Portugal escrito nas famílias
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@literacidades
15 de janeiro de 2024
Se há coisa de que gostamos são histórias de famílias ancoradas no contexto histórico, social e cultural da realidade de um país. Então quando é o nosso, parece que a leitura ganha um duplo sabor de emoção e conhecimento.
Revolução
Ficamos com a sensação de que estamos perante um grande romance. Hugo Gonçalves traz-nos o inesperado e esse foi um dos grandes prazeres que retirámos desta leitura. Quem espera encontrar aqui uma distorção da realidade, como em Deus, Pátria, Família, uma distopia como O Coração dos Homens ou um terno legado de O Filho da Mãe, é surpreendido pelo rendilhado minucioso da história da revolução de 25 de abril de 1974 e das suas consequências numa família. A irmã revolucionária, o irmão boémio, a outra irmã, conservadora, representam bem os arquétipos sociais da época. O clima de tensão, de expectativa, que se viveu naqueles anos, associa-se ao de uma família em tumulto. Muitas vezes íamos consultar a Internet para saber se aqueles acontecimentos se tinham mesmo dado daquela maneira, se todo aquele clima de pré-guerra civil era real. Descobrir o nosso tempo recente, enquanto país, é conhecermos melhor o universo dos nossos pais e avós. Um livro família, onde não falta Deus a pairar sobre os desígnios da pátria.
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As três mortes de Lucas Andrade
Começámos o ano com este romance de Henrique Raposo, que ao longo das suas seiscentas e trinta e cinco páginas nos conta a história de vida de João Miguel, Rucinho e Lucas Andrade, que são, afinal, a mesma pessoa. O êxodo dá-se ainda em criança, quando a família abandona a sua aldeia na Serra da Estrela e se junta aos restantes parentes, que estão já num dado bairro da periferia de Lisboa, lutando por uma vida com mais condições, seduzidos pelo progresso, pelos carros, pelas modernidades. Num dado Bairro do Janeirinho, porém, o miúdo serrano vai chocar contra uma parede de violência que caracterizou a periferia da capital ao longo dos anos oitenta e noventa do século passado, num retrato duro mas realista de como a droga e o crime imperavam impunes perante a indiferença de todos. Há um leque de personagens tão bem construído que as temos por parentes nossos, pouco depois de as começarmos a ler. Mesmo quando o Rucinho cresce e se torna escritor, continuamos dentro da cabeça daquele rapaz, simultaneamente assustado e maravilhado com o mundo.
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Terrinhas
Ser português é também termos, cada um de nós, a nossa “terrinha”. A miséria dos tempos da ditadura, as sucessivas crises, a procura de melhores condições de vida, a vontade… levou-nos a procurar maioritariamente o litoral para viver. Na “terrinha” quase sempre deixámos avôs e avós, numa casa com um pequeno terreno, onde quase de certeza se plantavam batatas. Este Terrinhas, da mesma autora de Coisas de Loucas, conta-nos a história de uma mulher que recebe a indicação de que lhe foram deixados alguns terrenos na terra natal da sua família, Arrô. Mas, muito mais do que um romance em que uma personagem é confrontada com uma herança inesperada, Terrinhas é um livro sobre migrações dentro de Portugal, sobre o facto de que, ao mudarmos do interior para o litoral, não é apenas uma deslocação de corpos e objetos que fazemos. À semelhança do livro de Henrique Raposo, também aqui não há a romantização do campo. Pelo contrário, Catarina Gomes conta-nos a história de convivências agrestes, desfazendo a ideia da calma bucólica da aldeia contraposta ao bulício da cidade.
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