Miguel D'Alte
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11 de novembro de 2024
Na ficção portuguesa contemporânea, atual, novíssima, Miguel D'Alte destaca-se. Pela construção de ambiente, mas também pelo tipo de abordagem que faz ao lado mais íntimo e humano das suas personagens. Uma escrita que explora a complexidade da fronteira entre o que desejamos e aquilo de que precisamos, em especial na forma como constrói personagens que enfrentam extremos, como a solidão ou o vício, num ambiente em que cada detalhe contribui para um quadro maior, ao nível das várias camadas da interpretação. Com grande habilidade para criar expectativa, Miguel D'Alte é um dos autores que mais nos tem surpreendido, sobretudo por resgatar o fascínio pela personagem limite, que vive à margem, numa espiral de alheamento e mistério, tão característica do noir.
O Lento Esquecimento de Ser
No seu primeiro romance, D'Alte traz uma reflexão sobre a memória e o impacto do tempo na identidade pessoal. A história acompanha uma personagem em luta para manter a memória intacta, uma batalha onde o passado é uma âncora que lentamente se perde. A narrativa é contida, com uma escrita que consegue comunicar a sensação de perda e vazio sem recorrer a excessos. Os leitores têm destacado a forma como Miguel D'Alte conduz essa experiência, tornando quase tangível o processo de esquecimento que a personagem atravessa. Não é apenas uma história sobre a memória; é um questionamento sobre a essência do ser, onde o autor evita romantizar as lembranças e trata o passado como algo que se dissolve, deixando apenas vestígios. Num enredo entre Portugal e França, entre a apatia e a revolução, a figura do escritor maldito vai afirmar-se, já neste primeiro romance, como uma presença constante na obra do autor. A sobriedade na escrita, que não significa a planura de emoções, torna este romance uma leitura onde cada cena parece carregada de significados não ditos, e a forma como o autor navega entre presente e passado revela um domínio muito próprio das técnicas da narrativa.
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Os Crimes do Verão de 1985
O seu segundo romance é um thriller, onde Miguel D’Alte cria uma trama policial que se passa durante um verão, no passado, numa ilha inventada, onde o isolamento amplifica as tensões e os segredos de uma pequena comunidade. A história desdobra-se com um ritmo que se vai intensificando, levando o leitor numa jornada que parece amarrada em detalhes aparentemente comuns, mas que escondem pistas e segredos. O cenário é habilmente descrito, com uma precisão que deixa o leitor imerso no tempo e no espaço da narrativa. Um dos pontos mais fortes é a construção das relações humanas, algo que não é muito habitual neste tipo de romances, já que cada personagem parece ter um passado que resiste a vir à tona, mas que se revela aos poucos. O suspense é construído sem pressa, resultando numa narrativa tensa e bem estruturada, em que cada revelação é uma peça de um quebra-cabeças maior. A habilidade do autor em sustentar a expectativa ao longo do romance não obsta a que este seja um thriller que pondera, na mesma medida, o desenvolvimento e o desenlace, não se sobrepondo nunca o whodunnit à própria história em si.
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A Origem dos Dias
Em A Origem dos Dias, Miguel D'Alte explora a busca da identidade marcada pela herança familiar e pelo peso das memórias. Tomás Franco, o protagonista, é um jovem escritor em conflito consigo mesmo, que revisita o passado do avô, Pierre Lacroix, um misterioso autor franco-português com uma vida envolta em mistério. Essa busca pessoal traz à tona temas como a complexidade das relações familiares e o impacto da escrita como meio de reconstrução e superação. Além da relação enigmática com Leonor, que evoca tanto o desejo quanto a perda, Tomás é forçado a confrontar as marcas deixadas pelo tempo e a entender o que se herda além de simples memórias. D'Alte constrói a narrativa com fragmentos que refletem o próprio dilema do protagonista, compondo uma reflexão profunda sobre o papel do passado na definição de quem somos e sobre o poder transformador da escrita. Entre Portugal, França, a Florida e Marrocos, a escrita de A Origem dos Dias torna o livro um page turner, não obstante tratar-se de temas densos e que refletem os recantos mais escondidos das tensões entre os homens.
Miguel D'Alte já se impôs como uma referência na literatura portuguesa contemporânea, revelando-se mais do que uma promessa. Com uma obra que combina elementos clássicos e uma abordagem profundamente pessoal que reflete, inclusive, lugares por onde o próprio escritor vai passando, é hoje uma das vozes mais marcantes da ficção literária nacional.
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Miguel D'Alte já se impôs como uma referência na literatura portuguesa contemporânea, revelando-se mais do que uma promessa. Com uma obra que combina elementos clássicos e uma abordagem profundamente pessoal que reflete, inclusive, lugares por onde o próprio escritor vai passando, é hoje uma das vozes mais marcantes da ficção literária nacional.