Um dia da mãe com livros

Por Álvaro Curia/Ludgero Cardoso
@literacidades
17 de janeiro de 2020
O Dia da Mãe pode ser um excelente momento para comemorar a maternidade nos seus diversos âmbitos. A maternidade entendida da forma mais habitual, mas também a mãe enquanto pessoa que gera, que cuida, alberga e educa. E, nesse sentido, podemos todos ser mães de uma miríade de projetos, amigos, casas ou conquistas. A mãe enquanto elemento de referência, que molda e encaminha, para depois saber largar e observar o percurso independente do seu próprio fruto. Estas são quatro mães de livros, que são eles próprios excelentes sugestões para presentear uma mãe com leitura.

 
Um detalhe menor
Até que ponto a tragédia de uma mulher é a tragédia de todas as mulheres? Estamos primeiro em 1949, no deserto do Negueve, terra conquistada aos palestinianos após a Nakba, evento celebrado pelos israelitas como a Guerra da Independência e pelos palestinianos como a catástrofe que levou a que mais de 700 mil pessoas fossem expulsas da sua terra. Num deserto dolorosamente agreste, um grupo de soldados israelitas assegura-se de que não há espaço à mais breve incursão, ao mais curto passo fora dos limites designados. Dia após dia, a vida do acampamento militar tolda-lhes a clareza e a figura do líder aparece destacada. Homem em constante aflição. Aflição física, dolorosa, íngreme, que o leva a delírios de febre e incursões noturnas pelas dunas, findas em alvoradas que o magoam. De repente, uma mulher é capturada e o seu destino fica nas mãos de um grupo de homens atormentados pela própria dúvida quanto à premência da sua estada naquele deserto. A narrativa, num segundo momento, centra-se na atualidade, numa mulher de Ramallah que descobre acidentalmente o que aconteceu à rapariga capturada em 1949 e empreende uma viagem pelo não apagamento da sua memória. Está obcecada com o caso, com a forma como aparece descrito como um «detalhe menor», contraposta à terrível ausência, precisamente, de outros detalhes. Este é um livro que nos traz a ideia da expropriação do corpo, da própria vida e da legitimidade com que a narrativa do presente não repreende as atrocidades do passado.
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O Fim dos Homens
Um mundo governado exclusivamente por mulheres seria um mundo com um índice de violência praticamente inexistente. Talvez se contem pelos dedos de uma mão as guerras desencadeadas ou as invasões decretadas por mulheres. Nesta distopia, Sweeney-Baird imagina uma pandemia provocada por um vírus de origem animal que só afeta os homens, através de uma modificação genética presente no deu ADN. À medida que os homens vão perecendo, devido a uma gripe fulminante que os mata em três dias, e que a quantidade de homens imunes não ultrapassa os dez por cento, o mundo vai começando a ser gerido no feminino, tendo como preocupação assegurar a continuidade da espécie humana num mundo onde os homens escasseiam. É uma história contada de uma forma muito consistente, afastando-se da ideia de que uma distopia deve ser premonitória, por exemplo, para mostrar uma nova perspetiva sobre o mundo. Mais do que focar-se na pandemia em si, a autora mostra um antes, durante e depois do surgimento da doença que dizima os homens, com especial foco na forma como o mundo é, depois, organizado. Sem querer avançar na forma como se encontraram soluções para suprir a ausência de homens, devemos apenas referir que, se calhar, estes não faziam assim tanta falta. O Fim dos Homens lê-se rapidamente, mas deixa algumas questões interessantes, quer no âmbito da vivência das relações, quer na própria forma de as gerir, seja a que nível for.
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Encontro
Um dos lançamentos da coleção contemporânea da chancela Livros do Brasil é este Encontro. Uma história cuja brevidade de páginas contrasta com a permanência de algumas reflexões que nos ficam após a sua leitura. A voz da narrativa é uma mulher negra rodeada de elementos que lhe são profundamente agressivos. Trabalha no mundo das finanças, no Reino Unido, namora com um rapaz sempre sujeito às determinações da sua família conservadora e rodeia-se de objetivos padronizados por uma cultura com a qual não se identifica. Alcançou uma formação académica superior, destaca-se entre os seus colegas, vive numa zona privilegiada da cidade e procura o mesmo tipo de bens de conforto que os que a rodeiam. Poder-se-ia pensar que esta mulher vive integrada no ambiente que a rodeia. E é um facto. Mas apenas enquanto está calada, enquanto é discreta e não exibe sinais de elementos e comportamentos sociais e culturais que fogem à regra. Resiste ao assédio dos colegas, ao menosprezo das chefias, à condescendência com que a família do namorado a trata. Subjugada a essa ideia de que, para existir em determinado meio, tem de existir na sombra, deve observar a normalidade afastada da cena principal, a narradora debate-se com questões essenciais e com uma decisão que a vai determinar ao nível mais básico, que é o da própria existência. E será essa decisão, de facto, a única que ela pode tomar?
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Doida Não e Não!
Além da história de uma mulher que foi injustamente tratada como louca, este é um relato impressionante da misoginia explícita e enraizada na sociedade portuguesa de inícios e meados do século XX. Particularmente, a forma como a psiquiatria e a psicologia eram instrumentalizadas no sentido de punir qualquer desvio à norma, indo muito além da clínica para marginalizar comportamentos que a moral da altura considerava inaceitáveis. Maria Adelaide da Cunha, herdeira do Diário de Notícias, é uma mulher da alta sociedade lisboeta, entretida a organizar festas e a decorar o palacete onde vive com o marido e o filho. Certo dia, procurando desenvencilhar-se de um casamento opressor, abandona a casa, partindo com o antigo motorista da família, vinte e quatro anos mais novo do que ela, para uma aldeia perdida no interior de Portugal, onde apenas pede que a deixem sossegada. Mas não é isso que acontece. O marido descobre-lhe o paradeiro e Adelaide é literalmente capturada e encarcerada num hospital psiquiátrico, atestada como doente mental, sofrendo da chamada «loucura lúcida», que mais não era do que uma forma de a afastar do mundo, isolando-a e dando-a como incapaz. A tutela dos seus bens fica a cargo do marido, tal como a sua própria vida, a partir de então interditada. O caso parece ficção mas é real e Manuela Gonzaga realiza uma investigação exemplar, documentando todos os momentos do livro com referências e trazendo alguma justiça àquele que foi um dos mais famosos casos de interdição de uma mulher porque ousou contrariar a norma.
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