Meninas exemplares – só que não
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24 de julho de 2024
Não contem com elas para não dar a volta às expectativas. Espera-se uma coisa, elas dão outra. E aqui dão leituras divertidas.
Uma mulher sem importância
É que nem davam por ela. E, sem livros que escavassem a história, quem se lembrasse dela depressa ia esquecê-la. Chegou então Sonia Purnell para contar a vida de Virginia Hall. Pasme-se: era socialite americana. Pasme-se: lá teve o seu papel na vitória da Segunda Guerra Mundial. Arrisco a dizer que podia muito bem ter passado despercebida. Em setembro de 1945, a Gestapo ficou à toa, e alertou para a mais perigosa de todas as espias ao serviço de Churchill. Ora, sendo socialite, devia ser difícil desconfiar de Virginia. Quem se veste muito bem não aparenta andar metida em segredos ou a tentar mudar o destino à vida. E a Gestapo lá decidiu que era preciso encontrá-la e destruí-la. É que, com a sua prótese de madeira na perna, Virginia lá andava a organizar uma rede de espiões por França, a tratar da chegada de explosivos e armas, a libertar prisioneiros. Até pontes com dinamite vieram das suas mãos, mesmo que não literalmente. Tinha a cabeça a prémio e hoje tem este livro que nos conta a sua história. É caso para dizer: passaria por um pãozinho sem sal, só que não era.
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A minha adorável esposa
Com uma mulher destas é que eu não casava, pelo menos se soubesse o que viria depois de assinados os papéis. Ora, o marido não foi ao engano. A início, a coisa parecia igual às outras. Duas pessoas conhecem-se, apaixonam-se, acham que todas as canções do João Pedro Pais são para elas, ficam vidradas uma na outra, juntam bibliotecas, unem-se na mesma casa, têm a certeza de um futuro juntas, têm filhos até, e mudam-se para os subúrbios para terem mais espaço e paz. E têm a intimidade habitual dos casais, partilham sonhos, contam segredos. Mas claro que, em 15 anos, volta e meia parece que não há nada para fazer. Quando isso me acontece, eu opto por um passeio, um mergulho no mar, um salto de avião. Estes dois são de outra estirpe, e lá se metem a matar gente para conseguirem matar tempo. A esposa – que podia escudar-se detrás desta palavra sem graça – pouco mais parecia do que uma mãe suburbana, e veja-se no que deu. A vida é isto: metemo-nos a ler livros e percebemos que não se pode confiar em ninguém.
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Mafalda. Feminino singular
Claro que adoramos a Mafalda. Basta vê-la pequena e fofa para se julgar que é menina de cor-de-rosa e flores. E basta ouvi-la – ou lê-la uma vez – para se perceber que é muito mais do que isso. Personagem icónica de Quino, deleita com o seu sarcasmo. Há lá coisa mais bela do que dizer coisas no gozo. E ninguém está à espera de que uma menina pequena tenha tanta argúcia. Neste volume, temos o conjunto das tiras feministas da personagem. Não conte com ela para se atar a um destino desenhado à cabeça. Mafalda quer ser o que quiser – e não quer estar fechada em casa a lavar o chão o dia todo.
Ora, a menina já tem 60 anos, e não deixa de ser uma menina. O que escrevia continua coisa da ordem do dia, e continua a ser uma maravilha lê-la. E, nesta altura, conhecida por todo o mundo, já ninguém vai ao engano. Ninguém achará que Mafalda é menina de baixar a cabeça para dizer amém a tudo. Aqui entre nós, talvez seja exemplar por isso mesmo.
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Ora, a menina já tem 60 anos, e não deixa de ser uma menina. O que escrevia continua coisa da ordem do dia, e continua a ser uma maravilha lê-la. E, nesta altura, conhecida por todo o mundo, já ninguém vai ao engano. Ninguém achará que Mafalda é menina de baixar a cabeça para dizer amém a tudo. Aqui entre nós, talvez seja exemplar por isso mesmo.