As vidas das mulheres
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@literacidades
7 de março de 2024
Celebrar a mulher é celebrar as suas lutas. Estas são vidas a que a violência atinge no feminino. Livros onde as circunstâncias condicionam o percurso de vida.
Três Mulheres na Cidade
A vida pode por vezes engolir-nos vivos. Numa cidade grande, somos territórios anónimos onde as nossas vozes vão perdendo sentido à medida que os dias se sobrepõem. Vivemos pequenas guerras internas, não sabemos nada acerca das lutas dos outros. Dos anónimos com quem nos cruzamos diariamente, ainda que sejam caras conhecidas. Sabemos tão pouco dos outros, que as figuras com que nos atravessamos diariamente se confundem tantas vezes com o próprio mobiliário urbano, com os prédios, com a calçada. Neste livro, três mulheres tão diferentes vivem dilemas idênticos, procurando submergir de um poço para onde a cidade de Madrid as atirou, um prédio escalonado conforme as classes sociais, assunto tão premente neste livro. Vemo-las nas suas vidas normais, acompanhamos a imensa complexidade da trama tecida na intimidade. É impossível não nos comovermos – aqui sim – com a arbitrariedade a que estão sujeitas na selva que é o quotidiano, onde se confunde a agressão com a esperança.
QUERO LER!
Na Terra dos Outros
Não é muito frequente acontecer o que me aconteceu com este livro. Esta história foi ganhando volume na minha vontade de a ler. Tanto que a certo ponto não desejei que terminasse, não quis que a vida de Maria do Carmo terminasse com o fim do livro. Queria muito (embora sabendo-o altamente improvável) que houvesse uma espécie de sequela. Não que ache que falta algo ao livro – nada disso, é um romance completo, que é dado ao leitor na medida exata. Mas tanto ficou em mim daquela mulher que não via como possível que ela pudesse assim desaparecer da minha vida de um momento para o outro. Carmo sai da sua aldeia em idade de criança, empurrada pela mãe para trabalhar na casa dos senhores da cidade como criada. Criada, assim mesmo, neste termo que era assim usado naquele tempo, o das vésperas da liberdade, para designar crianças que se vinham fazer serventes dos outros. Acompanhamos a sua vida até que ela nos deixe, uma vida ao serviço dos outros, sem tempo de si mesma.
QUERO LER!
Um dedo borrado de tinta
A iliteracia atingiu, ao longo dos séculos, sobretudo as mulheres pobres. Neste livro, Catarina Gomes percorre as ruas de uma aldeia do distrito da Guarda onde em 2011, mais de 40% dos habitantes não sabia ler nem escrever. Entre muitos, mulheres. Herdeiras de um tempo em que a sua escolarização não era prioridade em nenhum lado: nem na família, muito menos para um Estado que as queria serventes, humilhadas, dependentes. Porque, e assim percebemos ainda melhor com a leitura deste livro, saber ler e escrever é ter uma arma na mão contra o abuso e a dependência dos outros. Mas apenas recentemente se baixou a fatia de 5% de cidadãos sem acesso à extensa maioria da comunicação diária imprescindível para a sobrevivência. Vivendo num mundo rodeado de enigmas, estas pessoas, nossos avós e bisavós, adaptaram a vida a uma condição constante de exterioridade que as discriminou, fragilizando-as tanto, porventura, como se não tivessem acesso a um dos sentidos do corpo.
QUERO LER!