Infância, adolescência e juventude
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26 de agosto de 2025
Há quem veja a infância como um paraíso perdido e a juventude como o seu contrário: uma batalha pela emancipação. Entre uma e outra, a adolescência aparece como um território turbulento, feito de excessos e de deslocamentos. Mas se a vida adulta nos convida a olhar para trás, percebemos que estas idades não se esgotam nos calendários da escola ou nos rituais de passagem social: continuam a reverberar, subterrâneas, ao longo da vida. Um adulto nunca deixa de ser criança, adolescente e jovem; apenas aprende a disfarçar ou a negociar com estas vozes. A literatura, com a sua capacidade de suspender o tempo, tem sido um dos lugares privilegiados para pensar nestas passagens: a beleza e o trauma, a promessa e a perda.
Quatro livros, de épocas e geografias distintas, mostram-nos isso com intensidade particular: Bambino a Roma, de Chico Buarque; Sempre Estrangeira, de Claudia Durastanti; Infância, Adolescência e Juventude, de Lev Tolstói; e Retrato do Artista Enquanto Jovem, de James Joyce. Cada um encena, à sua maneira, a perplexidade de crescer.
Quatro livros, de épocas e geografias distintas, mostram-nos isso com intensidade particular: Bambino a Roma, de Chico Buarque; Sempre Estrangeira, de Claudia Durastanti; Infância, Adolescência e Juventude, de Lev Tolstói; e Retrato do Artista Enquanto Jovem, de James Joyce. Cada um encena, à sua maneira, a perplexidade de crescer.
Bambino a Roma, de Chico Buarque
Bambino a Roma é uma lembrança, mas é também um exercício de tradução. Chico Buarque recupera o menino que foi em Roma, filho de Sérgio Buarque de Holanda, num tempo em que a cidade era, para ele, tanto casa como estranheza. A infância surge aqui como uma geografia instável: a criança oscila entre línguas (português e italiano), entre espaços (a casa e a rua), entre papéis (filho de diplomata, mas também apenas um menino curioso). O olhar infantil atravessa a cidade não como turista nem como habitante, mas como alguém que ainda não tem as palavras para nomear o mundo.
O mais interessante é que este olhar não é inocente: a criança sente-se estrangeira no quotidiano. Roma aparece não como cenário monumental, mas como um território de pequenos absurdos, de sons, de gestos que não se entendem. O estrangeiro não é apenas o brasileiro em Roma, mas a própria condição da infância: todos somos estrangeiros na vida quando a estamos a aprender pela primeira vez.
Ao escrever, Chico reconhece que a infância só existe como memória narrada. O livro mostra essa duplicidade: é um adulto que recorda e inventa, e ao fazê-lo percebe que a infância nunca pode ser recuperada em estado puro. Só podemos narrá-la como estrangeiros de nós mesmos. A lição do livro é subtil: a infância não é apenas um tempo que passa, é uma língua que continuamos a tentar traduzir.
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O mais interessante é que este olhar não é inocente: a criança sente-se estrangeira no quotidiano. Roma aparece não como cenário monumental, mas como um território de pequenos absurdos, de sons, de gestos que não se entendem. O estrangeiro não é apenas o brasileiro em Roma, mas a própria condição da infância: todos somos estrangeiros na vida quando a estamos a aprender pela primeira vez.
Ao escrever, Chico reconhece que a infância só existe como memória narrada. O livro mostra essa duplicidade: é um adulto que recorda e inventa, e ao fazê-lo percebe que a infância nunca pode ser recuperada em estado puro. Só podemos narrá-la como estrangeiros de nós mesmos. A lição do livro é subtil: a infância não é apenas um tempo que passa, é uma língua que continuamos a tentar traduzir.
Sempre Estrangeira, de Claudia Durastanti
Se Chico escreve sobre a infância estrangeira, Claudia Durastanti escreve sobre a adolescência como experiência radical de deslocamento. Filha de pais surdos, cresceu entre países diferentes, dividida entre Itália, Inglaterra e Estados Unidos. A sua escrita é marcada pela impossibilidade de ter uma língua única, uma pátria estável, uma identidade fixa. A adolescência surge, neste livro, como uma idade da tradução: traduzir os gestos dos pais, traduzir culturas, traduzir o próprio corpo em transformação.
O que Durastanti revela é que ser adolescente é viver em permanente migração. Não apenas geográfica, mas existencial: a cada dia o corpo muda, as amizades desfazem-se e refazem-se, a relação com a família oscila entre amor e estranhamento. O adolescente é sempre estrangeiro, mesmo dentro da sua própria casa, mesmo dentro da sua própria pele. O livro torna visível essa condição, mostrando como a adolescência é uma forma de estar no mundo que nunca desaparece por completo.
Há uma honestidade brutal na forma como Durastanti escreve: sem romantizar a adolescência, mas também sem a reduzir a um período de confusão. A sua narrativa sugere que a condição de “estrangeira” pode ser também uma força, um motor de criatividade. A adolescência, com todas as suas fraturas, torna-se aqui o lugar de onde nasce uma escritora: uma identidade que não se fixa, mas que encontra na escrita a sua casa provisória.
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O que Durastanti revela é que ser adolescente é viver em permanente migração. Não apenas geográfica, mas existencial: a cada dia o corpo muda, as amizades desfazem-se e refazem-se, a relação com a família oscila entre amor e estranhamento. O adolescente é sempre estrangeiro, mesmo dentro da sua própria casa, mesmo dentro da sua própria pele. O livro torna visível essa condição, mostrando como a adolescência é uma forma de estar no mundo que nunca desaparece por completo.
Há uma honestidade brutal na forma como Durastanti escreve: sem romantizar a adolescência, mas também sem a reduzir a um período de confusão. A sua narrativa sugere que a condição de “estrangeira” pode ser também uma força, um motor de criatividade. A adolescência, com todas as suas fraturas, torna-se aqui o lugar de onde nasce uma escritora: uma identidade que não se fixa, mas que encontra na escrita a sua casa provisória.
Infância, Adolescência e Juventude, de Lev Tolstói
Tolstói aborda estas três idades com a precisão e a seriedade que marcarão toda a sua obra posterior. O protagonista, Nikolai, é um alter ego do autor, mas mais do que autobiografia encontramos aqui uma verdadeira arqueologia da alma. Tolstói mostra que crescer é mais do que avançar no tempo: é também ser moldado por pequenas experiências, aparentemente banais, mas que deixam marcas profundas.
A infância, no seio da aristocracia russa, aparece entre privilégios e rituais, mas também entre dúvidas, medos e o primeiro contacto com a morte. A adolescência é retratada como um tempo de vergonha, de confrontos interiores, de desejo e recusa, de instabilidade moral. Já a juventude é uma promessa de emancipação, mas ainda cercada pela sombra da família e pelas convenções sociais. Tolstói escreve sobre a vergonha de uma derrota escolar, a súbita descoberta da beleza, a consciência do próprio egoísmo.
O que faz desta trilogia uma obra única é a sua universalidade. Mesmo inserido na Rússia do século XIX, o texto toca experiências que qualquer leitor reconhece. Tolstói mostra como todos carregamos, na vida adulta, esse arquivo invisível da infância e da juventude. Cada gesto atual é eco de gestos antigos, cada escolha moral é sombra de escolhas primeiras. Ao ler Tolstói, percebemos que a formação não termina: continuamos a ser moldados pelo que fomos.
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A infância, no seio da aristocracia russa, aparece entre privilégios e rituais, mas também entre dúvidas, medos e o primeiro contacto com a morte. A adolescência é retratada como um tempo de vergonha, de confrontos interiores, de desejo e recusa, de instabilidade moral. Já a juventude é uma promessa de emancipação, mas ainda cercada pela sombra da família e pelas convenções sociais. Tolstói escreve sobre a vergonha de uma derrota escolar, a súbita descoberta da beleza, a consciência do próprio egoísmo.
O que faz desta trilogia uma obra única é a sua universalidade. Mesmo inserido na Rússia do século XIX, o texto toca experiências que qualquer leitor reconhece. Tolstói mostra como todos carregamos, na vida adulta, esse arquivo invisível da infância e da juventude. Cada gesto atual é eco de gestos antigos, cada escolha moral é sombra de escolhas primeiras. Ao ler Tolstói, percebemos que a formação não termina: continuamos a ser moldados pelo que fomos.
Retrato do Artista Enquanto Jovem, de James Joyce
Entre os chamados “romances de formação”, poucos têm a força disruptiva do Retrato do Artista Enquanto Jovem. O livro de James Joyce inscreve-se na tradição do Bildungsroman, género que narra a passagem da juventude para a vida adulta, mas só para a subverter por dentro. Se em Goethe ou Tolstói a formação implica integração, em Joyce ela é sinónimo de cisão, de desterro. Stephen Dedalus não procura adaptar-se ao mundo: procura libertar-se dele. A sua juventude é descrita como combate contra as instituições que moldam o indivíduo: a Igreja, a família, a pátria – e a escrita é o território dessa luta.
Desde as primeiras páginas acompanhamos Stephen na infância, onde a linguagem ainda é fragmentária, feita de ecos sonoros, de rimas e de imagens soltas. Essa forma não é mero ornamento estilístico: é uma tentativa de recriar a própria consciência infantil, ainda sem coesão. À medida que Stephen cresce, a linguagem também amadurece: torna-se mais complexa, mais sintática, até alcançar, no final, uma espécie de manifesto estético em prosa. O romance é, portanto, a narrativa da formação de uma linguagem literária, e nesse sentido é também a juventude de Joyce enquanto escritor.
A juventude, em Joyce, não é um tempo dourado nem uma preparação tranquila para a maturidade. É uma travessia dolorosa, marcada pela culpa religiosa, pelas tentações do desejo, pela violência da disciplina escolar e pela exigência de obediência à tradição irlandesa. Stephen sente-se esmagado por cada uma dessas forças, mas é precisamente nesse esmagamento que encontra a urgência de se afirmar. A figura do artista nasce, aqui, como alguém que decide não pertencer.
O gesto de Joyce é duplo: mostra-nos o preço da liberdade e, ao mesmo tempo, inscreve na literatura moderna uma nova forma de juventude. O jovem artista não é o herói que se integra, mas o sujeito que rompe, que recusa, que aceita a solidão como condição para criar. Retrato do Artista Enquanto Jovem inaugura, assim, um modelo que atravessará o século XX: o da juventude como insubmissão, como invenção de si contra os poderes instituídos.
Ler Joyce é perceber que a juventude é um estado de luta que pode atravessar toda a vida. Stephen Dedalus, com a sua obstinação e com a sua dor, encarna esta verdade: ser jovem é não aceitar o mundo tal como nos é dado, e ousar reescrevê-lo, mesmo que isso se pague com solidão e perda. No fim, a juventude não é uma preparação para a arte: é a própria arte em estado nascente.
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Desde as primeiras páginas acompanhamos Stephen na infância, onde a linguagem ainda é fragmentária, feita de ecos sonoros, de rimas e de imagens soltas. Essa forma não é mero ornamento estilístico: é uma tentativa de recriar a própria consciência infantil, ainda sem coesão. À medida que Stephen cresce, a linguagem também amadurece: torna-se mais complexa, mais sintática, até alcançar, no final, uma espécie de manifesto estético em prosa. O romance é, portanto, a narrativa da formação de uma linguagem literária, e nesse sentido é também a juventude de Joyce enquanto escritor.
A juventude, em Joyce, não é um tempo dourado nem uma preparação tranquila para a maturidade. É uma travessia dolorosa, marcada pela culpa religiosa, pelas tentações do desejo, pela violência da disciplina escolar e pela exigência de obediência à tradição irlandesa. Stephen sente-se esmagado por cada uma dessas forças, mas é precisamente nesse esmagamento que encontra a urgência de se afirmar. A figura do artista nasce, aqui, como alguém que decide não pertencer.
O gesto de Joyce é duplo: mostra-nos o preço da liberdade e, ao mesmo tempo, inscreve na literatura moderna uma nova forma de juventude. O jovem artista não é o herói que se integra, mas o sujeito que rompe, que recusa, que aceita a solidão como condição para criar. Retrato do Artista Enquanto Jovem inaugura, assim, um modelo que atravessará o século XX: o da juventude como insubmissão, como invenção de si contra os poderes instituídos.
Ler Joyce é perceber que a juventude é um estado de luta que pode atravessar toda a vida. Stephen Dedalus, com a sua obstinação e com a sua dor, encarna esta verdade: ser jovem é não aceitar o mundo tal como nos é dado, e ousar reescrevê-lo, mesmo que isso se pague com solidão e perda. No fim, a juventude não é uma preparação para a arte: é a própria arte em estado nascente.