Os livros das viagens

Por Álvaro Curia
@literacidades
16 de setembro de 2024
«Como a literatura, o amor e a dor, as viagens são uma bela ocasião para nos encontrarmos com nós próprios.» Quem o diz é Marguerite Yourcenar, autora, por exemplo de Memórias de Adriano ou Como a Água que Corre.» E se à viagem acrescentarmos um (ou mais) livros, só temos a ganhar. Estas foram histórias que ficaram, para sempre, ligadas às viagens que fiz.
Ler Sputnik, meu amor na Grécia
Sumire apaixona-se pela primeira vez, ou pelo menos acredita ser essa a sensação que tem ao olhar e pensar o objeto do seu amor. Daqueles amores que têm o viço das descobertas, a fúria que parece levar em frente a linha das montanhas e que nos fazem pôr em segundo plano tudo o que vivemos antes. Mas, como é sabido, os deuses costumam rir-se de quem faz planos, já o diziam os gregos. A esta violenta paixão de Sumire por uma pessoa dezassete anos mais velha assiste o narrador, que lhe dedica, também ele, um amor incondicional. Amor esse que o levará à Grécia, numa história onde a descoberta do amor, a solidão e o destino acabam por ser personagens tão principais quanto as que constituem este triângulo amoroso.
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Ler A Mulher dE Cabelo Ruivo na Turquia
Bem sei que aqui posso estar a jogar com o óbvio. Orhan Pamuk, prémio Nobel da Literatura em 2006, é turco e escreve sobre o seu país. E é claro que foi uma coincidência planeada, ler este livro a bordo do Expresso do Oriente, que nos leva de Istambul a Kars. Neste livro, um dos mais curtos do autor, temos um escavador de poços e o seu aprendiz, numa procura ávida por uma fonte de água num terreno na periferia de Istambul, onde vão construir um prédio. Ao rapaz, aparece-lhe uma mulher de cabelo ruivo, uma artista de teatro itinerante, que acaba por lhe ocupar os dias e o pensamento. De forma algo abrupta, a relação de camaradagem que se estabelecera entre ele e o escavador passa para segundo plano e é a obsessão que passa a tomar conta da sua mente.
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Ler O Vampiro Lestat no Brasil
Não, não me lembro por que razão optei por ler um livro de vampiros no Brasil. Não faz sequer sentido, não há nada no país que nos chame à escuridão e encontrar um motivo para, num verão ou inverno em São Paulo, da minha adolescência, ter passado tanto tempo no sofá de sala dos meus tios a este livro, é inútil. É daquelas coisas que se faz nessa idade tão peculiar. Mas a verdade é que essa temporada com a família, no país tropical, ficou marcada pela busca de Lestat para conhecer as suas origens e a razão por que é um ser imortal. Deitado nos trópicos, viajei até à Paris do séc. XVIII, à Inglaterra do tempo dos druidas e aos bares mais estranhos de Luisiana. A autora tem um trabalho profícuo na temática, sendo o mais conhecido, do público em geral, Entrevista com o Vampiro, que conheceu uma famosa adaptação ao cinema.
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Ler A Amiga Genial em Itália
Regressámos a Nápoles por causa da tetralogia napolitana de Elena Ferrante. Como se trata de um livro bastante falado, apresento antes os seus lugares e a forma como se tornou, para mim, um autêntico guia. Com o Vesúvio sempre no horizonte, Nápoles organiza-se em duas partes, a que os locais se referem muitas vezes como a dos ricos e a dos pobres. Ferrante moveu-se sobretudo nesta última, indo até ao Rione Luzzatti, o bairro onde Lila e Lenù crescem (e que se deve visitar acompanhado de um guia), onde encontramos o famoso túnel por onde as amigas fogem e os edifícios da ação. A ida ao centro de Nápoles com o pai é uma das cenas mais importantes para definir a diferença enorme que existe entre a periferia e a cidade, e percorrê-la através dos olhos de Ferrante é ir à Piazza Plebiscito, a Piazza Garibaldi, a rua Caracciolo ou o Castel dell’Ovo através dos olhos de uma menina que cresce contrariando a ideia de que devia obedecer a uma vida que lhe estava predestinada devido ao lugar onde nascera.
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Ler Sushi, Receitas e Técnicas no Japão
Quando passei perto de um mês no Japão agradeci ter levado comigo um manual de sushi. Contudo, embora o tivesse lido de fio a pavio, não pus em prática uma única vez os seus ensinamentos culinários. Para que haveria eu de cozinhar sushi, se em qualquer esquina encontrava um restaurante delicioso? O livro serviu-me, no entanto, para saber o que estava a comer. Aprender nomes como nigiri, hossomaki tekkami, uramaki, kappamaki, e não ficar meia hora a olhar para uma ementa e a apontar com o dedo, a medo. Percebi, também, o que iria gostar e o que apreciaria menos, bem como algumas técnicas para melhor aproveitar os famosos rolinhos. Não obstante, para quem quiser iniciar-se nesta função, o livro ensina a preparar sushi de forma fácil e saborosa. Eu, particularmente, é que sou mais de comer do que cozinhar.
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