Dois Poemas de João Luís Barreto Guimarães
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29 de dezembro de 2022
Aberto Todos os Dias é o novo livro de João Luís Barreto Guimarães que, além de médico, é uma das mais aclamadas vozes da poesia portuguesa, distinguido com o Prémio Pessoa 2022.
Na sua poesia convivem a contemplação da História e a ironia sobre as coisas comuns e quotidianas, mas também a melancolia, transpostas para uma linguagem original e singular.
Em dias de balanço, entre o ano que parte e o ano que chega, partilhamos consigo dois poemas que refletem sobre as indecisões que todos sentimos.
COISAS À ESPERA DE VEZ
Há
uma mão-cheia de coisas à espera de
acontecer. O copo
quase a
partir. O prazo quase a acabar. O vermelho
do semáforo (que reteve
um par de vidas) a instante de ceder
a sua vez à
cor verde. Um rapaz na margem esquerda (além
de calção caqui) parece
estar a segundos de decidir se se
atira. A
narcose que há num beijo- Pagar a conta
do gás. Um furo novo no cinto! A
coisa e o
seu contrário. Podia encher um poema com
uma lista de coisas que estão quase a acontecer. Uma a
uma a
todo o instante. A ordem
isso não sei.
A DECISÃO
Vem Janeiro e
hesitamos no que fazer ao pinheiro
mais antigo
do jardim. Janeiro tem duas faces. Por nobre
que possa ser o
seu sumptuoso tronco
as pinhas e a caruma que encobrem
a erva rasa vão
criando um paraíso (distante das leis do fórum)
nada menos que
anárquico. Há anos que
o jardineiro lhe promete a motoserra
(detido pelo mau juízo do nosso
sim
definitivo). Nem é tanto pela mágoa de
trocarmos a madeira por meros
instantes de cinza é
não sabermos depois onde a Sombra
da árvore cortada
habitaria.
Na sua poesia convivem a contemplação da História e a ironia sobre as coisas comuns e quotidianas, mas também a melancolia, transpostas para uma linguagem original e singular.
Em dias de balanço, entre o ano que parte e o ano que chega, partilhamos consigo dois poemas que refletem sobre as indecisões que todos sentimos.
COISAS À ESPERA DE VEZ
Há
uma mão-cheia de coisas à espera de
acontecer. O copo
quase a
partir. O prazo quase a acabar. O vermelho
do semáforo (que reteve
um par de vidas) a instante de ceder
a sua vez à
cor verde. Um rapaz na margem esquerda (além
de calção caqui) parece
estar a segundos de decidir se se
atira. A
narcose que há num beijo- Pagar a conta
do gás. Um furo novo no cinto! A
coisa e o
seu contrário. Podia encher um poema com
uma lista de coisas que estão quase a acontecer. Uma a
uma a
todo o instante. A ordem
isso não sei.
A DECISÃO
Vem Janeiro e
hesitamos no que fazer ao pinheiro
mais antigo
do jardim. Janeiro tem duas faces. Por nobre
que possa ser o
seu sumptuoso tronco
as pinhas e a caruma que encobrem
a erva rasa vão
criando um paraíso (distante das leis do fórum)
nada menos que
anárquico. Há anos que
o jardineiro lhe promete a motoserra
(detido pelo mau juízo do nosso
sim
definitivo). Nem é tanto pela mágoa de
trocarmos a madeira por meros
instantes de cinza é
não sabermos depois onde a Sombra
da árvore cortada
habitaria.