Wook Lê Júlio Machado Vaz

Não nos chegam os dedos das mãos para contar os livros escritos pelo, provavelmente, médico e psiquiatra mais reconhecido do país, nascido no Porto há 68 anos. Mas desta vez fomos saber que leituras o marcaram ao longo da vida.
Uma lista plural e pluriforme, feita de grandes clássicos da literatura francesa e onde não falta, claro, a poesia de Andrade.
BIOGRAFIA
NOME: JÚLIO MACHADO VAZ
DATA E LOCAL DE NASCIMENTO: 1949, Porto
WOOK FAZ? Psiquiatra e sexólogo
CURIOSIDADE: «Há muito tempo, cheguei a um hotel de Lisboa, onde ia participar num Congresso. Tinha tido um furo no caminho e mudara o pneu. Além dos habituais jeans e camisola "vestia" uma assinalável quantidade de nódoas de óleo, mãos e face não tinham passado incólumes. O senhor da recepção era majestoso e olhou-me de alto a baixo. Disse que havia uma reserva em nome de Júlio Machado Vaz. Depois de consultar os canhenhos respondeu que apenas encontrava uma em nome de PROFESSOR DOUTOR Júlio Machado Vaz. Esmagado, respondi: "Sei que é difícil acreditar, mas... sou eu". Acabou por me dar a chave do quarto...»
OS SEIS LIVROS DA SUA VIDA
OS CINCO
ENID BLYTON
«Os livros dos Cinco fizeram-me pensar que tinha espírito aventureiro, o que se revelou miseravelmente falso. Ficou o amor pelos scones...»
AS PALAVRAS
JEAN-PAUL SARTRE
«Li As Palavras demasiado cedo para entender o livro, mas não para o "sentir". De algum modo, sem a "obsessão anfetamínica" de Sartre, pressenti que elas fariam parte da minha vida. Foi verdade, muita gente só me recorda a falar, mas sou, de profissão um ouvidor da Palavra.»
CYRANO DE BERGERAC
EDMOND ROSTAND
«Cyrano de Bergerac, mesmo sem a interpretação opulenta de Depardieu, encantou-me e assustou ao mesmo tempo. O romantismo daquele magnífico louco a reboque de não menos extraordinário nariz não escondia uma realidade ameaçadora: o sentimento não bastava no Amor, era preciso ser perito na forma ("brodez", diz Roxanne). Mas o sorriso volta quando se lê que "é bem mais belo quando inútil". Sejamos realistas e exijamos a utopia :).»
PARA SEMPRE
VERGÍLIO FERREIRA
«Para Sempre deixou-me siderado. Pela cadência, a profundidade, o lúcido desencanto. O vaivém entre passado e presente fazia-me pensar no discurso das pessoas que escutava no consultório, pedindo desculpa por não me oferecerem uma narrativa linear, "pré-fabricada". Nunca alinhei na visão de um Vergílio Ferreira depressivo, se bem me lembro, disse ele que a luz da vela brilha contra o fundo escuro (cito de memória), qualquer psicoterapeuta estará de acordo, somos feitos de luz e sombra.»
MEMÓRIAS DE ADRIANO
MARGUERITE YOURCENAR
«As memórias de Adriano fizeram-me recordar que teria preferido estudar História e não Medicina. Mas História assim!, com a prosa elegante e o fértil imaginário de Yourcenar, pertenço a uma geração que foi soterrada por datas, nomes, afluentes e uma visão tão enviesada da Vida que a Primeira República e o Holocausto não existiam. E depois, Adriano batia-se por uma causa perdida, o rolo compressor daquilo a que recuso chamar Cristianismo revelar-se-ia imparável e letal para um mundo que admiro profundamente.»
POESIA
EUGÉNIO DE ANDRADE
«As obras completas de Eugénio de Andrade acompanham-me há longos anos. Não precisei de conhecer o homem, que teve a gentileza de se tornar meu amigo, para lhe admirar a poesia. Fiz dela o primeiro "tempero herético" das minhas aulas em Medicina, abriu caminho a mais poesia e pintura, sempre levei muito a sério a frase de Abel Salazar: "O médico que só sabe Medicina nem Medicina sabe". Tinha razão. Nenhum livro de texto diz tanto do processo de crescimento e autonomia como "No mais fundo de ti eu sei que traí, Mãe". Freud tinha-o dito - sobre o Amor perguntem aos amantes e aos poetas :).»

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