Novo romance, dez anos depois
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11 de maio de 2017
Capa do livro
Antes do início
Abriu o livro e procurou a primeira frase.
Sempre ouviu dizer que o arranque de um livro é muito importante, porque se percebe logo o que podemos esperar.
Ficou surpreendido quando viu que a primeira frase dizia:
«Abriu o livro e procurou a primeira frase.»
Além da surpresa, sentiu-se observado, apanhado na inesperada e impossível ideia de que alguém lhe lia o pensamento, na livraria quase deserta.
Sempre ouviu dizer que o arranque de um livro é muito importante, porque se percebe logo o que podemos esperar.
Ficou surpreendido quando viu que a primeira frase dizia:
«Abriu o livro e procurou a primeira frase.»
Além da surpresa, sentiu-se observado, apanhado na inesperada e impossível ideia de que alguém lhe lia o pensamento, na livraria quase deserta.
Rodou a cabeça
Rodou a cabeça, espreitou por cima do ombro. Perto dele, com o mesmo livro na mão, outro leitor espreitava também, e os seus olhares encontraram-se.
Perceberam de imediato que a ambos acontecera a mesma coisa.
Abriram ambos um livro e, julgando lê-lo, estavam a ser lidos.
Um deles fechou o livro, pousou-o, e caminhou pelo corredor. Terá ficado confundido, e não ficou interessado.
O leitor que ficou voltou ao livro, curioso.
A história parece começar pela descrição de um instrumento musical.
A melódica é um instrumento musical, mas é um híbrido.
Podemos compará-la ao ornitorrinco, um animal oriundo da Austrália. Um ser tão improvável que, quando o primeiro espécime chegou a Inglaterra, empalhado, foi considerado um embuste pela comunidade científica. Nunca se vira um rato tão grande, quase um castor, que tem bico de pato e põe ovos.
Também a melódica parece construída com peças sobresselentes, que não estariam destinadas a encaixar-se. A melódica, mesmo que possa, raramente, integrar uma grande orquestra, parece, e sempre parecerá, um brinquedo de criança.
A melódica assemelha-se a um pequeno piano, com uma mera vintena de teclas, mas não adianta tocar-lhes ou pressioná-las, porque não emitirão qualquer som. Só ouviremos a melódica se lhe soprarmos, como faríamos com um saxofone, ou uma harmónica, ou um clarinete.
Então ela é um instrumento de teclas ou de sopro?
Não é um ou outro, é uma melódica. Da mesma forma que um ornitorrinco não é rato nem pato.
E com tão poucas teclas se conseguem os sons mais díspares.
Pode ser tocada na leve alegria da criança que dança e acompanha a banda que desfila na rua.
Como pode cantar uma melodia lenta, ou fazer soar uma única nota, prolongada num gemido comovente.
Depende da forma como sopramos, porque a melódica toca-se com a boca, que vai buscar ar ao pulmão, que está encostado ao coração.
A melódica é um híbrido, não uma simples soma de partes.
Ela diz-nos que, por vezes, nem tudo, nem todos, somos uma única coisa.
Perceberam de imediato que a ambos acontecera a mesma coisa.
Abriram ambos um livro e, julgando lê-lo, estavam a ser lidos.
Um deles fechou o livro, pousou-o, e caminhou pelo corredor. Terá ficado confundido, e não ficou interessado.
O leitor que ficou voltou ao livro, curioso.
A história parece começar pela descrição de um instrumento musical.
A melódica é um instrumento musical, mas é um híbrido.
Podemos compará-la ao ornitorrinco, um animal oriundo da Austrália. Um ser tão improvável que, quando o primeiro espécime chegou a Inglaterra, empalhado, foi considerado um embuste pela comunidade científica. Nunca se vira um rato tão grande, quase um castor, que tem bico de pato e põe ovos.
Também a melódica parece construída com peças sobresselentes, que não estariam destinadas a encaixar-se. A melódica, mesmo que possa, raramente, integrar uma grande orquestra, parece, e sempre parecerá, um brinquedo de criança.
A melódica assemelha-se a um pequeno piano, com uma mera vintena de teclas, mas não adianta tocar-lhes ou pressioná-las, porque não emitirão qualquer som. Só ouviremos a melódica se lhe soprarmos, como faríamos com um saxofone, ou uma harmónica, ou um clarinete.
Então ela é um instrumento de teclas ou de sopro?
Não é um ou outro, é uma melódica. Da mesma forma que um ornitorrinco não é rato nem pato.
E com tão poucas teclas se conseguem os sons mais díspares.
Pode ser tocada na leve alegria da criança que dança e acompanha a banda que desfila na rua.
Como pode cantar uma melodia lenta, ou fazer soar uma única nota, prolongada num gemido comovente.
Depende da forma como sopramos, porque a melódica toca-se com a boca, que vai buscar ar ao pulmão, que está encostado ao coração.
A melódica é um híbrido, não uma simples soma de partes.
Ela diz-nos que, por vezes, nem tudo, nem todos, somos uma única coisa.
Rodrigo Guedes de Carvalho