O mundo que temos
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17 de janeiro de 2020
Afinal, em que mundo vivemos? Num planeta onde a vida piora ano após ano ou numa sociedade cada vez mais preocupada com o outro? Talvez vivamos em ambos, ao mesmo tempo. A literatura de não ficção dá-nos algumas pistas sobre o otimismo ou o pessimismo com que podemos encarar os dias de hoje. Para uma vida informada, nada melhor do que termos todas as cartas em cima da mesa.
COMO APRENDI A COMPREENDER O MUNDO
Hans Rosling talvez seja o pai do otimismo. No seguimento do sucesso planetário que foi o seu livro Factfulness - Factualidade, a Temas e Debates lançou este Como Aprendi a Compreender o Mundo, um livro de memórias deste autêntico «génio sueco da estatística».
O pensamento de Rosling é considerado por muitos como sendo altamente revolucionário. O investigador apresenta uma visão dos factos que foge ao tradicional pessimismo da opinião pública e que nos demonstra, sobretudo, que devemos ter atenção quando falamos sobre os reais problemas que o planeta atravessa.
Se por um lado é científico que as alterações climáticas são uma questão fulcral e uma preocupação inequívoca, por outro nem sempre as pessoas se apercebem de que estamos, noutros aspetos, num mundo muito melhor do que há cinquenta ou cem anos. A escolarização, o combate à pobreza, a erradicação de doenças ou a solidariedade conhecem tempos nunca antes vistos, pelo que, em relação a estes fatores, só devemos ficar bem-dispostos. Mas, e o autor deixa isso bem claro, o caminho ainda é longo para um mundo ideal. Ele só não está é pior do que já foi.
Neste livro encontramos histórias, situações e pessoas que levaram a que Hans Rosling que também foi médico e que infelizmente faleceu em 2017, tivesse vontade de comunicar aos outros a forma como, para si, o mundo funciona.
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O pensamento de Rosling é considerado por muitos como sendo altamente revolucionário. O investigador apresenta uma visão dos factos que foge ao tradicional pessimismo da opinião pública e que nos demonstra, sobretudo, que devemos ter atenção quando falamos sobre os reais problemas que o planeta atravessa.
Se por um lado é científico que as alterações climáticas são uma questão fulcral e uma preocupação inequívoca, por outro nem sempre as pessoas se apercebem de que estamos, noutros aspetos, num mundo muito melhor do que há cinquenta ou cem anos. A escolarização, o combate à pobreza, a erradicação de doenças ou a solidariedade conhecem tempos nunca antes vistos, pelo que, em relação a estes fatores, só devemos ficar bem-dispostos. Mas, e o autor deixa isso bem claro, o caminho ainda é longo para um mundo ideal. Ele só não está é pior do que já foi.
Neste livro encontramos histórias, situações e pessoas que levaram a que Hans Rosling que também foi médico e que infelizmente faleceu em 2017, tivesse vontade de comunicar aos outros a forma como, para si, o mundo funciona.
A MÁQUINA DO ÓDIO
O fenómeno das fake news e da violência digital deixa-nos a temer que, a partir daqui o mundo não ficará melhor. Os sucessivos casos de aproveitamento político de mentiras lançadas nas redes sociais, retirando mérito ao trabalho dos jornalistas, confundem o público e criam uma rede de falsos eventos que desencadeiam a desconfiança nos atores sociais.
Em A Máquina do Ódio, Patrícia Campos Mello mostra de que forma as redes sociais são precisamente manipuladas por líderes populistas, com o objetivo de criar campanhas difamatórias em relação aos seus adversários, que mancham por vezes de forma irrecuperável a imagem de políticos, ativistas ou outros elementos opositores. As reportagens da jornalista brasileira levaram a que, pela primeira vez, o WhatsApp admitisse que foi utilizado de forma maciça nas eleições presidenciais brasileiras que elegeram Jair Bolsonaro. O atual presidente do Brasil processou a repórter pelo seu trabalho, tendo perdido em tribunal, o que não o inibiu de encetar uma campanha difamatória de ofensas sexuais à própria autora, nas redes sociais.
O trabalho de investigação de Patrícia Campos Mello dá-nos poucos motivos de esperança, num mundo onde a tecnologia é instrumentalizada em nome da mentira e da calúnia, às quais estamos todos expostos. Valha-nos a presença de vozes como a da jornalista, a denunciar estes esquemas altamente prejudiciais à verdade e à informação.
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Em A Máquina do Ódio, Patrícia Campos Mello mostra de que forma as redes sociais são precisamente manipuladas por líderes populistas, com o objetivo de criar campanhas difamatórias em relação aos seus adversários, que mancham por vezes de forma irrecuperável a imagem de políticos, ativistas ou outros elementos opositores. As reportagens da jornalista brasileira levaram a que, pela primeira vez, o WhatsApp admitisse que foi utilizado de forma maciça nas eleições presidenciais brasileiras que elegeram Jair Bolsonaro. O atual presidente do Brasil processou a repórter pelo seu trabalho, tendo perdido em tribunal, o que não o inibiu de encetar uma campanha difamatória de ofensas sexuais à própria autora, nas redes sociais.
O trabalho de investigação de Patrícia Campos Mello dá-nos poucos motivos de esperança, num mundo onde a tecnologia é instrumentalizada em nome da mentira e da calúnia, às quais estamos todos expostos. Valha-nos a presença de vozes como a da jornalista, a denunciar estes esquemas altamente prejudiciais à verdade e à informação.
BIOGRAFIA DO SILÊNCIO
Estaremos de facto mergulhados irremediavelmente num mundo de ruído? Seremos assim tão reféns da tecnologia, do constante contacto, do turbilhão de informação? O encontro de um espaço de reflexão, de sossego, de paz interior, é assim tão difícil no mundo atual, com as características que lhe conhecemos? Pablo d’Ors acha que não e diz-nos que basta um ano de «meditação perseverante» para que cheguemos à conclusão de que outro estilo de vida é possível e está ao nosso alcance, de forma gratuita.
A prática de meditação, que o autor defende no livro Biografia do Silêncio, tem repercussões em todas as dimensões da nossa vida, seja no trabalho, na vida familiar, ou na forma como aproveitamos os nossos tempos livres e como encaramos os desafios que a vida nos apresenta. Mas quem espera que um livro sobre meditação e silêncio seja um livro leve, está enganado. Estas pouco mais de cem páginas que a Quetzal agora edita são um hino à relevância da atenção ao mundo que nos rodeia. A simplicidade do processo é explicada por d’Ors como sendo uma das chaves do sucesso, já que ele próprio se aventurou sozinho pelos caminhos da meditação. Desde 2014 que o autor procura construir um mundo de pessoas mais tranquilas, mais contemplativas, através também da sua associação «Amigos do Deserto». Para quem sente que o mundo às vezes é um comboio difícil de acompanhar, sair nesta estação do silêncio e meditar um pouco será uma boa opção.
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A prática de meditação, que o autor defende no livro Biografia do Silêncio, tem repercussões em todas as dimensões da nossa vida, seja no trabalho, na vida familiar, ou na forma como aproveitamos os nossos tempos livres e como encaramos os desafios que a vida nos apresenta. Mas quem espera que um livro sobre meditação e silêncio seja um livro leve, está enganado. Estas pouco mais de cem páginas que a Quetzal agora edita são um hino à relevância da atenção ao mundo que nos rodeia. A simplicidade do processo é explicada por d’Ors como sendo uma das chaves do sucesso, já que ele próprio se aventurou sozinho pelos caminhos da meditação. Desde 2014 que o autor procura construir um mundo de pessoas mais tranquilas, mais contemplativas, através também da sua associação «Amigos do Deserto». Para quem sente que o mundo às vezes é um comboio difícil de acompanhar, sair nesta estação do silêncio e meditar um pouco será uma boa opção.
PORQUE GOSTAMOS DE CÃES, COMEMOS PORCOS E VESTIMOS VACAS
A Humanidade não trata bem dos seus elementos mais frágeis. As indústrias da carne e do vestuário, entre outras, são responsáveis anualmente pelo extermínio de milhares de milhões de animais, a extensa maioria criada com o único propósito de alimentar e vestir uma sociedade pouco preocupada com o seu sofrimento e o seu bem-estar.
Melanie Joy expõe isto mesmo no livro Porque Gostamos de Cães, Comemos Porcos e Vestimos Vacas , uma introdução àquilo que a autora chama o «carnismo».
Mais do que um relato das atrocidades cometidas para com os animais antes que estes nos cheguem aos pratos ou aos armários, o livro é uma investigação sobre a psicologia dos hábitos alimentares e da nossa relação com as diferentes espécies, mostrando-nos um mundo cruel e indiferente ao sofrimento. Colocando em confronto a decisão, pelo menos no mundo ocidental, de dar aos cães e aos gatos a primazia do afeto e votando, por exemplo, os porcos e as vacas, a uma existência absolutamente atroz, Joy guia-nos pela sanguinária indústria pecuária norte-americana, onde a violência impacta não apenas os animais mas também as pessoas que a ela estão diariamente expostas e, em último caso, aos consumidores da mesma e ao meio-ambiente. Classificado como duro, mas necessário, este é um livro de uma seriedade notável, que aborda a forma como o homem se relaciona com a fragilidade e com os seus próprios instintos.
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Melanie Joy expõe isto mesmo no livro Porque Gostamos de Cães, Comemos Porcos e Vestimos Vacas , uma introdução àquilo que a autora chama o «carnismo».
Mais do que um relato das atrocidades cometidas para com os animais antes que estes nos cheguem aos pratos ou aos armários, o livro é uma investigação sobre a psicologia dos hábitos alimentares e da nossa relação com as diferentes espécies, mostrando-nos um mundo cruel e indiferente ao sofrimento. Colocando em confronto a decisão, pelo menos no mundo ocidental, de dar aos cães e aos gatos a primazia do afeto e votando, por exemplo, os porcos e as vacas, a uma existência absolutamente atroz, Joy guia-nos pela sanguinária indústria pecuária norte-americana, onde a violência impacta não apenas os animais mas também as pessoas que a ela estão diariamente expostas e, em último caso, aos consumidores da mesma e ao meio-ambiente. Classificado como duro, mas necessário, este é um livro de uma seriedade notável, que aborda a forma como o homem se relaciona com a fragilidade e com os seus próprios instintos.