Livros que transformam os leitores em detetives

Por Ana Bárbara Pedrosa
17 de janeiro de 2020
Volta e meia, tem graça querermos saber mais do que o autor. A leitura de um policial parte da busca pelas pistas. O autor já sabe como é que a história acaba, quer manipular quem o lê. E quem o lê quer chegar lá antes de tudo ser explicado.


NO INÍCIO, ERAM DEZ…
Parece batota referir Agatha Christie, mas seria um escândalo se nos faltasse. Agatha Christie fez Hercule Poirot e Miss Marple, mas este foi o primeiro livro sem um detetive determinante para a colagem das peças. Assim, o detetive somos nós. A premissa dá logo a volta à cabeça: dez desconhecidos, sem aparente ligação, são atraídos para uma mansão numa ilha por U. N. Owen. Durante um jantar, o anfitrião acusa os convidados de esconderem um segredo. Nessa mesma noite, dá-se a primeira morte. A partir daí, vão caindo como tordos, e é evidente que o assassino está entre eles, é um deles e vai continuar a matar sem complacência. O livro tem traços de terror e ao leitor cabe tentar apanhar pistas no ar para saber mais do que as personagens. Será que consegue? Christie não lhe deixou uma tarefa fácil.
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ARSÈNE LUPIN, CAVALHEIRO LADRÃO
Arsène Lupin é um ladrão e um cavalheiro. Parece que é dizer pouco, mas a junção, aliada a uma inteligência extraordinária e a uma capacidade ímpar de ludibriar, permite-lhe mudar de identidade consoante a sua vontade para cometer furtos. Lupin fala e quem o ouve acredita, moldando-se ao seu interlocutor, sendo credível, afável, de confiança. Aos poucos, vai deixando de ser ladrão para se transformar em detetive (a personagem figura de 18 romances, 39 novelas e 5 peças de teatro), mas o que nunca cai é a capacidade que o leitor tem de se interessar por ele e de querer entender-lhe os passos. A sua capacidade de disfarce prova a sagacidade e as histórias montam-se como um puzzle que o leitor também quer montar.
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SR. MERCEDES
Do terror ao policial, Stephen King vai a todas. Aqui, temos uma situação difícil de conceber. Numa manhã, o condutor de um Mercedes roubado abalroa os desempregados que se enfileiram numa feira de emprego. Se alguém tem dúvidas sobre as intenções, estas são logo quebradas, já que o condutor recua e avança novamente. Morrem oito pessoas, quinze ficam feridas, o assassino põe-se a andar. Meses mais tarde, o detetive Bill Hodges, então reformado, vê-se ainda perturbado pelo crime que nunca pôde desvendar. E é aí que a ação começa a sério, quando Hodges recebe cartas de alguém que se intitula «O Assassino do Mercedes» e que ameaça novo ataque. Hodges sai da sua reforma entediante, e nós vamos com ele, dispostos a resolver o mistério, querendo um face a face com o assassino que ousa fazer uma ameaça – e logo a de fazer sucumbir milhares.
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