Editorial da semana: filosofar e meditar com as crianças

Já ouviu falar no livro de Frédéric Lenoir, «Filosofar e meditar com as crianças»? Hoje partilho um pequeno excerto da obra e aproveito também para partilhar a minha opinião sobre esta leitura maravilhosa.
Filosofar e meditar com as crianças
Esta semana li um livro de não ficção, mas respirei cada vírgula como se estivesse a ler um romance.

Filosofar e meditar com as crianças, de Frédéric Lenoir, conta a extraordinária aventura que o autor viveu com centenas de crianças, no âmbito dos ateliers filosóficos que organizou em várias escolas europeias. Muitos ateliers centraram-se em temas que normalmente os pais tentam evitar com as crianças, nomeadamente a morte, a violência e o amor.

Escrito com o objetivo de tornar o mundo melhor, este livro proporcionou-me alguns dos diálogos mais inteligentes e ternurentos que já li na minha vida. Passo a transcrever um excerto de um atelier que se realizou em Mouans-Sartoux (cidade dos Alpes Marítimos), numa turma de 4.º e 5.º ano (crianças de 8 a 11 anos) da escola pública François-Jacob.

O ser humano é um animal como outro qualquer?
  • Fréderic: Para vocês, há diferença entre o homem e o animal?
  • Tess: Eu acho que não há diferença nenhuma, porque a nossa espécie é, ao mesmo tempo, a mais inteligente e a mais estúpida, na verdade. Risos
  • F: Podes explicar a tua ideia?
  • Tess: É que nós somos mais desenvolvidos: caminhamos direitos, temos muitas coisas, em comparação com os animais. Mas, vendo bem, acho que não há uma verdadeira diferença.
  • Élodie: Concordo contigo, Tess, é verdade. Há pessoas que são estúpidas, realmente muito estúpidas. Depois há outras, como os cientistas, que são muito inteligentes, e foi, talvez, graças a eles que nos desenvolvemos. Os animais podem ser menos desenvolvidos do que nós em certos domínios, mas cada animal tem a sua particularidade. Por exemplo, o burro, acho que vê muito bem ao longe... a chita consegue saltar muito alto...
  • Sébastien: Eu também acho que é a mesma coisa. Porque o homem pré-histórico era um pouco um animal. Na verdade, somos todos animais...
  • Jana: Os homens e os animais são iguais, porque cada espécie tem a sua linguagem, embora não seja a mesma.
  • Mia: Eu não sou da mesma opinião: o homem e os animais não são nada a mesma coisa.
  • F: Podes argumentar?
  • Mia: Porque se alguém, por exemplo, tiver um filho e um cão, se o cão fizer muitos disparates, o dono pode tratá-lo mal, mas não pode fazer o mesmo à criança.
  • F: Queres dizer que não têm o mesmo estatuto jurídico?
  • Mia: É isso! Os seres humanos são mais protegidos do que os animais, porque são diferentes, precisamente.
  • Enzo: Não estou bem de acordo contigo, Mia, porque, na verdade, foi o homem que meteu na cabeça que era superior ao animal. Nós é que dissemos que éramos superiores aos animais e que devíamos ter direitos que os animais não têm. Mas isso não prova que somos superiores aos animais.
  • Robin: Concordo com o Enzo. Essencialmente, somos iguais, porque também somos animais. Somos apenas uma raça diferente.
  • F: Uma espécie diferente.
  • Robin: Sim, uma espécie particular, que domina as outras espécies.
  • Tess: Vou voltar ao que disse a Mia. Há uma diferença entre o homem e os animais, estou de acordo, mas a diferença é que o homem pode matar por prazer, enquanto os animais matam para comer ou para se defenderem.
  • Maelle: Eu não estou de acordo. Penso que os animais são iguais a nós. Só que nós pensamos que somos mais inteligentes do que eles.
  • F: Foi o que disse o Enzo.
  • Maelle: Somos irmãos.
  • Enzo: Gêmeos.
  • F: Por isso pensam o mesmo. Não há dúvida de que é um argumento! Risos.
  • Aurélien: Eu acho que é quase igual, mas mesmo assim há pequenas diferenças.
  • F: Quais?
  • Aurélien: Se largares um lobo e um humano na natureza, eles não vão desenvencilhar-se da mesma maneira. O lobo tem mais instinto de sobrevivência, vai ter mais facilidade em arranjar o que comer. O ser humano está mais desligado da natureza. Vive no luxo, mas já não ia conseguir sobreviver na natureza.
  • Baptiste: Os homens e os animais não são iguais, porque os homens inventaram o automóvel e os animais não. Risos
  • Marin: Eu não estou de acordo com o Baptiste, porque, por exemplo, se fores a África vais ver macacos que fizeram punhais com pedras. Eles são capazes de criar objectos.
  • Baptiste: Eu dei o exemplo de um automóvel! Já viste macacos fabricarem automóveis?
  • Élodie: Eu não estou de acordo contigo, Baptiste, porque cada espécie constrói, por exemplo, a sua casa. Nós fabricamos casas de madeira ou pedra, mas as formigas têm um formigueiro e os pássaros vão construir um ninho. E para construir um formigueiro ou um ninho, é preciso algum tempo, não é nada simples. Cada um tem a sua forma de construir as coisas e para isso é preciso inteligência.
  • Charlie: É verdade! Um formigueiro é muito complicado. Eles precisam de muita gente para trabalhar. Não fabricam as mesmas coisas que nós, mas o que eles fazem não é nada simples.
  • Enzo: Eu vou voltar ao que disseram o Baptiste e o Marin. É verdade que os animais, por exemplo, os macacos, criam utensílios. Depois, vão facilitar a sua vida e criar outros utensílios e assim vão ter uma evolução como a nossa. Um dia vão cozinhar a carne, evoluir, e daqui a muito tempo vão ser tão evoluídos como nós.
  • F: Queres dizer que não há uma diferença fundamental de natureza entre o homem e o animal, mas apenas uma diferença de tempo e de nível na evolução das nossas respectivas espécies?
  • Enzo: É isso.
  • Mia: Eu sou totalmente da mesma opinião do Baptiste: um animal não pode forçosamente fazer a mesma coisa que um ser humano. Não somos iguais, mas não sei como explicar.
  • Maelle É verdade o que diz o Baptiste, porque os animais não têm inteligência como nós.
  • F: Eles não têm inteligência como nós ou não têm inteligência nenhuma?
  • Maelle: Eles fazem as coisas naturalmente, enquanto nós temos sempre de nos perguntar para que serve uma coisa. A inteligência dos homens é mais para coisas que não são necessárias à sua sobrevivência, enquanto a inteligência dos animais é para a sua sobrevivência.
  • F: É muito interessante, gostava de saber o que os outros pensam.
  • Tess: É verdade. Nós pensamos para facilitarmos a nossa vida, mas também para descobrirmos coisas. E de cada vez que descobre alguma coisa, o homem quer ir mais longe, mais longe.
  • F: Nunca está satisfeito?
  • Tess: Isso mesmo, nunca está satisfeito. Quer sempre mais.
  • Enzo: Eu penso que os animais são como nós, só temos de lhes dar tempo e alguns animais, como os macacos e os golfinhos, vão desenvolver o tipo de curiosidade que o ser humano tem hoje.
  • Robin: Concordo com a Tess. Nós, ao contrário dos animais, estamos numa espécie de competição infinita: ser o mais rico, ter as coisas mais bonitas, ser o melhor. Estamos em competição com toda a gente, quando isso não serve para nada. Criamos muitas coisas, como os automóveis, mas se não houvesse automóveis, o mundo estaria melhor.
 
As ‘personagens’ deste livro são tão reais como as que vejo todas as manhãs a atravessar a rua e tão mágicas como se acabadas de sair de um conto de fadas. Há o Christophe, de 10 anos, que define o amor desta maneira: “quando vemos alguém que nos agrada, o nosso coração faz piu-piu”; há a Maria, de 10 anos, que vai mais longe e afirma: “o prazer é uma coisa que quero ter. A felicidade é uma alegria partilhada com os outros”; e há o Antoine, de 11 anos, que defende que “é melhor morrer, porque se fôssemos imortais acabávamos por ver tudo na Terra e depois já não sabíamos o que fazer.” Mas o meu preferido é o Anton que, do alto da sabedoria dos seus 7 anos, afirma: “eu gosto muito da vida, e quando somos felizes, não temos vontade de fazer mal aos outros. Os terroristas gostam de matar, mas, se calhar, matam porque não gostam da vida e porque não são felizes.”
A frase de Anton é a minha preferida porque tem o poder de forçar a entrada de luz naqueles lugares da memória que, com as tragédias dos últimos tempos, se foram enchendo de buracos por onde nenhuma luz quer passar.
Há uns anos, Haruki Murakami escreveu: “as portas dos frigoríficos do mundo inteiro abriram-se todas ao mesmo tempo”. Em 1982, Fernando Pessoa escrevia a sua célebre frase: “fez frio em tudo quanto penso”. Invoco estes dois autores e as suas incógnitas frases numa tentativa de explicar o efeito que este livro teve em mim. Ler Filosofar e meditar com as crianças, de Frédéric Lenoir, foi como fechar, uma a uma, todas as portas dos frigoríficos do mundo inteiro e sentir, no final, um calor bom em tudo quanto penso.
É uma honra pisar o mesmo mundo que pisam Christophe, Maria, Antoine, Anton e todos os outros que participaram nos ateliers filosóficos de Frédéric Lenoir. E é um conforto descobrir que as personagens mágicas dos livros às vezes são tão reais como as que vejo todos os dias a caminho da escola, levadas pela mão do pai ou da mãe. E na impossibilidade de abraçar o Christophe, a Maria, o Antoine ou o Anton, aproximo o livro de Frédéric Lenoir do meu peito, envolvo-o nos meus braços e penso como estou grata às novas gerações.
Escreve Frédéric Lenoir no prólogo: “estou convicto de que a melhoria do mundo, e nomeadamente a luta contra o fanatismo, passa pela educação das nossas crianças”. Se concordo mais, rebento! Não deixem de espreitar a sinopse do livro, vale a pena!


Tânia Azevedo, gestora de conteúdos culturais

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