Prosas frescas para começar o ano
Partilhar:
29 de dezembro de 2023
Eu sei que anda tudo em busca de calor. Janeiro é assim. Mas eu gosto mais de coisas frescas. Ou seja, de narrativas que, por muito que pareça já estar tudo dito, ainda vão sabendo a coisas novas.
A voz das mulheres
Talvez dê para ler sem choque, mas não sei como. E saber que o livro se inspirou mesmo na vida só escandaliza mais: não fosse isso, e podíamos arrumá-lo no sem-fim de possibilidades da ficção. Até podíamos julgar: claro que a vida não é mesmo assim, mas podia ser.
Miriam Toews não faz por menos: encara uma narrativa em que conta a história de oito mulheres que se encontram para debater o que se passa na comunidade em que vivem: ao longo de anos, centenas de mulheres foram violadas vezes sem conta durante a noite. Inicialmente, julgavam que as visitas eram feitas por demónios. Depois, lá perceberam que os demónios eram ainda mais demoníacos do que o que se podia julgar, uma vez que eram mesmo gente. À vez, os homens faziam as suas visitas noturnas e perpetravam os seus crimes, não sem antes drogarem as vítimas. O que dali se rouba à vida é o que faz o romance.
QUERO LER! »
O índice médio da felicidade
Não sei se é pela experiência como autor para crianças e jovens, se é por inclinação natural, mas ler David Machado tem sempre aquele cunho de descoberta da leitura que se tem nos primeiros anos. A prosa é sempre escorreita, as histórias põem o leitor no centro da ação – ação que não perde tempo a acontecer por ali fora. Aqui, o leitor a ser refrescado viaja com Daniel. Há um dia em que a vida se complica: Portugal entra em colapso, o homem perde o emprego, a prestação da casa parece ficar-lhe a milhas, a mulher com quem casou foi embora com os filhos e os dois melhores amigos estão cada um no seu casulo. Xavier, por exemplo, está trancado em casa há 12 anos, obcecado com estatísticas; Almodôvar foi preso enquanto tentava endireitar a vida. Já Daniel, ainda com otimismo dentro dele, procura maneiras de lutar pelo futuro e garantir a esperança.
QUERO LER! »
Grande Turismo
Mas, afinal, quem raio é o João Pedro Vala? Isso não vou dizer – nem eu sei –, mas pode ser que o narrador arranque umas pistas ao livro. Sabe-se, pelo menos, que João Pedro Vala é uma personagem do escritor João Pedro Vala. O primeiro é um pobre coitado, o segundo não sei bem, mas pelo menos tem talento. Em Grande Turismo, tudo sabe a coisa nova, e o leitor lá se perde num humor que é, em simultâneo, escancarado e refinado. Cómico e ridículo no mesmo movimento, João Pedro Vala, a personagem, anda perdido pela vida como se fosse o primeiro dia que passa no planeta Terra. Deambula pelo quotidiano – e o leitor vai com ele, mesmo quando o quotidiano vai dar uma volta ao fim do mundo. Aqui e ali, vai havendo um fundo lírico, e até aí o leitor se compadece com o desgraçado que dá voz à narrativa.
QUERO LER! »
O David decide
Para o David, existir não tem sido coisa fácil: a cada pequena coisa, há uma decisão. Ora, para quem não gosta de decidir, a vida é um tormento. Decidir tem demasiado peso – bater ao lado pode pôr um rapazinho de chinelos à chuva ou fazê-lo passar pela tragédia de escolher o sabor de gelado errado. Às vezes, só para evitar a angústia, o David não come gelado nenhum.
Um dia, lá decidiu que ia ter um cão. Dirigiu-se ao canil e agora é que a vida ia dar para o torto: depois da decisão, que cão haveria de escolher? Virou as costas, em desalento, mas um cão veio atrás dele, oferecendo-lhe a pata, decidindo por ele. O cão, a partir daí, já parecia um serviço de triagem. O David é que ainda tinha de lhe escolher o nome...
QUERO LER! »
E se uma baleia me come
Podemos começar por quem ainda está a começar a existir. Isto tem daquelas preocupações que só se tem no início da vida: depois disso, é mais calcular o IRS, pagar a eletricidade a tempo, garantir que há em casa curgete para fazer a sopa. Mas o Martim ainda está longe desta fase. Ainda assim, nas preocupações, tem parecenças com um adulto, pelo menos na frequência: o rapaz anda sempre preocupado. Imagine-se o que é viver a achar que a vida vai correr mal. Se está numa festa, acha que os balões vão rebentar. Se vai passear, imagina que se perde. Se olha para o mar, pensa que pode ser comido uma baleia.
Com um olhar criativo, Susanna Isern cria esta narrativa que só nos dá vontade de dizer: calma, Martim, vai tudo correr bem. Vê se curtes a infância, que isso um dia acaba.
QUERO LER! »
Com um olhar criativo, Susanna Isern cria esta narrativa que só nos dá vontade de dizer: calma, Martim, vai tudo correr bem. Vê se curtes a infância, que isso um dia acaba.