Como viajar no tempo?

Aqui tem o seu manual de utilizador!
10 de maio de 2017
Viajar no tempo através dos livros
Quando o tema é viajar no tempo, muitos pensam em Einstein, na teoria da relatividade geral, ou em complexas equações matemáticas. Nós, por outro lado, pensamos em livros, esses portais mágicos para outras dimensões! Através das páginas de um livro podemos ir ao passado, ao futuro ou experienciar o presente através de uma lente alternativa.
Quer Einstein concorde, ou não, os livros são portais que nos permitem viajar no tempo sem sair do espaço.
Preparado para embarcar nesta aventura?
PASSADO
Viajámos para o passado passado à boleia de Isabel Stilwell, uma das autoras de romance histórico mais conhecidas entre os leitores portugueses. Isabel dá a conhecer mulheres que estavam cheias de pó nos bastidores da História de Portugal e faz-lhes justiça.

Por exemplo, sabia que Dona Amélia foi responsável pela luta antituberculosa? E que Isabel de Aragão gastou a sua fortuna pessoal a ajudar os que mais precisavam e mandou construir o mosteiro de Santa Clara, em Coimbra? Ou ainda que Dona Teresa, a mãe de D. Afonso Henriques, tinha uma relação adúltera com Fernão Trava? Aliás, acredita-se que foi essa relação adúltera, e o facto de Dona Teresa não renegar as filhas nascidas dessa relação, que incentivou a fúria de D. Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal.

Tivemos a oportunidade de entrevistar a escritora, que gosta de acreditar que muitos leitores se reconciliaram com a História de Portugal depois de ler os seus livros. "Há muita gente que me diz que odiava a disciplina de História na escola", contou-nos Isabel Stilwell, "e descobriu, através dos romances históricos, que afinal os apaixonam. Acho que o clique se dá quando percebem que não precisa de ser apenas um conjunto de datas e acontecimentos, protagonizadas por personagens planas, que parecem santos de altar e nada têm a ver com elas. Muitas vezes os romances são um ponto de partida para que se interessem e queiram saber mais — e é para isso que lá está a bibliografia no fim de cada um dos meus livros".

Já Philipa Gregory, a rainha do romance histórico no Reino Unido, alerta-nos para o perigo das viagens ao passado. Segundo a autora, nenhuma mulher deveria desejar viver num período sem métodos contracetivos fiáveis, sem direito a voto, sem acesso à universidade ou sem direito à propriedade (até 1870 as mulheres eram consideradas basicamente propriedade dos maridos). Resumindo, apesar dos vestidos fantásticos e das jóias da nobreza, a melhor época para uma mulher ocidental viver é provavelmente… a atual.
O Homem do Castelo Alto
A capa do livro
PRÓXIMA PARAGEM?
Se gostou do filme Blade Runner, inspirado num livro de Philip K. Dick, não pode deixar de viajar até junto de O Homem do Castelo Alto, da autoria do mesmo escritor. Subtil e complexo, O Homem do Castelo Alto é considerado o melhor romance de história alternativa jamais escrito e lê-se como uma matrioska onde uma realidade esconde outra. A ação passa-se na América, 15 anos após o final da Segunda Grande Guerra. Os nazis controlam Nova Iorque e a Califórnia é dominada por Japoneses. Mas entre estes dois estados confrontados numa guerra fria existe uma zona neutra onde, dizem os rumores, reside o lendário autor que escreveu em tempos um livro no qual os aliados venceram a Segunda Grande Guerra.

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FUTURO OU AQUELE MOMENTO EM QUE A REALIDADE É MAIS ESTRANHA QUE A FICÇÃO
Pouco depois da eleição do presidente Donald Trump, 1984, de George Orwell, tornou-se um dos títulos mais vendidos nos EUA. Outras distopias se seguiram: O Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, It Can’t Happen Here, de Sinclair Lewis, A Conspiração contra a América, de Philip Roth, As Origens do Totalitarismo, de Hannah Arendt.

Esta viagem vai ser atribulada! Aperte bem o cinto!
ADMIRÁVEL MUNDO NOVO
Admirável Mundo Novo leva-nos pela mão para o futuro sombrio de uma sociedade na qual os escravos têm amor à escravidão. Publicado em 1932, a obra transporta-nos para uma realidade onde as pessoas são precondicionadas biologicamente e condicionadas psicologicamente a viverem em harmonia com as regras sociais, dentro de uma sociedade organizada por castas. Qualquer insegurança dos cidadãos é dissipada com o consumo de uma droga chamada "soma". No entanto, a sociedade desse ‘futuro’ não possui a ética religiosa ou os valores morais que regem a nossa sociedade de hoje. Admirável Mundo Novo é um aviso, um apelo à consciência dos homens e, sobretudo, um alerta de que “a ditadura perfeita terá as aparências da democracia".
1984
A distopia anterior é, muitas vezes, comparada ao livro assinado pela pena de George Orwell, 1984, uma sátira pessimista que foi publicada um ano antes da morte do escritor. Winston Smith, o herói do romance, é funcionário do Ministério da Verdade, onde se dedica a ‘corrigir’ os factos históricos ao sabor das conveniências do Partido. Porque “quem controla o passado, controla o futuro: e quem controla o presente, controla o passado”, diz o slogan partidário. Mas Winston Smith corre perigo, porque, ao contrário dos outros cidadãos, a sua memória ainda funciona. Um livro tão fascinante como perturbador que, apesar de ter sido publicado em 1949, nos alerta para alguns dos problemas da atualidade.
KALLOCAÍNA
Outra obra visionária, herdeira de Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, e predecessora de 1984, de George Orwell, é Kallocaína. Quando o cientista Leo Kall descobre um soro da verdade - a kallocaína -, mais eficaz do que a tortura ou a propaganda, o Estado não se coíbe de derrubar as já frágeis barreiras da individualidade e de extorquir todos os segredos e pensamentos dos seus cidadãos. Requiem pela humanidade em tempos negros, Kallocaína conserva até hoje toda a sua clarividência.
FAHRENHEIT 451
Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, é outra distopia que nos transporta para um futuro onde aos bombeiros compete atear fogos e aos cidadãos compete passar o dia a ver televisão e conduzir a uma velocidade de 160 km/h – é isso que significa ser feliz, pensar não traz felicidade, pensar é mau. “O sistema era simples”, lê-se na sinopse do livro, “toda a gente compreendia. Os livros deviam ser queimados, juntamente com as casas onde estavam escondidos”. Vamos pela mão de Ray Bradbury para um mundo onde os bombeiros são considerados os Guardiões da Felicidade, pois queimam o saber – os livros – a uma temperatura de 451 Fahrneit.
PRESENTE
O livro "divide-nos em duas partes enquanto lemos ", dizia Virginia Woolf , pois "o estado de leitura consiste na completa eliminação do ego" ao mesmo tempo que promete "união perpétua" com outra mente. Um século depois, um estudo publicado no Annual Review of Psychology , em 2011, provou que quando as pessoas leem sobre uma determinada experiência, ativam as mesmas partes do cérebro que o protagonista da experiência. Ou seja, desenhamos as mesma sinapses quando lemos histórias ou tentamos sentir o que uma personagem está a sentir.

Há uns tempos, lançámos um #desafiowook na nossa página de Facebook e perguntámos aos nossos seguidores qual era, na sua opinião, a melhor parte de ser leitor. Na opinião de António Soares, a melhor parte de ser leitor “é conseguir viajar no tempo, ter diálogos com autores interessantes, sair e voltar ao mundo sem que alguém dê por isso”. Vânia Velho, outra leitora da WOOK, parece concordar: “A melhor parte de ser leitor é, depois de um dia esgotante, ter um livro à espera de ser lido e nos transportar para outras realidades, ajudando a esquecer o dia mau e seguir em frente!” Anabela Neves insiste nessa ideia: a melhor parte de ser leitor é ter “o "poder" de fugir à nossa (por vezes bem dura) realidade!”

Amos Oz, um dos escritores israelitas mais traduzidos no mundo, disse, numa entrevista ao jornal Público, a 26 de Fevereiro de 2016, que “toda a boa literatura nos transforma em homens e mulheres de outras culturas, de outros países, de diferentes religiões, diferentes tempos e faz-nos sentir em casa em lugares muito distantes. É esse o milagre e a magia da literatura”.

Acreditamos que folhear as páginas de um livro é o correspondente literário a pedir emprestada A Máquina do tempo, de H. G. Wells, e partir sem olhar para trás. Por isso, mais do que boas leituras, queremos desejar-lhe boas viagens!

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