Viagens em letras
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11 de março de 2025
Não são temas consensuais, não são livros em que todos reconheçam mérito ou fidelidade aos factos. Os debates atuais levam-nos a questionar estes registos sob vários prismas. E é bom que o façamos. Mas, para conhecermos a História, devemos lê-la. As interpretações robustas só nascem do conhecimento. Estes foram quatro relatos de viagens muito diferentes e sobre os quais já correu muita tinta.
Peregrinação
Provavelmente nenhum de nós escapou a este, na escola. Havia até quem lhe desse o epíteto “Fernão, mentes? Minto!” de tão efabulados que eram os seus relatos. Porém, o autor não viveu para conhecer a reação às suas palavras, uma vez que o livro foi publicado postumamente, em 1614. Peregrinação narra de forma muito criativa as supostas aventuras de Fernão Mendes Pinto pelo Oriente, no século XVI. O autor, viajante e mercador português, descreve suas experiências em regiões como o Japão, a China e o Sudeste Asiático, misturando realidade e exagero, o que gerou dúvidas sobre a veracidade dos relatos. Não obsta a que seja um livro com um valor cultural muito relevante. A obra destaca encontros culturais, conflitos e a presença portuguesa no Oriente, revelando a complexidade das trocas comerciais, das tentativas de conversão ou da própria paisagem. Não obstante ter sido escrito no séc. XVI, Peregrinação tem um estilo bastante galopante, mesmo para os dias de hoje, o que faz dele um testemunho criativo das interações entre Europa e Ásia no período das Navegações.
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Tratado das Cousas da China
Nas suas navegações, os portugueses chegaram longe. E, perante o espanto com que iam chegando a novos lugares, escreviam. Não havia máquinas fotográficas e muito menos telemóveis, por isso a escrita e a gravura constituíam a única forma de prolongar a presença do olhar. Publicado em 1570, o Tratado das Cousas da China de Frei Gaspar da Cruz é uma das primeiras descrições ocidentais sobre a China, resultado da experiência do autor como missionário dominicano no Oriente. A obra combina observação direta e relatos de terceiros, abordando geografia, política, sociedade e as religiões presentes no território. Destaca-se, claro, a visão eurocêntrica do autor, que interpreta costumes locais à luz da mentalidade cristã do século XVI. Mas apesar de conter imprecisões e juízos morais, o tratado é um documento valioso para a História dos primeiros contactos entre Europa e China. O estilo detalhado e a curiosidade etnográfica fazem dele um marco na literatura de viagens.
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Viagens de Marco Polo
Quando as professoras de História falavam sobre este autor, o sorriso era inevitável e o trocadilho surgia, entre ele e outro seu (quase) homónimo português. Mas o tipo de entretenimento que produziam era muito diferente. Em Viagens, Marco Polo descreve a sua jornada pela Ásia no século XIII, passando pela Pérsia, Índia e, principalmente, pelo Império Mongol de Kublai Khan. O livro, ditado a Rustichello de Pisa enquanto Polo esteve preso, mistura relato autobiográfico e crónica de costumes, apresentando um Oriente repleto de riquezas, cidades magníficas e tradições exóticas, muitas das quais altamente irrealistas. Não obstante, o seu impacto na Europa foi imenso, inspirando navegadores e despertando o interesse por terras distantes, exuberantes. Apesar de grandes questionamentos (hoje e antes, também) sobre a veracidade de certos episódios, Viagens foi e é lido com grande vitalidade, quem sabe se por a imaginação ser, precisamente, um dos músculos que mais precisamos de trabalhar. Tanto em 2025 como na Idade Média.
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História da Província Santa Cruz a que Vulgarmente Chamamos Brasil
Logo após a chegada ao Brasil, os portugueses perceberam que não tinham encontrado o Paraíso, mas antes uma terra que, pela sua Natureza, andaria lá perto. Escrita no final do século XVI, esta obra é um dos primeiros relatos detalhados sobre o Brasil colonial, com tudo o que isso representa. Pêro de Magalhães de Gândavo descreve a geografia, fauna, flora e os povos indígenas, promovendo o interesse pela terra ao destacar as riquezas naturais e o potencial económico. O tom é claramente informativo, mas também propagandístico, reforçando a visão europeia sobre a nova colónia, servindo para entusiasmar os europeus a descobrirem eles próprios os fascínios do Brasil. Além da descrição etnográfica, há, claro, um forte viés cristão e civilizador, típico da época. Como documento histórico, o livro é essencial para compreender a construção da imagem do Brasil nos primórdios da colonização.
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