Vem aí o Ano Novo: livros que mostram vidas novas
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26 de dezembro de 2023
O ideal é ter uma vida plácida e ler sobre tumultos. Um dia-a-dia sem sobressaltos chega a ser desvalorizado. Mas um livro com sobressaltos vale muito.
A Boneca
Mãe e filha vão fazer um tranquilo passeio de barco, mas afinal não há tranquilidade para ninguém. De uma tarde que se queria normal – uma tarde como as outras, e relaxada –, fez-se outra coisa. Do barco, caía uma rede; da rede, veio uma boneca. Podia ser inócuo, mas aquilo metia medo ao susto. A mãe bem queria metê-la de novo na água, mas, para além de não ser boa ideia mandar lixo para a água, a filha pediu-lhe que a deixasse ficar com ela. Nessa noite, a mãe resolveu pôr uma fotografia da boneca nas redes sociais. E é aí que a vida acaba: de manhã, já a senhora estava morta e a boneca desaparecida. No caso, não é bem uma vida nova, é mesmo o fim da vida. Mas para a filha a vida passou a ser outra. Como isto é literatura nórdica, já se está mesmo a ver: os anos passam e, muito depois, importará ouvir a voz da criança, já não tão criança, sobre aquela noite.
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Mrs. March
Coitada da Mrs. March. Está sossegada na vida dela a comprar pão de azeitonas, e é então que descobre que, de esposa, virou musa. O marido – e já se sabe como são os escritores – teria aproveitado a matéria doméstica para alimentar um livro, e eis então Mrs. March a fazer de personagem. Aqui entre nós, é coisa de que ninguém gosta, mas os escritores vampiros metem o dente onde podem e o pessoal que os rodeia que se amanhe. Com esta ideia, Virgínia Feito põe-se a fazer maravilhas, e a calma que havia dentro de uma casa vai sendo maculada por suspeitas e obsessões. Depois da vergonha da novidade, nem há como voltar de cara limpa à padaria. Se ela inspira aquela personagem, tudo é desonra e escárnio – como escárnio inspira a personagem do livro.
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O terceiro país
Chega a peste e a vida conhecida vai ao ar. Angústias começa uma vida de aparente normalidade e lassidão: casa, tem dois filhos. Com a chegada da doença, a vida dá um mortal para trás. A família tem de fugir dali a todo o gás, procurando passar a fronteira. Mas, antes de consegui-lo, os bebés morrem e a mãe tem de enterrá-los. Depois dos filhos, o marido abandona-a. A família fica reduzida a cinzas e a uma lembrança. Em poucos meses, toda a vida conhecida deu para o torto, e o que vem dali é um livro aberto, uma mulher em luta com um futuro que virá – e qual será? Cabe-lhe andar mesmo sem saber para onde, fazer o luto pelos bebés mortos num ambiente agora soterrado por barões da droga e violência.
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A grande birra
É uma vida nova porque é uma vida que existe há pouco tempo. O Jorge nasceu e agora há que lidar com a vida. O problema é que, quando a vida ainda sabe à calma de um útero, é mais difícil lidar com as frustrações, e é mais fácil ter um daqueles dias em que parece que só existir já dá para o torto. Portanto, claro que não: não queria portar-se bem, não queria emprestar os brinquedos, não conseguia nada, não queria nada, não nada e pronto. A mãe bem lhe disse que estava com uma grande birra. Ele procurou-a em todo o lado, até debaixo da cama – e, surpresa, nada de a ver. Depois lá apareceu, e juntos irritaram toda a gente. O miúdo, recém-existido, lá percebeu que estar sempre de mau-humor não era assim tão divertido. E a nova vida transformou-se em vida nova: resolveu antes ser amigo de toda a gente.
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