Entrevista a David Machado

Por Vera Dantas
29 de junho de 2023
David Machado é um escritor multifacetado. Na literatura infantil, escreve recorrendo às suas memórias de infância, mas também a uma imaginação prodigiosa e a um sentido de humor que brinca com o absurdo, cativando leitores a cada novo livro – O Tubarão na Banheira é prova disso, sendo reeditado uma e outra vez. Na literatura juvenil, com livros como Os Reis do Mar, cruza habilmente a realidade com a imaginação. E, ao escrever para adultos, reflete sobre a nossa condição mais profundo, como no original Índice Médio de Felicidade, distinguido com o Prémio da União Europeia para a Literatura.
Em entrevista ao Wookacontece, revela que a escrita lhe deu uma vida muito mais rica e plena do que poderia imaginar. E deixa uma mensagem especial, para todos os que se atrevem a sonhar com a ideia de um dia escreverem um livro: ultrapassar o medo é o primeiro passo!
David Machado
David Machado
 
 
«Simplesmente adoro fazer isto, acordar de manhã e nem sequer ir tomar o pequeno-almoço, sentar-me ao computador a escrever e ficar ali horas e horas.»


Escreve desde muito cedo?
Sim, desde muito cedo criava histórias na minha cabeça, tocava guitarra, comecei a ver cinema e a ler literatura por influência do meu pai, sobretudo. Numa primeira fase, queria fazer cinema. Mas achava difícil, porque não tinha à minha volta pessoas que estivessem ligadas a profissões criativas, e não via nenhum caminho para lá chegar.


Houve um momento decisivo para que se tenha tornado escritor, tendo vindo da área da economia?
Não, foi algo muito progressivo. Tirei o curso e cheguei a trabalhar na área da economia durante quase três anos, mas queria fazer algo mais criativo, embora tal me parecesse arriscado, inalcançável. Fiquei desempregado e, quando me vi com tempo, comecei a escrever. De repente, estava a escrever 7 a 10 horas por dia, todos os dias da semana, sem nenhum objetivo específico.


 
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A Educação dos Gafanhotos, um romance de viagem, de David Sobral
Mas com muita motivação?
Sim. Simplesmente adoro fazer isto, acordar de manhã e nem sequer ir tomar o pequeno-almoço, sentar-me ao computador a escrever e ficar ali horas e horas. E isso nunca me tinha acontecido com nada. Passados alguns meses, cheguei à conclusão de que não fazia sentido voltar a trabalhar em economia. Comecei a preparar-me para trabalhar a minha escrita e o meu tom minha voz, um processo que eu sabia que ia ser longo. Demorou dois anos até conseguir publicar o meu primeiro livro.

O que lhe dá a literatura?
Eu pensava que a minha vida enquanto escritor ia ser muito menos do que aquilo que ela é hoje. Estava mesmo convencido de que o meu trabalho enquanto escritor seria estar todos os dias fechado em casa a escrever um livro e que, um dia por ano, sairia para apresentá-lo e depois voltaria, para escrever o livro seguinte. Mas a minha vida não é de todo isso: viajo muito, contacto muito com os leitores, sobretudo por causa da literatura infantil, e apresento os meus livros pelo país todo, e fora dele. Trabalho com muita gente criativa – ilustradores, encenadores de teatro, atores, músicos às vezes. A minha vida é outra coisa completamente diferente, e melhor, por causa por causa da escrita.


Quais são os escritores que mais o inspiraram ou influenciaram?
Não tenho nenhum pudor em dizer que sou influenciado por outros escritores, da mesma forma que sou influenciado por conversas que tenho com amigos, ou por notícias. Inicialmente, estava muito atento à literatura sul-americana, com o Gabriel García Márquez, Mário Vargas Llosa e Mario Benedetti, que é muito mais realista. Entretanto, comecei a sentir necessidade de me aproximar mais da literatura contemporânea, que reflete sobre o que o que está a acontecer neste momento.
 
«A literatura infantojuvenil em Portugal preocupa-me imenso e acho que está a cair a pique.»


E escritores portugueses?
Entre os portugueses contemporâneos, Saramago foi uma grande referência para mim, pela sua ampla visão literária. Continuo a ler sobretudo a nova geração, como João Tordo e Ana Pessoa, uma escritora de literatura juvenil que é extraordinária.


Como vê o panorama da literatura infantojuvenil em Portugal?
A literatura infantojuvenil em Portugal preocupa-me imenso e acho que está a cair a pique. É verdade que nos últimos 10-15 anos apareceram talvez 40 ou 50 ilustradores muito bons, mas, por outro lado, não apareceram escritores (com menos de 40 anos) de literatura infantil. De literatura juvenil, então, não há. Os maiores ou mais populares são os mesmos de há duas ou três décadas, como a Ana Maria Magalhães, a Alice Vieira, o António Mota, o José Fanha, e a Luísa Ducla Soares, que fazem um trabalho extraordinário. Mas preocupa-me o que vai acontecer quando esses escritores pararem publicar, porque não temos escritores que venham substituí-los.


Em contrapartida, nos últimos tempos, a Manga e a BD têm conquistado cada vez mais leitores entre os jovens portugueses…
Ainda bem que sim, a Manga e a banda desenhada (BD) estão a vir ao encontro desses miúdos. Eu próprio já tentei publicar em BD e de todas as partes me diziam que não temos leitores e não compensava o investimento num ilustrador. Ainda bem que isso está a mudar. Mas em literatura – contos e romances – não temos escritores para estas idades.
Temos editoras muito pequenas extraordinárias, mas que pertencem a escritores e a ilustradores, pelo que normalmente só publicam os autores da casa; e temos editoras muito grandes que simplesmente desistiram da secção das crianças. Deixaram de aparecer novos escritores e os jovens que são criativos, que gostam de literatura e de escrever, não encontram referências na sociedade para se sentirem motivados a fazê-lo.
Deixamos de ter crítica e programas de televisão que falem de literatura infantil, festivais literários dedicados e não vemos livros infantis a não ser nas livrarias. Felizmente, nas redes sociais há booktokers e bookstagramers que falam sobre literatura Infantil e isso é mesmo muito importante.

Gosta mais de escrever para adultos ou para crianças?
Gosto dos dois géneros, embora acabe por escrever mais romances para adultos, porque são mais demorados. Com cada um desses géneros, sinto e vivo experiências diferentes, que me interessam. Na literatura infantojuvenil, olho sobretudo para dentro de mim, para aquilo que já fui, recorrendo às minhas memórias de infância.

 
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O Tubarão na Banheira, um livro infantil de David Sobral
Algum dos seus livros teve um alcance maior do que poderia imaginar?
Sim, inquestionavelmente foi O Tubarão na Banheira, que publiquei há quase 14 anos, tentando ir ao encontro de algumas influências da literatura britânica para crianças, que é de um humor muito absurdo. Escrevi esse livro sobretudo para me divertir, e a certa altura fiquei com a sensação de que aquilo não ia ter muito impacto nos leitores por ser tão estranho e tão absurdo. Portanto, surpreende-me sempre ainda hoje, mesmo sabendo que o livro tem uma nova edição quase anualmente e está publicado noutras línguas.
Terá ajudado o facto de a história explorar, com humor, a relação entre um menino e o seu avô, com que nos podemos identificar?
Hoje em dia consigo analisar o livro de forma objetiva e identificar dinâmicas que funcionam muito bem com as crianças que o leem – como o humor e a estranheza daquilo tudo –, mas também com os professores, que adotaram nas suas aulas a parte do livro que é o Caderno de Palavras Difíceis. As ilustrações do Paulo Galindro encaixaram muito bem naquela narrativa. O livro esgotou a primeira edição em dois meses, o que nunca mais me voltou a acontecer, e fiquei muito feliz com isso.


Com a experiência, tornou-se mais fácil para si escrever livros?
Por um lado, sim, porque há erros que eu sei como evitar. Por outro, sou mais crítico em relação ao que escrevo. A minha forma de pensar e o meu olhar sobre o mundo mantém-se muito parecido com aquilo que era há 10 anos e, nesse sentido, às vezes é difícil não repetir personagens e situações. Mas acho que é mais interessante encontrar a minha voz, tentar fazer algo diferente daquilo que já fiz, em vez de algo diferente daquilo que outros escritores fizeram. Também por isso, gosto de saltar de género para tentar fazer coisas novas.
 
«Acho que é mais interessante encontrar a minha voz, tentar fazer algo diferente daquilo que já fiz, em vez de algo diferente daquilo que outros escritores fizeram».


O que lhe toma mais tempo no processo de escrita?
Costumava pensar muito antes de escrever, a fase do planeamento podia demorar um ano – a pensar como iria montar a história, tomar notas, experimentar tons de narração. Na pandemia, comecei a escrever um pouco mais por impulso, sem saber minimamente o que vai acontecer. O abismo de estarmos às escuras e não sabemos o que é que vai sair, deixou de me assustar porque eu percebi que é possível.


Já lhe aconteceu uma história sua ser diferente do que tinha imaginado, após passar pela revisão do editor?
Já e, se tudo correr bem, é isso que acontece. Porque, mesmo quando fazia um planeamento exaustivo, sabia que era apenas uma base para depois trabalhar com mais segurança – é só ir mudando elementos, de um lado para o outro. E por isso, normalmente a última versão da história é bastante diferente daquela que eu escrevi.
 
«A escrita leva-me por caminhos de pensamento que não consigo percorrer só pensando: gosto muito de mudar tudo, mesmo.»


Olha para essas alterações de forma positiva?
Sim, até porque para mim seria muito chato estar a escrever uma história que eu já tivesse criado inteiramente na cabeça. O mais importante está nesse momento em que, colocando as palavras umas atrás das outras, surgem ideias que eu não tinha tido antes. A escrita leva-me por caminhos de pensamento que não consigo percorrer só pensando: gosto muito de mudar tudo, mesmo; às vezes basta mudar um adjetivo para a personagem se tornar outra e ganhar uma vida nova.

 
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Índice Médio de Felicida, um livro de David Sobral que deu origem a um filme.
Em A Educação dos Gafanhotos, o protagonista fala com a paisagem, com animais, que são como uma projeção de si próprio. Que importância tem o diálogo interior neste romance?
Eu falo muito comigo próprio e acho que todos temos esse tipo de diálogo interior, que às vezes não é tão consciente. Quando a personagem está a falar com os elementos da natureza, está a falar consigo mesma, é só uma forma de nos contrapormos, sentindo que há alguma autoridade, algum peso nessa contraposição.
É algo muito da literatura contemporânea, muito atenta ao processo mental do ser humano. Mesmo num livro que tenha muita ação, a forma como as personagens leem essa ação tem muito destaque – no meu romance Índice Médio de Felicidade, a personagem principal está sempre a dirigir-se a um amigo, mas rapidamente percebemos que esse diálogo é apenas mental, na verdade a personagem está a falar consigo mesma. Mas este diálogo interior está a condicionar as próprias ações da personagem ao longo do romance, e isso é muito diferente da literatura que se fazia há 100 anos.


Nesse livro olhou para sua juventude e aspirações, 20 anos mais tarde, com humor, e não com derrotismo. Considera-se feliz e otimista?
Sim, mas a felicidade é algo que se pode construir ou formatar, enquanto o otimismo é algo mais neurológico e biológico; é muito difícil alguém ser otimista e passar a ser pessimista, ou vice-versa. Sempre me senti muito otimista e muito satisfeito com a vida. A felicidade tem que ver com a vida correr bem e mal e nós sentirmo-nos satisfeitos com isso. Só reconhecemos as coisas boas que nos acontecem na vida porque vivemos também as coisas más.


Que mensagem gostaria de deixar aos seus leitores mais jovens?
Uma mensagem para elas sobre a leitura. Quando comecei a ser leitor, felizmente tinha muitos livros em casa, íamos frequentemente a livrarias e a bibliotecas. Isso foi muito importante para eu perceber duas coisas: A primeira é que os livros não se resumem a um único formato – são muito variados, sobre todos os temas e épocas, escritos em todas as vozes – e que é muito importante encontrarmos o tipo de livros certos para nós. A segunda, é que os livros não são tão assustadores como possam parecer, quando somos crianças; há livros difíceis, mas nem todos o são.
Mais tarde, como escritor, percebi que um livro, na verdade, é só mais um trabalho que alguém no mundo fez. Aos poucos, comecei a perder o medo de experimentar escrever também. E acredito que qualquer pessoa pode ultrapassar esse medo e, desejando-o, tornar-se escritor.

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