Vozes do Brasil Contemporâneo – 1ª Parte

Por Álvaro Curia/ Ludgero Cardoso @literacidades

Ilustrações de Aurora Sant'Ana



5 de julho de 2023
«A amizade é como ter um irmão que não dorme na mesma casa», diz Maurício de Sousa, pai da Turma da Mónica. A frase parece encaixar como uma luva na ideia que temos da relação atual entre o Brasil e Portugal. Se, por um lado, não estamos perto, por outro, é tanto o que nos liga que parece que somos frutos da mesma árvore, amigos irmãos que trilham uma pátria comum.
Os autores brasileiros que aqui propomos são a nossa ponte transatlântica, os mensageiros mais céleres que nos contam como o nosso irmão vai passando. Estão por cá, em pleno auge da sua produção literária, e lê-los é pormos o amigo no quarto ao lado do nosso, fazendo dele casa. São escritores e escritoras que dão vida à língua comum e a cada um pedimos, como diz a cantora Maria Rita, que «mandem notícias do mundo de lá».

Esta é a primeira parte de um artigo que escrevemos para a revista Wookacontece. A segunda, vão poder lê-la também aqui, na próxima semana.
 
André Diniz
Grande nome da banda desenhada brasileira, é um autor que merece ser muito visto e lido. As suas histórias abordam temas complexos com um humor muito próprio e um traço muitas vezes silencioso, sendo o único que comanda a narrativa, como no caso da adaptação de O Idiota, de Dostoiévsky, a novela gráfica. O trabalho deste autor carioca é rico em diversidade temática, desde dramas familiares, como Matei o Meu Pai e Foi Estranho, até retratos da sociedade brasileira, como Morro da Favela. O seu livro A Revolta da Vacina, publicado em 2021, reflete uma crítica ao Brasil da pandemia. É um mergulho na arte sequencial de mãos dadas com um dos mais premiados autores argumentistas e desenhadores da lusofonia.
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Andréa del Fuego
O trabalho da vencedora do Prémio Literário José Saramago em 2011 é uma verdadeira ode à imaginação, capaz de criar mundos fantásticos e personagens que ficam gravadas na nossa memória. Uma mescla de fantasia, realismo e poesia, criando um universo único, onde tudo pode acontecer. Se em Os Malaquias – um romance que retrata a vida de uma família rural brasileira – e As Miniaturas a autora explora o realismo mágico e a escrita onírica, em A Pediatra a história é completamente diferente. Neste livro, Cecília é uma pediatra que não gosta de crianças. A obra da escritora paulista joga com o inusitado e o imprevisto para criar situações incómodas e hilariantes ao mesmo tempo. A própria personalidade da autora transborda, de certa forma, para os seus livros, criando uma narrativa onde não há limite para os caminhos onde a ficção nos pode levar.
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Giovana Madalosso
Com dois títulos publicados em Portugal, esta escritora traz-nos narrativas marcadas por uma linguagem ágil e uma visão aguda sobre a vida contemporânea, especialmente sobre a realidade urbana. Madalosso tem uma habilidade singular para criar personagens complexas e intrigantes, ao mesmo tempo que desafia as convenções narrativas tradicionais. A sua obra mais conhecida, Tudo Pode Ser Roubado, recebeu diversos prémios e indicações, consolidando-a como uma das escritoras mais promissoras de sua geração. Neste livro temos a história de uma mulher que, apesar de discreta, tem como hábito roubar roupas de marca nos seus encontros amorosos, para depois as vender a uma loja de roupa de luxo em segunda mão. Também publicado por cá está Suíte Tóquio, de 2021.
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Itamar Vieira Júnior
Este escritor e geógrafo baiano é, sem dúvida, uma das figuras de proa da nova literatura brasileira. Com uma escrita poética e intensa, que explora as complexidades da vida, o foco é sobretudo a cultura afro-brasileira, o tema do racismo estrutural e do legado dos séculos de escravatura. Itamar Vieira Júnior aborda amiúde temas como a luta por direitos, a resistência cultural e a desigualdade social, sempre com uma visão crítica. Torto Arado, romance de estreia, recebeu inúmeros prémios e reconhecimentos, incluindo o Prémio LeYa de 2018. Nele temos a história de Bebiana e Belonísia, irmãs descendentes de escravos para quem a liberdade nunca chegou, de facto, retratando histórias de vida que são espelhos de um povo que nunca saiu do anonimato. Também em Portugal está publicado Doramar ou a Odisseia, um conjunto de contos que expressam as preocupações universais com o ambiente e os direitos humanos.
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Luiz Ruffato
Luiz Ruffato é um dos mais profícuos autores brasileiros vivos, com uma obra pautada pela crítica social e pela representação das camadas menos privilegiadas do seu país. Em Portugal podemos ler De Mim já Ninguém se Lembra, livro onde um filho encontra uma caixa com cartas escritas pelo seu irmão, falecido num acidente, à mãe de ambos, que convida o leitor a espreitar a história de uma família. O multipremiado Eles Eram Muitos Cavalos é um dia normal na cidade de São Paulo, a selva de pedra, com as suas rotinas que acabam numa espiral de acontecimentos e vivências.
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