passado é como um animal grotesco que nos devora lentamente, absorvendo tudo à sua volta e deixando-nos apenas com os fragmentos distorcidos de uma história que, por mais que tentemos recuperar, jamais será inteiramente nossa.

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Infância, adolescência e juventude

Há quem veja a infância como um paraíso perdido e a juventude como o seu contrário: uma batalha pela emancipação. Entre uma e outra, a adolescência aparece como um território turbulento, feito de excessos e de deslocamentos. Mas se a vida adulta nos convida a olhar para trás, percebemos que estas idades não se esgotam nos calendários da escola ou nos rituais de passagem social: continuam a reverberar, subterrâneas, ao longo da vida. Um adulto nunca deixa de ser criança, adolescente e jovem; apenas aprende a disfarçar ou a negociar com estas vozes. A literatura, com a sua capacidade de suspender o tempo, tem sido um dos lugares privilegiados para pensar nestas passagens: a beleza e o trauma, a promessa e a perda.
Quatro livros, de épocas e geografias distintas, mostram-nos isso com intensidade particular: Bambino a Roma, de Chico Buarque; Sempre Estrangeira, de Claudia Durastanti; Infância, Adolescência e Juventude, de Lev Tolstói; e Retrato do Artista Enquanto Jovem, de James Joyce. Cada um encena, à sua maneira, a perplexidade de crescer. Bambino a Roma, de Chico Buarque Bambino a Roma é uma lembrança, mas é também um exercício de tradução. Chico Buarque recupera o menino que foi em Roma, filho de Sérgio Buarque de Holanda, num tempo em que a cidade era, para ele, tanto casa como estranheza. A infância surge aqui como uma geografia instável: a criança oscila entre línguas (português e italiano), entre espaços (a casa e a rua), entre papéis (filho de diplomata, mas também apenas um menino curioso). O olhar infantil atravessa a cidade não como turista nem como habitante, mas como alguém que ainda não tem as palavras para nomear o mundo.
O mais interessante é que este olhar não é inocente: a criança sente-se estrangeira no quotidiano. Roma aparece não como cenário monumental, mas como um território de pequenos absurdos, de sons, de gestos que não se entendem. O estrangeiro não é apenas o brasileiro em Roma, mas a própria condição da infância: todos somos estrangeiros na vida quando a estamos a aprender pela primeira vez.
Ao escrever, Chico reconhece que a infância só existe como memória narrada. O livro mostra essa duplicidade: é um adulto que recorda e inventa, e ao fazê-lo percebe que a infância nunca pode ser recuperada em estado puro. Só podemos narrá-la como estrangeiros de nós mesmos. A lição do livro é subtil: a infância não é apenas um tempo que passa, é uma língua que continuamos a tentar traduzir. COMPRO NA WOOK! »

Bambino a Roma

by Chico Buarque

Property Description
ISBN: 9789895832477
Publisher: Companhia das Letras
Release Date: September of 2024
Language: Portuguese
Dimensions: 147 x 231 x 15 mm
Cover: Softcover
Pages: 176
Format: Book
Categories: Books in Portuguese > Fiction > Romance
EAN: 9789895832477

Memórias... ou talvez não

Ana Geração

Este livro de Chico Buarque reporta-se à época em que viveu em Roma, então com 9 anos e reflete o estado de espírito de um miúdo brasileiro que se vê na Europa pós-guerra, com as diferenças que se podem pensar . Contudo isto não é um diário, mais um retornar de lembranças, que podem ser verdadeiras ou não, por não haver nada que tenha sido escrito na época. Assim, temos um fim de infância e início de adolescência, de uma época já distante, algo "colorida", mas muito bem escrita, e que nos cria um sentimento de bem estar.

ABOUT THE AUTHOR

Chico Buarque

Francisco Buarque de Hollanda, mais conhecido como Chico Buarque, nasceu no Rio de Janeiro em 1944. Compositor, cantor e ficcionista, é um dos mais célebres e admirados artistas de língua portuguesa.

Publicou várias peças de teatro, entre as quais a Ópera do Malandro, e uma novela antes de se estrear no romance, em 1991, com Estorvo, pelo qual recebeu o Prémio Jabuti. Seguiram-se Benjamim (1995), Budapeste (2003) e Leite Derramado (2009), estes últimos distinguidos com o Prémio Jabuti para melhor romance do ano. Seguiram-se os romances O Irmão Alemão (2014) e Essa gente (2019).

Todos os seus romances estão publicados em Portugal pela Companhia das Letras, assim como Tantas Palavras, um livro que reúne todas as suas letras acompanhadas por um retrato biográfico escrito por Humberto Werneck. Em 2019 Chico Buarque viu a sua obra literária reconhecida pelo Prémio Camões, a mais alta distinção para autores de língua portuguesa.

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