Livros que os adolescentes ainda não descobriram que são bons
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5 de janeiro de 2024
Quando descobrirem, vai ser um pé de vento para lhos arrancar das mãos. Para evitar conflitos, talvez o melhor seja mesmo deixá-los em paz a brincar com as folhas.
Nós contra os outros
Aqui entre nós, talvez não o tenham descoberto porque chegou há pouco a Portugal, mas Backman calha sempre bem para qualquer leitor, em especial o que quer descansar a cabeça. Em Björnstad, mora gente forte e trabalhadora. Como sabem o que é a vida, não esperam justiça. Vai daí e a vida real vai acontecendo também. Passa-se qualquer coisa que quase dá cabo da cidade e, a seguir, tragédia das tragédias, a equipa de hóquei está prestes a deixar de existir. Ainda por cima, os antigos jogadores tinham-se mudado para a equipa rival. Isto seria equivalente a perdermos o Futebol Clube de Vizela enquanto reforçávamos o Arouca. Facada em cima de facada. A rivalidade aumenta, um político manobra os bastidores, chega um forasteiro para treinar o renovado clube. Como isto mete bola, apesar de também meter bastões, a violência começa a subir em catadupa. É a vida no que de mais banal tem, e que o entusiasma mais do que a verdade que há em todos os dias. Em suma, é divertido.
QUERO LER!
A estrela da manhã
Qualquer hora da vida é boa para ler Knausgård, desde que se prepare o palato. Depois da série autobiográfica A Minha Luta, que raio podia vir daquelas mãos? Veio este livro, que tantas características já conhecidas traz: a prosa palavrosa, o mergulho num pensamento que foge por ali fora, personagens que se sentam com os leitores à mesa. Abrir o livro passa, então, por, em pleno agosto, sentarmo-nos com Arne e Tove, que estão com os filhos na casa de verão. Bastam duas ou três páginas e já estamos ali com eles: o detalhe é tanto que não há como julgar que aquilo é inventado, que há distância entre quem lê e é descrito. E lê-lo passa também por ouvir a voz de Egil, que mora ali perto. Ou mesmo em entrar no avião com Kathrine, uma pastora religiosa preocupada com o próprio casamento. E por aí fora. O conjunto de personagens é formidável. Knausgård, já se sabe, também é.
QUERO LER!
Cartas a Sandra
Provavelmente, os adolescentes já o souberam, mas entretanto esqueceram-se: Vergílio Ferreira é do caraças. Muitas horas, ali pelos 15 anos, passámos os dois no meu quarto: ele em formato papel, eu em formato alegria de quem o descobre como quem cai pela primeira vez. O livro, que ficou inacabado devido à morte do autor (e logo no momento em que Vergílio Ferreira queria esgotar a personagem), é das mais belas páginas do género epistolar que já me passaram pelas mãos – e eu até uma carta do Pai Natal já recebi. Ainda por cima, o romance dialoga com outros do autor, abrindo com uma apresentação de Alexandra, filha de Paulo e Sandra, de Para Sempre. Com um lirismo que sabe a x-acto, fica, por parte da voz ativa, o desejo de comunicação quando já não é possível ter resposta. Lê-lo implica querer ouvir, e querer assumir a lentidão como força bruta em vez da ação rápida do quotidiano.
QUERO LER!
História essencial do mundo
Wells não é só invasões de extraterrestres à Terra, prontos para nos limparem o sebo a todos, embora isso seja, claro, a maravilha que se sabe. Mas o homem, que até máquinas do tempo inventou, é muito mais do que isso. Aqui, aliás, também inventa uma, mas em sentido menos metafórico. Em vez do voo pleno da hipótese testada num romance, levada até às últimas consequências, temos um olhar sobre a vida como existiu. Neste livro, Wells volta-se para trás, oferecendo ao leitor uma síntese do que se passou com o mundo em geral desde a Antiguidade até ao século XX. Foi publicado em 1922, por isso não se conte com os feitos de Ronaldo – aliás, esses nem cabem num livro. Mas conte-se, isso sim, com um olhar abrangente que, por ter tanta coisa dentro, parecerá pôr cola nas mãos dos leitores que lhe peguem.
QUERO LER!