Novo romance, dez anos depois

Leia já um excerto do novo livro de Rodrigo Guedes de Carvalho.
11 de maio de 2017
Novo livro de Rodrigo Guedes de Carvalho
Capa do livro
Antes do início
Abriu o livro e procurou a primeira frase.

Sempre ouviu dizer que o arranque de um livro é muito importante, porque se percebe logo o que podemos esperar.
Ficou surpreendido quando viu que a primeira frase dizia:

«Abriu o livro e procurou a primeira frase.»

Além da surpresa, sentiu-se observado, apanhado na inesperada e impossível ideia de que alguém lhe lia o pensamento, na livraria quase deserta.
Rodou a cabeça
Rodou a cabeça, espreitou por cima do ombro. Perto dele, com o mesmo livro na mão, outro leitor espreitava também, e os seus olhares encontraram-se.
Perceberam de imediato que a ambos acontecera a mesma coisa.

Abriram ambos um livro e, julgando lê-lo, estavam a ser lidos.

Um deles fechou o livro, pousou-o, e caminhou pelo corredor. Terá ficado confundido, e não ficou interessado.
O leitor que ficou voltou ao livro, curioso.
A história parece começar pela descrição de um instrumento musical.
A melódica é um instrumento musical, mas é um híbrido.
Podemos compará-la ao ornitorrinco, um animal oriundo da Austrália. Um ser tão improvável que, quando o primeiro espécime chegou a Inglaterra, empalhado, foi considerado um embuste pela comunidade científica. Nunca se vira um rato tão grande, quase um castor, que tem bico de pato e põe ovos.

Também a melódica parece construída com peças sobresselentes, que não estariam destinadas a encaixar-se. A melódica, mesmo que possa, raramente, integrar uma grande orquestra, parece, e sempre parecerá, um brinquedo de criança.
A melódica assemelha-se a um pequeno piano, com uma mera vintena de teclas, mas não adianta tocar-lhes ou pressioná-las, porque não emitirão qualquer som. Só ouviremos a melódica se lhe soprarmos, como faríamos com um saxofone, ou uma harmónica, ou um clarinete.
Então ela é um instrumento de teclas ou de sopro?
Não é um ou outro, é uma melódica. Da mesma forma que um ornitorrinco não é rato nem pato.

E com tão poucas teclas se conseguem os sons mais díspares.
Pode ser tocada na leve alegria da criança que dança e acompanha a banda que desfila na rua.
Como pode cantar uma melodia lenta, ou fazer soar uma única nota, prolongada num gemido comovente.
Depende da forma como sopramos, porque a melódica toca-se com a boca, que vai buscar ar ao pulmão, que está encostado ao coração.

A melódica é um híbrido, não uma simples soma de partes.
Ela diz-nos que, por vezes, nem tudo, nem todos, somos uma única coisa.


Rodrigo Guedes de Carvalho

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