Para nunca esquecer o Holocausto

Por Ludgero Cardoso/Álvaro Curia
17 de janeiro de 2020
Recentemente o mundo assinalou os 77 anos da libertação do campo de Auschwitz e o fim do Holocausto. Um tema que deve ser lido com a dignidade que se impõe e que nós, enquanto leitores, procuramos na não ficção, porque sentimos que são esses os livros que nos contam o que aconteceu, com o rigor da análise e da interpretação histórica.
Apresentamos alguns livros que poderão ser uma porta de entrada para quem nunca leu sobre o assunto e nos quais não se cai no erro de romantizar o que aconteceu. Estando perante a maior atrocidade cometida pelo ser humano, devemos respeito à memória das vítimas e à verdade dos factos.
Sugerimos três livros partindo das seguintes premissas: alguém que sofreu na pele o terror do nazismo, mas conseguiu sobreviver; alguém que viveu escondido, mas que acabou por ser sequestrado e levado para os campos de concentração; e outro, que nos fala das consequências mais duras de ter sobrevivido ao Holocausto.



SE ISTO É UM HOMEM
Primo Levi, de ascendência judaica, foi um dos sobreviventes de Auschwitz. Portanto, qualquer obra sua que expresse o que aconteceu nos campos de concentração deve ser lida com todo o respeito e com o coração nas mãos.
Apesar de escrito de forma objetiva, sem sentido de vingança, este é um livro duro que nos perfura com alguns detalhes monstruosos e dolorosos de ler. Transporta-nos realmente para aquele cenário ao ponto de ouvirmos cair de um leito, como um mero objeto, um corpo morto... Como se estivéssemos ao lado desse corpo, no lugar de Levi. Temos o vislumbre da impressionante força que as vítimas tiveram de ter para sobreviver um dia de cada vez.
Se Isto é um Homem tornou-se rapidamente num clássico sobre o tema, não só porque não floreia o que aconteceu, mas porque joga com a essência do ser humano. O que é realmente ser uma pessoa no meio de campos de extermínio com condições horrendas, onde roubar um cobertor ou comida a outrem pode fazer a diferença na sua própria sobrevivência?
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O DIÁRIO DE ANNE FRANK
O Diário de Anne Frank é provavelmente um dos livros mais conhecidos em todo o mundo, por ter permitido a tantos leitores sentirem o que era viver escondido na era nazi, independentemente de ter sido escrito por uma adolescente.
Esta nova reedição, da Livros do Brasil, para além de incluir um prefácio e posfácio, vem acompanhada de uma história editorial da obra, uma pequena biografia dos habitantes do anexo secreto e dos seus ajudantes, um mapa do edifício onde ficaram escondidos, outro da Europa central sob ocupação nazi, um glossário e uma cronologia dos acontecimentos.
A história é conhecida. Anne Frank, o pai, a mãe, a irmã, Fritz Pfeffer e membros da família Van Pels viveram escondidos no anexo de uma casa, em Amesterdão, até terem sido denunciados e levados para campos de concentração.
Ler o diário desta adolescente cheia de expectativas para o seu futuro é um lamentar constante, um verdadeiro pesadelo. Por muito que saibamos o que lhe aconteceu, ainda nos vemos a querer encontrar um resto de luz, de esperança. Ainda esperamos que o desfecho seja outro... Infelizmente isso não aconteceu. E foi mesmo por pouco... Com a perda desta jovem vida, desaparece também um talento e uma voz de esperança.
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MAUS
A nossa última sugestão é Maus, novela gráfica de Art Spiegelman, que se foca na história real do seu pai sobrevivente do Holocausto, e em como é conviver com alguém que passou pelos horrores dos campos de concentração. A narrativa passeia por temas como a culpa, a memória e o racismo.
Apesar de ser uma banda desenhada, não deixa de ser um relato impressionante, ao mostrar o que de pior o ser humano é capaz de fazer. É um livro que introduz a imagem da perseguição entre os gatos e os ratos, em que os primeiros representam os nazis e os segundos os judeus. Com um traço escuro forte, a obra coloca o leitor num ambiente sórdido, infecto.
Maus foi banido recentemente das salas de aulas de um condado do Tennessee, Estados Unidos da América, por conter palavrões e nudez, sendo que essas palavras e nudez não são gratuitas. O mais irónico é que esta obra de Spiegelman, além do Pulitzer em 1992, venceu o Eisner, o principal prémio norte-americano para a banda desenhada.
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