Poemas de Daniel Faria

17 de janeiro de 2020
2.
Podem cortar-me o coração que eu vivo.




3.
Estou no cais de embarque, de noite. Lá fora há luzes que se movem na precisão de um pássaro que pousa, ou de um bando que se levanta de repente. Há outras luzes paradas: insectos que de tão quietos ficaram luminosos.
Desde que me cortaram o braço que sinto que há um anjo muito forte que me liga ao voo.




17.
Mas sinto alegria quando penso nas borboletas saindo dos casulos e no movimento deslizante de um remador.




24.
Nunca cumpras todas as promessas. É um modo muito triste de morrer.




6.
Penso sem certezas que sensato é abrir a porta e deixar entrar, pôr a mesa e guardar um lugar para quem vier. É acreditar no milagre.
E sei, sem duvidar, que a espera, desde Ítaca, não se alimenta do que se faz, mas sobretudo do que se desfaz. Mas calar-se não foi um destecer.




1.
Mãe, sinto o sangue tremer. É como se o coração estivesse parado. Eu lembro-me da nossa casa. Eu sinto no corpo o coração a ruir. Tão silenciosamente. Como quando tu estavas a tirar linhas, sentada à mesa de costura. Tenho a tesoura nas mãos e apetece-me cortar os dedos, a língua, as orelhas. Lembro-me do brilho dos brincos. Mas é das lágrimas que estou a cegar.

Daniel Faria, Sétimo Dia

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