Percorrer o Atlas da Revolução Francesa, dois séculos depois
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1 de agosto de 2024
A Revolução Francesa festeja 235 anos. Bem, na verdade 1789 foi o ano em que as ondas revolucionárias culminaram, levando ao fim da monarquia e ao início da era das Luzes, um vento de mudança com impacto global. Foram muitos os fatores que levaram a esse ponto de viragem em que se anunciava e almejava a construção de um mundo melhor para a Humanidade – começando pela adopção da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, documento culminante do Iluminismo. Depois dele, a agitação não se extinguiu simplesmente. Enquanto mudanças civilizacionais de que todos somos herdeiros eram implementadas, viveram-se dias negros, sobretudo durante o período que ficou gravado na História como Terror, entre 1793 e 1794 – e cuja memória se mantém bem viva para os franceses, como se viu na abertura dos Jogos Olímpicos de Paris há dias, com a representação da rainha Maria Antoinette decapitada.
Perante um fenómeno tão importante e complexo, como percebê-lo integralmente sem nos perdermos numa miríade de fontes para a qual não temos o tempo necessário? A boa notícia é que acaba de ser lançado por cá o extraordinário Atlas da Revolução Francesa, escrito pelos historiadores franceses Pierre-Yves Beaurepaire e Silvia Marzagalli e magnificamente ilustrado pelo cartógrafo Guillaume Balavoine.
Perante um fenómeno tão importante e complexo, como percebê-lo integralmente sem nos perdermos numa miríade de fontes para a qual não temos o tempo necessário? A boa notícia é que acaba de ser lançado por cá o extraordinário Atlas da Revolução Francesa, escrito pelos historiadores franceses Pierre-Yves Beaurepaire e Silvia Marzagalli e magnificamente ilustrado pelo cartógrafo Guillaume Balavoine.
Em menos de 200 páginas, ficamos a perceber o impacto global e a complexidade da Revolução Francesa, e até conseguimos elaborar uma comparação entre a França e Portugal – muitos dos progressos políticos, ideológicos e sociais que a França implementou logo no final do século XVII só chegariam cá quando já o século XX ia bem avançado.
O que se passou em França não foi só o fim da Monarquia e a instauração da República. Com a mudança de regime, foram implementadas medidas que alteraram radicalmente o país (ideológico e cartográfico), da administração do território à educação e aos direitos humanos. Nesta valiosa obra, com a ajuda de 120 mapas e de capítulos temáticos e concisos, vemos claramente como o ano de 1789 foi aquele em que movimentos e revoltas que já se vinham intensificando há anos, não só em França como numa conjuntura global, resultaram numa revolução sem retorno.
O projeto revolucionário visava reconstruir a grande nação francesa e, para o conseguir, teve de debruçar-se sobre todas as vertentes, das quais destacamos algumas das mais importantes, conforme enunciadas neste Atlas da Revolução Francesa:
• O desenvolvimento da imprensa e do livro clandestino (ver mapa no final deste artigo)
Graças à revolução postal da década de 1760 e à prática das subscrições em grupo, o preço da informação desce e a imprensa da província explode nas vésperas da revolução. Desenvolve-se uma indústria do livro, que alimenta o mercado francês com falsificações e livros proibidos. A censura vê-se obrigada a transigir. Mais tarde, em 1799, Napoleão Bonaparte, consciente do potencial subversivo de um debate livre no seio da sociedade civil, reforça a vigilância policial e impõe rígidas medidas de censura. Mas, ainda assim, as conquistas da Revolução não são postas em causa.
• A educação, uma questão primordial no período revolucionário
A educação era vista pelos revolucionários como primordial para a regeneração da sociedade – uma visão incontestável. Em 1793, afirmaram o princípio da escola elementar gratuita e obrigatória para todas a crianças e, em apenas uma geração, a alfabetização aumenta. A Revolução confia ao Estado a tarefa de organizar a instrução pública, recuperando os edifícios nacionalizados dos antigos conventos.
• A reorganização do território (ver mapa no final deste artigo)
Logo em dezembro de 1789, a Assembleia Constituinte adopta o princípio da divisão do território do reino em departamentos, distritos e cantões e consagra a existência das municipalidades. Esta refundação do espaço nacional transforma profundamente o quadro vivo dos cidadãos e o exercício das funções sociais e políticas. Não foi isenta de debate, mas conseguiu fazer avançar o país. O consenso convergiu para a necessidade de se criar um sitema uniforme e racional elaborado a partir do departamento, um circunscrição mais pequena do que a anterior – o critério para a delimitação dessa área era que qualquer habitante da mesma pudesse deslocar-se à capital da comuna e regressar a casa no mesmo dia viajando a cavalo. Simples e eficaz, não?
• As colónias e o desafio da regeneração nacional
Em menos de três anos, as revoltas forçam a República a abolir a escravatura no conjunto das colónias francesas (1794) – este foi um dos actos mais radicais da Revolução Francesa, com repercussões por todo o espaço atlântico.
Nas palavras dos autores deste livro (p.163), «A independência das colónias espanholas e portuguesas, mais do que uma rebelião contra a metrópole, é o resultado do demoronamento da monarquia, que afecta simultaneamente territórios americanos e europeus e conduz (…) à desagregação dos impérios.»
Mas há muito mais a descobrir e a saber. Propondo-nos «que nos libertemos de posturas ideológicas para compreendermos as lógicas deste abalo maior na História do mundo», Beaurepaire e Marzagalli dão-nos uma chave única para entrarmos no universo da Revolução Francesa. E seria uma pena não lhe dar uso.
Mas há muito mais a descobrir e a saber. Propondo-nos «que nos libertemos de posturas ideológicas para compreendermos as lógicas deste abalo maior na História do mundo», Beaurepaire e Marzagalli dão-nos uma chave única para entrarmos no universo da Revolução Francesa. E seria uma pena não lhe dar uso.
O que se passou em França não foi só o fim da Monarquia e a instauração da República. Com a mudança de regime, foram implementadas medidas que alteraram radicalmente o país (ideológico e cartográfico), da administração do território à educação e aos direitos humanos. Nesta valiosa obra, com a ajuda de 120 mapas e de capítulos temáticos e concisos, vemos claramente como o ano de 1789 foi aquele em que movimentos e revoltas que já se vinham intensificando há anos, não só em França como numa conjuntura global, resultaram numa revolução sem retorno.
O projeto revolucionário visava reconstruir a grande nação francesa e, para o conseguir, teve de debruçar-se sobre todas as vertentes, das quais destacamos algumas das mais importantes, conforme enunciadas neste Atlas da Revolução Francesa:
• O desenvolvimento da imprensa e do livro clandestino (ver mapa no final deste artigo)
Graças à revolução postal da década de 1760 e à prática das subscrições em grupo, o preço da informação desce e a imprensa da província explode nas vésperas da revolução. Desenvolve-se uma indústria do livro, que alimenta o mercado francês com falsificações e livros proibidos. A censura vê-se obrigada a transigir. Mais tarde, em 1799, Napoleão Bonaparte, consciente do potencial subversivo de um debate livre no seio da sociedade civil, reforça a vigilância policial e impõe rígidas medidas de censura. Mas, ainda assim, as conquistas da Revolução não são postas em causa.
• A educação, uma questão primordial no período revolucionário
A educação era vista pelos revolucionários como primordial para a regeneração da sociedade – uma visão incontestável. Em 1793, afirmaram o princípio da escola elementar gratuita e obrigatória para todas a crianças e, em apenas uma geração, a alfabetização aumenta. A Revolução confia ao Estado a tarefa de organizar a instrução pública, recuperando os edifícios nacionalizados dos antigos conventos.
• A reorganização do território (ver mapa no final deste artigo)
Logo em dezembro de 1789, a Assembleia Constituinte adopta o princípio da divisão do território do reino em departamentos, distritos e cantões e consagra a existência das municipalidades. Esta refundação do espaço nacional transforma profundamente o quadro vivo dos cidadãos e o exercício das funções sociais e políticas. Não foi isenta de debate, mas conseguiu fazer avançar o país. O consenso convergiu para a necessidade de se criar um sitema uniforme e racional elaborado a partir do departamento, um circunscrição mais pequena do que a anterior – o critério para a delimitação dessa área era que qualquer habitante da mesma pudesse deslocar-se à capital da comuna e regressar a casa no mesmo dia viajando a cavalo. Simples e eficaz, não?
• As colónias e o desafio da regeneração nacional
Em menos de três anos, as revoltas forçam a República a abolir a escravatura no conjunto das colónias francesas (1794) – este foi um dos actos mais radicais da Revolução Francesa, com repercussões por todo o espaço atlântico.
Nas palavras dos autores deste livro (p.163), «A independência das colónias espanholas e portuguesas, mais do que uma rebelião contra a metrópole, é o resultado do demoronamento da monarquia, que afecta simultaneamente territórios americanos e europeus e conduz (…) à desagregação dos impérios.»
Mas há muito mais a descobrir e a saber. Propondo-nos «que nos libertemos de posturas ideológicas para compreendermos as lógicas deste abalo maior na História do mundo», Beaurepaire e Marzagalli dão-nos uma chave única para entrarmos no universo da Revolução Francesa. E seria uma pena não lhe dar uso.
Mas há muito mais a descobrir e a saber. Propondo-nos «que nos libertemos de posturas ideológicas para compreendermos as lógicas deste abalo maior na História do mundo», Beaurepaire e Marzagalli dão-nos uma chave única para entrarmos no universo da Revolução Francesa. E seria uma pena não lhe dar uso.
O mercado do livro clandestino, in Atlas da Revolução Francesa, p. 60
A França dos 83 Departamentos e a supressão das capitais de Concelho, in Atlas da Revolução Francesa, p. 60