Se escrevesse uma carta aos animais, o que lhes diria?

Por Vera Dantas
«Estamos provavelmente a assistir, e espero-o de todo o coração, à transição para uma etapa ética superior em que o pensamento humanista se emancipa do seu quadro antropocêntrico para se estender a todos os seres sensíveis que habitam a Terra. A partir de então, demonstrar “humanidade” já não significa apenas respeitar os outros seres humanos, mas todos os seres vivos, de acordo com o seu grau de sensibilidade e consciência.»
É deste desejo e desta premissa que Frédéric Lenoir, filósofo, sociólogo e historiador das religiões, parte no livro Carta Aberta aos Animais – e aos que os amam. Em cada capítulo, vai lançando perguntas como «Serão apenas coisas?» ou «Somos assim tão diferentes?», e lançando tópicos de reflexão como «Da exploração à proteção» e «Esses animais que nos fazem tão bem». Dirigindo-se sempre aos animais, a quem começa por dizer como lhes deve parecer estenho o ser humano, Frédéric Lenoir aborda várias ideias-chave sobre a relação dos seres humanos com eles.
Um das mais importantes é a sensibilidade e a inteligência dos animais – os animais não são meras máquinas biológicas, mas seres dotados de consciência, emoções e uma inteligência que varia de espécie para espécie. E os humanos têm uma responsabilidade moral: devido ao seu poder sobre eles, têm o dever de os tratar com respeito e compaixão, em vez de os explorar brutalmente.
Indo mais fundo, Lenoir critica o especismo, ou seja, a hierarquização dos seres vivos em função da sua espécie. Não só a espécie humana advoga a sua superioridade sobre as restantes, como, partindo dessa posição, justifica o sofrimento e a exploração dos animais em benefício dos interesses humanos. O autor percorre a nossa perceção dos animais ao longo da História, contando como foi evoluindo a nossa relação com eles.
Então, o que propõe Lenoir? O filósofo apela a uma convivência mais ética, uma nova forma de viver com os animais, que passa por compreender melhor as suas necessidades e reconsiderar certas práticas, sobretudo na indústria alimentar e na investigação científica. Saber o que está para trás, e tirar lições dos erros do passado e do presente, pode resultar numa convivência que, muito além do necessário respeito pelas espécies animais, resulte no reconhecimento do bem que nos fazem, e que merece ser retribuído.

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