Saramago como nunca antes o leu
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17 de novembro de 2022
Se fosse vivo, José Saramago teria 100 anos. A obra do escritor, que projetou o valor universal da língua portuguesa e foi distinguida com o Prémio Nobel da Literatura, ganhou este ano novas edições e gerou novas histórias sobre a sua vida, a sua pessoa, o seu modo de sentir, de se questionar. Saramago alegrar-se-ia por ver que a centésima oliveira foi plantada na rua onde brincava em Azinhaga, terra onde nasceu. Já não temos o privilégio de ter Saramago a viver entre nós. «Mas não subiu para as estrelas, se à terra pertencia». E sorriria, decerto, ao ver como a sua obra se mantém viva.
Saramago, Os Seus Nomes – Um Álbum Fotográfico
Este livro reúne mais de 200 nomes-chave na trajetória de José Saramago, constitutivos da sua identidade. Nas suas páginas, a voz do escritor, em excertos das suas obras e textos, e as fotografias tecem um diálogo em espaços/lugares, leituras/sentidos, escritas/citações e laços/pessoas – na busca dessa coisa que há «dentro de nós», que «é o que somos», e a que «talvez possamos chamar humanidade», segundo Saramago.
É um volumoso álbum biográfico, que nos transporta para os lugares, as pessoas e os acontecimentos mais importantes da vida de Saramago. Na primeira página, ficamos a saber que o nome do escritor teria sido José de Sousa, se o funcionário do registo civil não lhe tivesse acrescentado, por sua iniciativa, a alcunha pela qual a família do pai era conhecida na aldeia: Saramago – nome de planta herbácea. O primeiro espaço/lugar retratado é Azinhaga; segue-se Lisboa, com paragens em lugares marcantes da juventude do autor: a Escola Industrial Afonso Henriques, onde estudou, e a Biblioteca do Palácio de Galveias, onde, até à hora de fechar, à noite, lia tudo o que podia. E, à medida que a vida de Saramago se desenrolou, também se desenrolam os seus lugares, da Europa e Rússia à América Latina, EUA e… Lanzarote. No capítulo das leituras, moram escritores como Mia Couto, Flaubert ou Cervantes. Pessoas e leituras/sentidos, são tantas quanto rico é o imaginário de Saramago. Este livro acaba, assim, por retratar uma era, com as suas correntes de pensamento e manifestações artísticas e, sempre, o lado humano que Saramago tanto valorizava.
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É um volumoso álbum biográfico, que nos transporta para os lugares, as pessoas e os acontecimentos mais importantes da vida de Saramago. Na primeira página, ficamos a saber que o nome do escritor teria sido José de Sousa, se o funcionário do registo civil não lhe tivesse acrescentado, por sua iniciativa, a alcunha pela qual a família do pai era conhecida na aldeia: Saramago – nome de planta herbácea. O primeiro espaço/lugar retratado é Azinhaga; segue-se Lisboa, com paragens em lugares marcantes da juventude do autor: a Escola Industrial Afonso Henriques, onde estudou, e a Biblioteca do Palácio de Galveias, onde, até à hora de fechar, à noite, lia tudo o que podia. E, à medida que a vida de Saramago se desenrolou, também se desenrolam os seus lugares, da Europa e Rússia à América Latina, EUA e… Lanzarote. No capítulo das leituras, moram escritores como Mia Couto, Flaubert ou Cervantes. Pessoas e leituras/sentidos, são tantas quanto rico é o imaginário de Saramago. Este livro acaba, assim, por retratar uma era, com as suas correntes de pensamento e manifestações artísticas e, sempre, o lado humano que Saramago tanto valorizava.
Viagem a Portugal
Em 1979, José Saramago agarrou a oportunidade para se dedicar a tempo inteiro à escrita, quando a Círculo de Leitores o convidou para percorrer o Portugal inteiro, para sobre ele escrever. Do outono desse ano ao verão do ano seguinte, o escritor vestiu a pele do viajante. Assim se fez Viagem a Portugal, uma herança com que Saramago engrandece a memória do nosso país e do nosso povo.
Nesta edição especial, de capa dura, desta obra que é um misto de crónica, narrativa e recordações da «deambulação» de Saramago por Portugal, foram incluídas todas as fotografias, na maioria inéditas, tiradas pelo autor na sua viagem, complementadas pelas do fotógrafo Duarte Belo. Nas últimas páginas, incluem-se ainda mapas do percurso feito por Saramago.
O livro está organizado em 6 partes, correspondendo a 6 regiões de Portugal. Cada capítulo, tem, não o nome de uma terra ou lugar, mas títulos que refletem sentimentos ou impressões que estas causaram a Saramago, ou até memórias de episódios que viveu. O escritor-narrador fala de si como «o viajante», na terceira pessoa. Talvez por querer obrigar-se ao distanciamento necessário para ser um bom observador além de, sabemos bem, um magnífico contador. Termina o livro dizendo que «A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. (…) É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles». Até porque, como alertou na edição de 1999, não quis que este livro fosse um guia turístico; as paisagens, os urbanismos e os modos de vida alteraram-se; mas bastará ao leitor ter presente o roteiro da cultura e História portuguesas para não se perder no caminho.
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Nesta edição especial, de capa dura, desta obra que é um misto de crónica, narrativa e recordações da «deambulação» de Saramago por Portugal, foram incluídas todas as fotografias, na maioria inéditas, tiradas pelo autor na sua viagem, complementadas pelas do fotógrafo Duarte Belo. Nas últimas páginas, incluem-se ainda mapas do percurso feito por Saramago.
O livro está organizado em 6 partes, correspondendo a 6 regiões de Portugal. Cada capítulo, tem, não o nome de uma terra ou lugar, mas títulos que refletem sentimentos ou impressões que estas causaram a Saramago, ou até memórias de episódios que viveu. O escritor-narrador fala de si como «o viajante», na terceira pessoa. Talvez por querer obrigar-se ao distanciamento necessário para ser um bom observador além de, sabemos bem, um magnífico contador. Termina o livro dizendo que «A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. (…) É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles». Até porque, como alertou na edição de 1999, não quis que este livro fosse um guia turístico; as paisagens, os urbanismos e os modos de vida alteraram-se; mas bastará ao leitor ter presente o roteiro da cultura e História portuguesas para não se perder no caminho.
A Viagem do Elefante
Esta edição de A Viagem do Elefante, a obra que Saramago escreveu em 2007 em Lanzarote, já em condições de saúde precárias, baseia-se na história verídica da grande viagem de um elefante asiático que o rei D. João II ofereceu ao arquiduque austríaco Maximiliano II, seu primo, no longínquo século XVI. Desde que descobriu este acontecimento até à obra acabada, passaram-se 10 anos. Saramago queria contar a jornada do elefante, mas também refletir sobre a existência humana. No «conto» que nasceu é uma metáfora da vida humana, com humor, a ironia que lhe conhecemos e a sua indelével compaixão.
A extraordinária viagem do elefante Salomão começa nos aposentos reais, com uma conversa entre o nosso casal real, mas logo se desdobra em andanças protagonizadas por um estribeiro-mor, soldados, carregadores, emissários, atalaias e arquiduques. Não tendo encontrado dados históricos «para dar consistência a essa viagem», que «durou meses», o escritor dedicou-se a «fabricar uma história». E, sendo um dos melhores escritores de sempre, sabemos que esta é uma grande história. As frases projetam sentimentos, iluminam cenários que nos puxam para dentro deles e, nesta edição especial, abrilhantam-se com as ilustrações de Manuel Estrada.
Na primeira parte da viagem, de Lisboa a Valladolid, Salomão e a sua escolta dormem sob o luar de agosto, e, na segunda, que passa por Itália e pelas altas montanhas dos Alpes, tremem de frio, mas sobretudo de medo. Saramago escreve, perante a magnitude alpina, que «simplesmente não é possível descrever uma paisagem e, por extensão, qualquer outra coisa», mas ao ler esta narrativa, somos transportados para aquela jornada no século XVI, identificamo-nos com os sentimentos das suas personagens, sentimos compaixão por elas e, claro, pelo elefante Salomão. Na epígrafe deste livro, Saramago diz que «sempre acabamos por chegar aonde nos esperam», mesmo que isso seja, simplesmente, a morte.
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A extraordinária viagem do elefante Salomão começa nos aposentos reais, com uma conversa entre o nosso casal real, mas logo se desdobra em andanças protagonizadas por um estribeiro-mor, soldados, carregadores, emissários, atalaias e arquiduques. Não tendo encontrado dados históricos «para dar consistência a essa viagem», que «durou meses», o escritor dedicou-se a «fabricar uma história». E, sendo um dos melhores escritores de sempre, sabemos que esta é uma grande história. As frases projetam sentimentos, iluminam cenários que nos puxam para dentro deles e, nesta edição especial, abrilhantam-se com as ilustrações de Manuel Estrada.
Na primeira parte da viagem, de Lisboa a Valladolid, Salomão e a sua escolta dormem sob o luar de agosto, e, na segunda, que passa por Itália e pelas altas montanhas dos Alpes, tremem de frio, mas sobretudo de medo. Saramago escreve, perante a magnitude alpina, que «simplesmente não é possível descrever uma paisagem e, por extensão, qualquer outra coisa», mas ao ler esta narrativa, somos transportados para aquela jornada no século XVI, identificamo-nos com os sentimentos das suas personagens, sentimos compaixão por elas e, claro, pelo elefante Salomão. Na epígrafe deste livro, Saramago diz que «sempre acabamos por chegar aonde nos esperam», mesmo que isso seja, simplesmente, a morte.
A Viúva
A Viúva foi a primeira obra que José Saramago a ser publicada, em 1947. Nesse ano nasceu a sua única filha, a quem chamou Violante, e este seu «outro filho», ao qual deu o nome de A Viúva. Mas não pôde manter o nome que idealizara para este último, já que a editora que o publicou lhe mudou o título para Terra do Pecado. Agora, no centenário de Saramago, a Porto Editora devolve a este romance o seu título original, com a caligrafia da capa feita pela mão da própria Violante Saramago Matos, e ainda em formato Audiolivro.
A Viúva conta a história da jovem e abastada Maria Leonor que, após ficar viúva, assume as rédeas de uma propriedade rural ribatejana. A par do luto, vive com um sentimento de culpa por uma relação e pelas vontades mais primárias do desejo que sente, face aos preconceitos da sociedade conservadora em que vive. Maria Leonor encontra na criada Benedita, a outra protagonista feminina do romance, tanto uma amiga e confidente, como uma voz de uma sociedade que se apressa a julgar as suas ações. Percorre o romance este debate no qual afloram a religião e os costumes, sentindo-se a herança de Eça de Queirós ou Flaubert.
Saramago considerou A Viúva um «romance sedimentar», até porque «não estava assim tão mal escrito» para uma obra de juventude (o autor tinha 24 anos). Mas nós sabemos da exigência do escritor consigo próprio, sempre a superar-se e, até ao fim da vida, a colocar-se novas perguntas para sobre elas refletir, muitas vezes, para nossa fortuna, em obras da literatura intemporal.
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A Viúva conta a história da jovem e abastada Maria Leonor que, após ficar viúva, assume as rédeas de uma propriedade rural ribatejana. A par do luto, vive com um sentimento de culpa por uma relação e pelas vontades mais primárias do desejo que sente, face aos preconceitos da sociedade conservadora em que vive. Maria Leonor encontra na criada Benedita, a outra protagonista feminina do romance, tanto uma amiga e confidente, como uma voz de uma sociedade que se apressa a julgar as suas ações. Percorre o romance este debate no qual afloram a religião e os costumes, sentindo-se a herança de Eça de Queirós ou Flaubert.
Saramago considerou A Viúva um «romance sedimentar», até porque «não estava assim tão mal escrito» para uma obra de juventude (o autor tinha 24 anos). Mas nós sabemos da exigência do escritor consigo próprio, sempre a superar-se e, até ao fim da vida, a colocar-se novas perguntas para sobre elas refletir, muitas vezes, para nossa fortuna, em obras da literatura intemporal.
A Intuição da Ilha
Não tendo sido escrito por José Saramago, atrevemo-nos a dizer que este livro «escreve Saramago», imprimindo-o em palavras que são a sua vida inteira. Pilar del Rio, a mulher do escritor com o qual este começou «a sua segunda vida», continua a mantê-lo vivo, num sopro de luz cristalina, fresca, em movimento. Diz a autora que A Intuição da Ilha serve para «recordar momentos singulares vividos em Lanzarote» e «continuar a respiração que se sente na biblioteca de A Casa [a casa do casal em Lanzarote] e partilhá-la», mas faz muito mais do que isso.
O livro acompanha a vida de Saramago desde que decidiu ir viver para Lanzarote até ao presente. Pilar del Rio adentra os dias, as emoções, as ideias e as obras de Saramago. Desse mundo faziam parte amigos, muitos e verdadeiros, e os 3 cães – incluindo Camões, o cão que chorou a morte do seu dono –, o cinema, a biblioteca d’A Casa, os vulcões, as viagens. A morte do escritor é um momento nesta história, mas não o seu fim: «Saramago foi sempre consciente de que viver é um dom que há que aproveitar» e «quando teve de o entregar, fê-lo com amor». Tinha morrido «um homem bom, um grande escritor, um ser solidário.» Por isso, Pilar encerra o livro na certeza de que A Casa continua a desempenhar o seu ofício de contar, de agradecer e de confiar no futuro que se constrói se os seres humanos, homens e mulheres, o fizerem.
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O livro acompanha a vida de Saramago desde que decidiu ir viver para Lanzarote até ao presente. Pilar del Rio adentra os dias, as emoções, as ideias e as obras de Saramago. Desse mundo faziam parte amigos, muitos e verdadeiros, e os 3 cães – incluindo Camões, o cão que chorou a morte do seu dono –, o cinema, a biblioteca d’A Casa, os vulcões, as viagens. A morte do escritor é um momento nesta história, mas não o seu fim: «Saramago foi sempre consciente de que viver é um dom que há que aproveitar» e «quando teve de o entregar, fê-lo com amor». Tinha morrido «um homem bom, um grande escritor, um ser solidário.» Por isso, Pilar encerra o livro na certeza de que A Casa continua a desempenhar o seu ofício de contar, de agradecer e de confiar no futuro que se constrói se os seres humanos, homens e mulheres, o fizerem.