Literatura sobre guerra
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20 de fevereiro de 2025
Não faltam relatos nem cogitações sobre o que foi ou terá sido. De seguida, vão algumas sugestões de livros que não deixam de chocar – principalmente por sabermos que têm um fundo de verdade.
Guerra e Terebintina
Veio da vida a sério, sem fingir que não veio: durante trinta anos, Stefan Hertmans guardou os diários do avô, que fora soldado durante a Primeira Guerra Mundial. O que tinha em mãos era um testemunho histórico singular, mas passou muito tempo até que Stefan lhe pegasse: afinal, havia uma proximidade que o fazia olhar de forma emocional para o documento. Em 2010, o autor pegou nos diários e começou a contar aquela história, mudando muita coisa: como a linguagem mudara entretanto e os diários consistiam em 600 páginas de prosa, teria de ser ele a fazer a sua marosca de escritor. E assim surgiu este livro, cuja prosa é sempre terna e elegante: a primeira parte inclui a memória do neto sobre o avô; a segunda é o ponto de vista do avô; a terceira é uma paixão antiga. Hertmans demorou trinta anos a não ler os diários e quatro a escrever o que dos diários veio. Para quem lê, os dois prismas têm igual importância: a guerra que dá cabo do mundo e a relação pessoal, emocional, que se estabelece com ela através dos laços familiares.
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É a guerra
Aqui, temos um relato na primeira pessoa, de quem viu a Primeira Guerra Mundial aproximar-se. À época em que a guerra começava a estourar, o escritor português Aquilino Ribeiro vivia em Paris. Ali começou a escrever sobre os primeiros tempos do conflito, as dúvidas a ele associadas, o que não se sabia, os zunzuns. Ao ler, percebe-se ali um misto entre diário e reportagem que versa sobre os primeiros dois meses da guerra, tendo o texto sido publicado vinte anos depois de ter sido escrito. O que ali está conta muito da vida e também do que se passa fora de um campo de batalha: há um extremar de emoções que cria ódios, incluindo aos pacifistas; há mobilizações que caem na sociedade inteira; há o temor de que as casas sejam bombardeadas; há uma forma maniqueísta de ver o mundo, a desconfiança sobre o outro; há assaltos, saques, mortes, crises de abastecimento. E, sobretudo, há a sensação de que a vida nunca mais será a mesma.
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Marcha para a morte!
Neste livro, temos mesmo a experiência de um soldado no campo de batalha, contado pelo próprio. Antes de ser autor, Misuki quase literalmente deu o corpo às balas. O livro baseia-se em factos, o que não significa, claro, que tudo seja facto. Assim como assim, temos uma companhia da infantaria japonesa em ação no final da Segunda Guerra Mundial. Enquanto avançam, têm uma ordem, após um ataque kamikaze frustrado, e que é difícil de cumprir: devem morrer em honra do seu país. Caso contrário, cumprir-se-á a ameaça: serão executados assim que regressarem das batalhas. Enquanto se lê, percebe-se a falta de esperança dos soldados: façam o que fizerem, o destino é apenas um – não há destino. Desmoralizados, vão cumprindo as ordens, e o leitor assiste a uma mistura entre brutalidade e banalização da morte e falta de noção dos soldados. Andam e cumprem ordens como autómatos, e na maior parte do tempo só querem matar a fome.
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A bomba
É um dos episódios mais dramáticos e escandalosos da história da Humanidade. Neste livro, vemos o contexto de criação da bomba que deu cabo de Hiroxima em 1945. A guerra acabou aí – mas também acabou um tipo de paz. Quadrinho a quadrinho, A Bomba mostra o processo anterior ao estouro, contando o contexto, a decisão de lançamento, a escolha da cidade. E, como não dá para viver sem isto, o leitor também vê, sem complacência, as consequências que a bomba teve nas vítimas. A opção de juntar texto e imagem sabe a coisa abrangente: o leitor não só lê, mas vê também a tragédia a acontecer, e isto inclui os passos, os protagonistas, os bastidores políticos do mundo. Lido o livro, fica percebida a história: acede-se ao que passou pela cabeça de quem decidiu lançar a arma mais mortífera que passou pelas mãos humanas.
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