Lugares Abandonados de Portugal

Palácios, quintas, conventos, fábricas, sanatórios… As histórias. As memórias. As lendas. Os mistérios.
Lugares Abandonados de Portugal
“Os lugares abandonados são uma viagem fascinante ao passado. Saber o que foi aquele lugar, quem ali viveu, o que aconteceu e porquê, perceber o que restou, de tudo isso nos falam os escombros ou as paredes que se mantiveram de pé”, lê-se na contracapa do novo livro da jornalista Vanessa Fidalgo, Lugares Abandonados de Portugal.


No seu novo livro, Vanessa percorre o país de norte a sul e revela-nos a história de dezenas de lugares abandonados, das quais hoje salientamos três. Descubra já quais são!
Só a solidão mora em Banzeres
Banzeres, em Trás-os-Montes, é hoje um lugar triste e só. Dele apenas reza o mapa e meia dúzia de histórias que os mais antigos contam ao serão. Mas não são histórias bonitas. Até porque a desolação que ali impera não advém apenas do facto de esta ser uma das muitas aldeias que estão abandonadas no extenso mapa da desertificação do interior de Portugal. Ali, as ruínas guardam não só a lembrança dos tempos em que a aldeia tinha gente e vida, mas também de dor e doença.
O caminho em pó e terra batida que conduz à antiga povoação começa junto do Santuário de Santo Ambrósio, mas parece não levar a lugar algum.
Depois, um tanto ou quanto inesperadamente, o caminho abre-se para um vale recortado pelo rio Azibo e começa a vislumbrar-se uma povoação-fantasma, ali mesmo em pleno coração do concelho de Macedo de Cavaleiros. As carcaças das velhas casas desprovidas de vida dão um aperto no estômago. E deixam uma interrogação no ar: o que terá acontecido repentinamente aos seus habitantes? Por que razão, a dada altura, resolveram deixar tudo para trás? No caso de Banzeres, a resposta dificilmente poderia ser mais sinistra: uma epidemia desconhecida dizimou, há cerca de cem anos, grande parte da população.
Ninguém sabe como se chamava tamanha e tão nefasta maleita, nem o que a causou. Através do tempo, consolidou-se a versão de que teria sido por causa da lavagem de um caixão, cujos restos terão contaminado a água das fontes e do rio Azibo, dando origem à terrível peste. Pelo menos, é esta a tese que convenceu os autores António Fernandes e António Sousa Araújo, que a transcreveram na obra Santos Ambrósio.
A verdade é que terão morrido perto de cem homens, mulheres, crianças e até animais. Os poucos sobreviventes, em pânico e com medo da morte que lhes rondava a casa, fugiram para as aldeias mais próximas. E muitos anos terão demorado até ganharem coragem de voltar e recuperar os seus haveres.
Nessas aldeias vizinhas, raro é o habitante que não tenha ouvido falar em Banzeres (ou «Banrez», como se diz na pronúncia local). Dizem que o «local é estranho» e «até o ar dá medo».
Da tragédia existe uma única sobrevivente, que obviamente não gosta de tocar no tema. Um ´assunto´, que lhe roubou tudo, até a família, ainda em tenra idade. Helena Cavalaria tinha apenas um mês de vida quando a epidemia se abateu sobre a sua casa. Foi levada por uma madrinha para bem longe do lugar maldito. Todos os seus pereceram. Não se lembra de nada, mas vezes sem conta ouviu contar a história das suas gentes e do seu lugar: «Nunca se soube o que aquilo foi, mas o que se ouvia contar era que, como morria muita gente mas não havia dinheiro para funerais, o caixão usado na aldeia era comunitário. Decidiram, um dia, ir lavá-lo numa fonte onde corria muita água. As pessoas diziam que foi de terem lavado lá o caixão… espalhou-se uma peste qualquer», recorda com pouca vontade.
Os escassos registos históricos e demográficos que existem sobre o local falam de uma epidemia de febre tifóide ou paludismo, conforme escreveu Manuel Cardoso, em Lampaças e Ledra – Subsídios para história da região de Macedo de Cavaleiros. Alguns estudiosos debruçaram-se sobre o assunto, mas de acordo com a autarquia nunca nenhum conseguiu chegar a uma conclusão certa sobre o que tinha levado uma comunidade inteira para debaixo da terra.
Mas, curiosamente, este não é o único mistério daquela terra fantasma de Trás-os-Montes, uma região, aliás, sempre cheia de histórias para contar.
Em Vale da Porca, aldeia vizinha, conta-se que, há uns anos, um grupo de raparigas ia a pé para casa quando foram surpreendidas por uma alcateia de lobos ferozes. De repente, «a porta da capelinha de Santo Ambrósio (que fica às portas de Banzeres) abriu-se para as meninas entrarem, fechando-se de seguida. Só depois de os lobos passarem e já não haver qualquer perigo é que a porta voltou a abrir-se.» Enfim, lendas de um povo com alma de poeta!
(página 15 do livro de Vanessa Fidalgo, Lugares Abandonados de Portugal)
O lugar onde a saudade matou
Poucos lugares esquecidos em Portugal têm uma história tão tragicamente romântica como a famosa Quinta do Comandante, em Oliveira de Azeméis. Um amor que o tempo nunca gastou e que nem a morte apaziguou. Um amor que a própria terra nunca esqueceu.
A mansão, que no início do século XX era uma das mais luxuosas da região, foi originalmente baptizada como Quinta do Outeiro, mas as gentes de Oliveira de Azeméis rebaptizaram-na de Quinta do Comandante, pois, como tantas vezes acontece quando a carismática figura de um proprietário se sobrepõe a tudo o resto. Pertenceu mesmo a um comandante da Marinha portuguesa, João Paes Batista de Carvalho.
Dele contam-se muitas histórias, umas certamente romanceadas pela paixão popular, outras mais próximas da realidade. E pelo meio de umas e outras, ainda há rumores de que uns certos fantasmas habitam o local…
Uma das versões que corre nas vozes da pequena comunidade rural que habita na vizinhança da Quinta do Outeiro (ainda ali vivem alguns dos antigos serviçais da família do comandante) tem contornos shakesperianos.
Por ali, ainda há quem jure lembrar-se de D. Eugénia, a bondosa e lindíssima mulher do comandante, que terá sofrido um fatal acidente, ao cair na escadaria principal da casa, que ficava na divisão da sala e das antigas bibliotecas, acabando por morrer. Baptista de Carvalho nunca se recompôs da morte da sua eterna amada. Com o passar dos anos, o luto não acalmou a dor e foi fazendo danos na sanidade mental do comandante.
Não obstante esse estado de fragilidade emocional, certa noite, convidou todos os seus melhores amigos e familiares para um lauto jantar. A meio do banquete, porém, levantou-se da mesa, e dirigiu-se ao seu quarto, onde pegou num revólver que tinha guardado e se suicidou, para espanto e terror de todos os presentes que, sem o saberem, tinham sido convidados não para uma festa mas sim para o derradeiro adeus do comandante…

As primeiras informações oficiais sobre a Quinta do Comandante, disponíveis no acervo da Biblioteca Municipal de S. João da Madeira, remontam a 18 de setembro de 1836, quando, na Igreja de S. João da Madeira, o padre José Joaquim Correia de Magalhães baptizou com o nome de José Maria um recém-nascido filho dos abastados Maria Joaquina Correia de Magalhães, natural de Casaldelo, S. João da Madeira, e de Joaquim José da Fonseca, que naquele tempo eram os proprietários da Quinta do Outeiro.
Ainda em meados do século XIX, a quinta terá passado para as mãos do filho de ambos, Manuel Joaquim da Fonseca, que era informador de impostos da região.
José Maria da Fonseca, o recém-nascido, cresceu forte e com um coração de ouro. Foi um dos maiores beneméritos da região e, segundo rezam os arquivos municipais, fez um donativo ao Hospital de Oliveira de Azeméis de astronómico valor para a época, concretamente 4320$230 réis.
Os registos só voltam a dar conta da quinta em 1955, altura em que João Paes Baptista de Carvalho (uma alta patente da Marinha portuguesa que já tinha sido comandante do navio Quanza, da Capitania do porto de Matosinhos e nesse mesmo ano chefiava o Departamento Marítimo do Norte) era proprietário da quinta, por via do casamento com Inês Eugénia Knall da Fonseca, a legítima herdeira da Quinta do Outeiro.
D. Eugénia, por seu turno, recebera a propriedade como presente de casamento da mãe, uma senhora alemã que frequentemente visitava a filha, passando longos períodos de férias no Outeiro.
Mas quem era afinal o comandante João Paes de Carvalho? Ao que tudo indica, um homem inteligente, diplomático e de convicções e amores fortes. Natural de Ponte de Sor, ficou órfão de pai em tenra idade, o que levou a sua mãe a mudar-se com os filhos para Coimbra. Lá cresceu e se fez homem mas, com cerca de 18 anos, desagradado com a decisão de sua mãe de voltar a casar-se, saiu de casa, abandonou os estudos de Engenharia e enveredou pela aviação naval – ramo aéreo da Marinha portuguesa que existiu até 1917 -, onde fez o curso de cadetes.
Em 1920, numa viagem ao Porto, avistou Inês Eugénia Knall da Fonseca, jurando logo ali que havia de a levar ao altar! Antes disso teve de ultrapassar um duro obstáculo: o sogro conservador, pouco disposto a entregar a mão da única filha a um «aviador maluco», segundo as suas próprias palavras. Mas Eugénia causara tal impressão em João Paes de Carvalho que este decidiu abdicar da aviação, trocando-a pelos navios da Marinha. Dessa forma, conquistou permissão para desposar Eugénia. Imagine-se agora a dor que não terá sentido ao perdê-la!
Sobre o seu percurso militar contam-se também inúmeras histórias que revelam alguns dos traços da sua personalidade carismática. João Paes de Carvalho entrou para a Marinha precisamente no fim da Primeira Guerra Mundial. Na Segunda Guerra, apesar da neutralidade de Portugal, o comandante viu-se envolvido num delicado episódio: certo dia, foi detectado um submarino alemão em águas territoriais portuguesas, junto ao Porto. Sob as ordens de João Paes, o submarino foi interceptado e aprisionado. Porém, na sua maneira de ser «generosa e humanitária», o comandante considerava que os alemães, mesmo não sendo amistosos, eram, antes de mais, seres humanos, tendo-os tratado tão bem que acabou por ser condecorado pelo governo de Hitler.
O seu amor pela esposa, Inês Eugénia, era infinito. Era a maior de todas as suas devoções. Mas Inês Eugénia perdeu a vida precocemente aos 53 anos, o que levou o comandante a pedir, logo de seguida, passagem à reserva. Como tantas vezes acontece com casais que se amam toda uma vida, o que sobreviveu não durou muito mais. No Porto, a 15 de Dezembro de 1970, o comandante, que dá hoje nome à quinta, suicidou-se com um tiro na cabeça.
A construção da casa principal da Quinta do Outeiro data de 1792, segundo inscrição na pedra da entrada.
Nos seus tempos áureos, guardava relíquias pouco habituais para a época: «Aquilo era quase uma casa museu. Tinha uma variedade de peixes marinhos que o comandante trazia que era um sonho. E animais embalsamados era por todo o lado. Tinha armas de toda a qualidade: pistolas, espingardas, eu sei lá!... Eu gostava era dos quadros: tinha colecções muito bonitas pelas paredes», descreveu ao jornal A Voz do Caima - de 15 de Abril de 2002 – Fernando «Batata», nascido e criado na terra e amigo da família.
Miguel Paes, o filho mais novo do comandante, explicou que a autoria da Casa se deve ao avô, Pedro Maria da Fonseca, que tinha como hobbie a pintura. «O meu avô pintava muito bem. Teve aulas com granes pintores da época e pintou a casa toda, desde o tecto às paredes, passando por um arco que dividia a sala, com flores e animais aquáticos.»
Apesar do adiantado estado de degradação em que a casa se encontra, ainda por lá se avistam os antigos pertences e o mobiliários que fazia parte do quarto do comandante, situado no segundo piso na casa, sendo a divisão mais à direita de quem sobre as escadas. Ou os animais de loiça do século XIX, originais da Fábrica de Loiças das Caldas, e que eram também pertença do sogro do comandante que, a certa altura, se tornou discípulo de Columbano Bordalo Pinheiro.
A existência de material bélico era natural, uma vez que o seu proprietário era oficial da Marinha. Havia armas antigas, munições, uma série de espingardas, pistolas, revólveres, que também se mantêm, actualmente, na família.
«A casa tinha todo um, charme especial. As melhores recordações que guardo são os tempos de infância, das brincadeiras com os miúdos que se juntavam ali. A casa e a quinta eram muito grandes, oferecendo muitos esconderijos, que eram um regalo para as nossas brincadeiras e que nos maravilhavam», segundo depoimento de Miguel Paes ao jornal A Voz do Caima, sobre os tempos em que por ali todos viviam felizes e sem o peso dos seus fantasmas…
Na verdade, entre factos e lendas há outra fama que paira sobre a velha quinta do distrito de Aveiro e que já correu o país em sites, fóruns, redes sociais e notícias nos jornais locais. Dizem que esta casa está assombrada. A reputação advém-lhe de pretensos relatos de visões fantasmagóricas por parte dos vizinhos e, claro, da sempre magnífica combinação do imaginário popular com a realidade.
Por causa disso, muito atrevem-se a visitá-la. E juram a pés juntos que, com um bocadinho de «sorte», até é possível ver reflectidos nas paredes enegrecidas pela humidade o espectro da antiga dona e quase de certeza que não se consegue escapar às geladas correntes de ar que já deixaram a tremer (ou a suar em bica!) os muitos aventureiros que teimaram em tirar a limpo os rumores que há muito se espalharam sobre a quinta, e fizeram dela uma das mais famosas do país.
Todas estas histórias fazem sorrir Ricardo Freitas Pinheiro, responsável pela divisão de património histórico e cultural da Câmara Municipal de Oliveira de Azeméis: «Aparece muita gente à procura da casa, o que se justifica pelo seu elevado interesse patrimonial e pelo facto de ser inacessível à maioria dos oliveirenses. São curiosos e sobretudo fotógrafos que aproveitam para tirar fotos, atraídos pelo mistério que a casa inspira», confirma.
A quinta onde está inserido o palacete foi há alguns anos comprada pela autarquia, que posteriormente a cedeu à Universidade de Aveiro, que recentemente ali instalou o pólo universitário de Aveiro Norte. Todavia, as aulas decorrem apenas num edifício novo e propositadamente construído para o efeito. «Até porque o palacete continua na mão dos herdeiros. A Câmara só adquiriu a quinta em redor», explica Ricardo Freitas Pinheiro.
Pena é que continue em estado de completa degradação. «O seu estado de abandono é total, o que é lamentável, mas a Câmara nada pode fazer sem o devido acordo dos proprietários. Já estes não conseguem desfazer-se dela, pois serão muitas as memórias que encerra, mas em contrapartida – suponho eu – também não conseguem arcar com as obras de requalificação, que teriam de ser muito profundas e de valor elevadíssimo», refere o responsável do património concelhio, lamentando que aquele seja «um espaço que podia ser bonito e servir a população» em vez de aspirar apenas à ruína total.»
(página 65 do livro de Vanessa Fidalgo, Lugares Abandonados de Portugal)
Amores eternos
Em terra pródiga em histórias de arrepiar, costa que há um lugar em que dois amantes continuam a encontrar-se e a amar-se, pouco se importando que o seu sepulcral amor cause calafrios aos vivos. Pelo menos é esta a fama que coube em sorte à Quinta da Bela Vista, em Sintra.
Segundo as histórias populares, a propriedade foi erguida entre o final do século XVIII e o início do século XIX, para servir de casa de veraneio a um duque de Lisboa com fama de pinga-amor. Sempre que o estio se impunha no calendário, lá vinha o duque de charrete com nova e arrebatadora paixão. Isto quando não se tomava de amores por outra a meio da estadia, e logo substituía a infeliz preterida na alcova. Era tal o ímpeto conquistador do duque, que o corrupio de moças se tornou famoso por aquelas bandas. Mas uma delas há-de ter sido certamente mais marcante e, sobretudo, mais duradouro do que todas as outras…
Contam os sintrenses, sempre orgulhosos dos seus fantasmas, que um casal inglês que arrendou a mansão à procura de uns dias de sossego saiu de lá com mais do que fotos bonitas das férias.
A meio da noite eram surpreendidos pelo som de risadas, valsas e passos de dança vindos do piso inferior. Já eram gente de certa idade, mas feitos daquela fibra que não se deixa assustar com facilidade (ou talvez já viessem acostumados a privar com algum fantasma inglês) e, por isso, certo dia, resolveram descer as escadas de lanterna na mão e investigar por sua conta e risco. Deram então de caras com um espectral casal a dançar envolto numa névoa e a brindar, imagine-se, com vinho do Porto.
Se moral da história houvesse, poder-se-ia escolher das duas uma: ou o verdadeiro amor realmente é eterno ou nem o mais galanteador dos homens pode afirmar com toda a certeza que nunca há-de deixar-se prender pelo coração…
Para lá da lenda, a Quinta da Bela Vista existe de verdade. É uma antiga propriedade datada de finais do século XIX/inícios do século XX e situa-se no Cacém (concelho de Sintra), compreendendo uma vasta área entre a ribeira das Jardas e a Rua Ribeiro de Carvalho.
No século XIX, a quinta foi adquirida por Joaquim Ribeiro de Carvalho (1889-1942), político da Primeira República Portuguesa, jornalista, escritor, poeta e tradutor, que ali mandou construir uma bela casa no início do século XX. Inicialmente, era habitada somente aos fins-de-semana, depois, já no final da sua vida, passou a utilizá-la em permanência, tendo ali vindo a falecer.
Na Quinta da Bela Vista, o ilustre escritor e jornalista escrevia os seus livros, fazia traduções e preparava os artigos para os jornais, especialmente os editoriais para o República, do qual foi director. Dedicava-se também com empenho à vinha que ali possuía, pois além de letras Ribeiro de Carvalho fazia questão de produzir o seu próprio vinho.
A Câmara Municipal de Sintra, que é a sua actual proprietária, fez algumas obras de requalificação da fachada, pois o edifício estava há décadas em perigo de ruína iminente. Contudo, ainda está muito por fazer apesar dos esforços e apelos à sua conservação levados a cabo por vários movimentos de cidadãos que, inicialmente, propunham criar um núcleo museológico com o espólio de Ribeiro de Carvalho que a própria família estava disponível para doar.
(página 85 do livro de Vanessa Fidalgo, Lugares Abandonados de Portugal)

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